Entenda como o uso excessivo de telas pode impactar o desenvolvimento emocional das crianças e a importância da presença dos adultos.
Claudia Melo* Publicado em 21/04/2026, às 06h00

A infância está sendo impactada pela presença excessiva de telas, que podem interromper o desenvolvimento emocional das crianças ao oferecer respostas rápidas e distrações constantes.
A falta de experiências como frustração e tédio pode dificultar a capacidade das crianças de sustentar emoções e estabelecer vínculos profundos, uma vez que o desenvolvimento emocional requer a presença genuína de outros.
É fundamental reequilibrar o uso da tecnologia, priorizando a qualidade do vínculo entre adultos e crianças, para que estas aprendam a se ver e a existir plenamente, em vez de dependerem das telas como refúgio.
Há algo muito delicado acontecendo diante dos nossos olhos. A infância, que sempre foi território de presença, descoberta e construção de sentido, tem sido atravessada por telas que chegam cedo, rápidas e intensas demais.
A criança não nasce pronta, ela vai se tornando. E esse tornar-se acontece na relação. No colo que acolhe, no olhar que encontra e na palavra que nomeia o que ainda é confuso por dentro. É nesse espaço entre o que se sente e o que se consegue dizer que o mundo emocional vai sendo tecido.
Quando o smartphone ocupa um lugar central na rotina infantil, algo dessa travessia pode ser interrompido. A tela oferece respostas rápidas para perguntas que a criança ainda nem teve tempo de sentir. Ela acalma, distrai e silencia. Mas também pode afastar a criança da experiência fundamental de estar consigo mesma.
Sentir frustração, esperar, se entediar, criar a partir do nada... tudo isso faz parte da construção de um eu mais integrado. Quando esses processos são constantemente evitados, a criança pode crescer com dificuldades de sustentar emoções, de se concentrar, de se vincular de forma mais profunda. Não porque a tecnologia, por si só, seja nociva, mas porque ela pode ocupar um espaço que é essencialmente humano.
Existe também uma dimensão que me atravessa como psicóloga: o risco de substituirmos o encontro pela mediação da tela. O desenvolvimento emocional não acontece no isolamento. Ele precisa do outro. De alguém que esteja ali, não apenas fisicamente, mas de forma inteira, disponível, implicado. A criança precisa ser vista para aprender a se ver.
Não se trata de excluir a tecnologia, mas de devolvê-la ao seu lugar. Um recurso, não um refúgio constante. Um instrumento, não um substituto da relação.
Talvez a pergunta mais importante não seja “quanto tempo de tela é permitido?”, mas “como estamos nos fazendo presentes na vida emocional das nossas crianças?”. Porque, no fim, o que sustenta o desenvolvimento não é o controle do uso, mas a qualidade do vínculo.
Crianças precisam menos de telas e mais de presença. Precisam de adultos que consigam permanecer, inclusive nos momentos difíceis, quando não há distração possível, apenas a oportunidade de sentir, nomear e atravessar juntos. É nesse espaço, simples e profundo, que uma criança aprende, pouco a pouco, a existir.
* Claudia Melo é psicóloga graduada pela Universidade Estácio de Sá e perita em crimes de pedofilia pelo CODI Brasil. Possui formação em Terapia Cognitivo Comportamental com Prática em Clínica Supervisionada, BRAINSPOTTING - ferramenta neurobiologia de apoio na relação clínica terapêutica - e está em andamento com a especialização em EMDR - Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares. Já atuou nos Hospitais Israelita e Badin, no Rio de Janeiro. Está alocada no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD).
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