Reconhecendo o extrativismo da atenção: como retomar o controle sobre nosso uso das redes sociais e não viciar. Conheça o livro um minuto da sua atenção
Erick Carlier e Kim Loeb* Publicado em 07/09/2026, às 10h29

A Meta, responsável pelo Instagram e Facebook, firmou um acordo em um processo judicial que a acusa de criar mecanismos que induzem à dependência em crianças e adolescentes, embora não admita culpa. O caso levanta questões sobre o impacto das redes sociais na saúde mental e no comportamento dos usuários mais jovens.
As acusações incluem o uso de design manipulativo, como notificações intrusivas e rolagem infinita, que prolongam o tempo de uso sem que os usuários percebam. Esses métodos são comparados a táticas de restaurantes que incentivam o consumo excessivo, explorando impulsos e vulnerabilidades emocionais.
Como parte do acordo, a Meta se compromete a restringir notificações durante horários escolares e a permitir que jovens escolham feeds não influenciados por algoritmos de recomendação. Embora o acordo represente um passo em direção a mudanças, a implementação pode levar até dez anos, enquanto os efeitos negativos das redes sociais continuam a impactar a saúde mental e o desenvolvimento infantil.
A Meta, dona do Instagram e do Facebook, fechou um acordo em um dos maiores processos de sua história. A acusação é grave: a empresa teria criado mecanismos que podem levar à dependência em crianças e adolescentes, mesmo conhecendo seus efeitos, e ocultado evidências que levam a viciar.
Apesar do acordo, a Meta não admite culpa. Mas o caso traz uma pergunta que não pode ser evitada: as redes sociais estão nos viciando? E, se estão, como fazem isso?
A acusação questiona as técnicas de design usadas para prolongar o tempo de permanência nas redes. É como se um restaurante recorresse a truques para nos fazer comer mais, mesmo sem fome, apenas para aumentar a conta.
As notificações intrusivas são um exemplo. Elas interrompem o que estamos fazendo e nos puxam de volta para o aplicativo. Seria como um garçom seguir uma criança com um brigadeiro, tocar um sino para chamar sua atenção e colocar o doce diante dela enquanto estuda ou dorme. Pelo acordo, a Meta deverá restringir notificações durante o horário escolar e na madrugada.
Outro recurso é a rolagem infinita. Antes, as páginas terminavam e era necessário clicar para continuar. Essa pausa criava um momento de decisão: sigo ou paro?
O inventor do scroll infinito, Aza Raskin, reconheceu o poder desse mecanismo. Sem sinais de pausa, explicou, o cérebro não tem tempo de acompanhar o impulso e a pessoa simplesmente continua rolando.
A lógica foi demonstrada por um experimento com sopa. Parte dos participantes recebeu tigelas comuns. Outra parte comeu em recipientes que eram reabastecidos por um tubo escondido. Quem recebeu o “refil automático” consumiu mais, porque perdeu a referência do fim. No feed, acontece algo semelhante.

Há ainda o algoritmo de recomendação. Vale voltar ao exemplo do restaurante. Imagine que há um mecanismo ali que grava tudo o que uma criança faz, ouve suas conversas, estuda seus hábitos e descobre quais pratos ela terá mais dificuldade de recusar. É assim que as plataformas analisam dados para oferecer conteúdos irresistíveis. Pelo acordo, crianças e adolescentes deverão ter a possibilidade de escolher um feed que não seja definido por esse mecanismo.
O autoplay segue a mesma lógica: um vídeo começa assim que o outro termina, sem que o usuário precise tomar uma decisão. É como se o garçom colocasse a sobremesa na mesa antes mesmo de perguntar se alguém a deseja.
Esses recursos não são exclusivos da Meta. Também aparecem no TikTok, Snapchat, YouTube e em outras plataformas. Por isso, parte das mudanças previstas no acordo depende da adoção de medidas semelhantes por outras empresas.
Em nosso livro 1 Minuto de sua Atenção (Editora Voo), identificamos 11 técnicas que consideramos formas de design manipulativo: notificações intrusivas, oportunidades de tempo limitado, vigilância coletiva, fricção zero, gamificação para engajamento, quantificação da validação social, gatilhos de dopamina, recompensas aleatórias, interface otimizada, IA preditiva (o chamado algoritmo de recomendação) e IA generativa. Esses mecanismos exploram impulsos, vulnerabilidades emocionais e pressões sociais para ampliar o tempo de permanência nas plataformas.
E os adultos?
O processo contra a Meta é relevante para a proteção de crianças e adolescentes. Mas existe uma questão incômoda: esses mecanismos também estão afetando os adultos?
Conferir o celular é a última coisa que você faz antes de dormir e a primeira ao acordar? Já sentiu o aparelho vibrar e descobriu que não havia nenhuma notificação? Entrou para consultar algo rapidamente e acabou perdido em outros conteúdos? Pega o telefone automaticamente diante de qualquer momento de tédio?
É provável que a resposta seja “sim” para mais de uma dessas perguntas. Isso também acontece conosco. Não se trata de falta de disciplina individual. As plataformas foram projetadas para disputar nossa atenção a cada instante.
O acordo pode representar o começo de uma mudança, embora a Meta tenha um prazo de até dez anos para implementar algumas medidas. Enquanto isso, precisamos reconhecer os mecanismos usados para nos manter conectados.
Se um restaurante nos espionasse, interrompesse nosso sono, eliminasse a sensação de saciedade e usasse informações íntimas para aumentar nosso apetite, consideraríamos isso inaceitável. No ambiente digital, porém, naturalizamos práticas semelhantes.
A conta aparece na forma de ansiedade, estresse, depressão, prejuízos ao sono e dificuldades no desenvolvimento infantil. No plano coletivo, surgem outros efeitos: desinformação, polarização e extremismo.
Não se trata de declarar guerra à tecnologia, às telas ou às redes sociais, mas sim de identificar o problema e exigir mudanças. Chamamos esse modelo, baseado na captura contínua e na exploração comercial do nosso tempo, de “extrativismo da atenção”.
As plataformas disputam nossa capacidade de escolher o que merece atenção e não apenas os minutos que passamos diante da tela . Retomar o controle significa voltar a decidir quando entrar, quanto permanecer e quando parar.
*Erick Carlier e Kim Loeb são fundadores da organização Um Minuto de Sua Atenção e coautores do livro 1 Minuto de sua Atenção. Atuam na educação e conscientização sobre tecnologia, mídia e proteção da atenção.