Implantes de gestrinona demonstram boa tolerabilidade e perfil de segurança, representando um marco no tratamento da endometriose
Vanessa Kopersz* Publicado em 17/04/2026, às 06h00

A endometriose, que afeta de 5 a 10% das mulheres no Brasil, é uma condição que causa dor pélvica intensa e atualmente é tratada principalmente com cirurgias e hormônios, que podem ter efeitos colaterais significativos.
Um novo estudo, conduzido pelo Dr. André Malavasi, demonstrou a segurança do uso de implantes de gestrinona, um derivado sintético, como uma alternativa promissora para o tratamento da endometriose, com resultados positivos em mulheres entre 18 e 50 anos.
O estudo, que envolveu 100 mulheres e foi realizado em sete locais no Brasil, mostrou que o implante teve um perfil de segurança aceitável e boa tolerabilidade, representando um avanço significativo nas opções de tratamento disponíveis para a doença.
A endometriose é uma condição ginecológica dolorosa na qual o tecido que reveste a parte de dentro do útero, o endométrio, cresce fora do órgão - e é a principal causa de dor pélvica, afetando de 5 a 10% das mulheres. No Brasil, mais de sete milhões de mulheres convivem com a doença, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Atualmente, a maior parte dos tratamentos para a endometriose consistem em cirurgias (destinadas às mulheres elegíveis para tal) ou aplicação de hormônios via oral, o que pode gerar efeitos colaterais indesejados (queda de cabelo, surgimento de pelos, voz grossa, acne, pele oleosa e aumento de clitóris, entre outros) devido à passagem do medicamento pelo fígado. E infelizmente, algumas das mulheres que se submetem ao tratamento cirúrgico voltam a ter queixas da doença.
Mas há um novo sopro de esperança para a cura da endometriose: o estudo Glade, conduzido pelo Dr. André Malavasi, PHD, médico no Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, comprovou a segurança do uso de implantes da gestrinona, derivado sintético da 19-nortestosterona, para o tratamento da doença.
O estudo, que teve duração de três anos e foi viabilizado pela farmacêutica Biós, teve como objetivo determinar a não inferioridade do perfil de segurança e tolerabilidade de um implante subdérmico bioabsorvível de gestrinona (85 mg) em comparação com placebos. As mulheres participantes, com idades entre 18 e 50 anos, apresentaram endometriose confirmada por exame histopatológico, sem nenhuma lesão mamária suspeita, também foram contempladas com o uso do DIU de Levonorgestrel (Kyleena) para que não engravidassem durante o processo.
‘’Este foi um estudo de fase II, randomizado, multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo, realizado em sete locais no Brasil’’, explica o Dr. Malavasi.
Para o estudo, um total de 100 mulheres recebeu um implante de 85 mg de gestrinona subcutânea ou placebo e foram acompanhados entre todas as 24 semanas para detecção de desfechos de segurança, eventos adversos, avaliações clínicas e medidas de qualidade de vida.
Nenhum evento adverso grave relacionado ao tratamento foi relatado em ambos os grupos ao longo das 24 semanas, incluindo nenhuma morte.
Eventos adversos relacionados ao tratamento (acne, hirsutismo, engrossamento da voz, alopecia e aumento de clitóris) ocorreram em 44% do grupo que usou a gestrinona e 24% desses efeitos colaterais foram relatados no grupo que usou o placebo, apresentando intensidade leve a moderada.
Os níveis séricos de gestrinona atingiram o pico na 8ª semana, chegando a 4,82 ng/mL, e caíram após a 16ª semana - e pela primeira vez na história, no mundo, essa medição foi possível nesse tipo de estudo, graças à espectrometria de massa, um método analítico de quantificação de substâncias químicas e hormônios - o mais preciso que existe. A medição também foi possível pois algumas pacientes aceitaram dosar de hora em hora, semanalmente, os níveis de gestrinona no sangue.
O estudo em mulheres que passaram por cirurgia para endometriose e apresentaram dor persistente que não respondeu às terapias farmacológicas padrão, trouxe à luz que o uso do implante de gestrinona bioabsorvível de 85 mg em combinação com um sistema intrauterino liberador de levonorgestrel (LNG-IUS) demonstrou um perfil de segurança aceitável e boa tolerabilidade, atendendo a uma necessidade clínica dentro do contexto de opções de tratamento limitadas. Isto representa um novo marco no tratamento da doença no Brasil e no mundo. ‘’Estamos radiantes com a possibilidade concreta e baseada em evidências sólidas de um horizonte de cura e controle para os milhões de mulheres que sofrem com a endometriose no mundo’’,conclui o Dr. Malavasi.
* Vanessa Kopersz é jornalista.
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