Mariana Kotscho
Busca
» GERAÇÃO Z

O Paradoxo Existencial da Geração Z e a AI

A luta pela relevância no mercado de trabalho se intensifica, enquanto a Geração Z se vê em um ciclo de hiperprodutividade e crise existencial.

Jorge Matos* Publicado em 10/07/2026, às 06h00

A Inteligência Artificial domina os processos corporativos e implode a base da pirâmide do trabalho. - Foto: Canva Pro
A Inteligência Artificial domina os processos corporativos e implode a base da pirâmide do trabalho. - Foto: Canva Pro

A rápida evolução da Inteligência Artificial está transformando o mercado de trabalho, eliminando funções básicas que antes eram ocupadas por estagiários e juniores, o que gera uma crise de entrada para a Geração Z e uma pressão por produtividade extrema.

Os jovens enfrentam um ambiente de trabalho onde as expectativas aumentam constantemente, com a IA reduzindo o tempo de execução de tarefas, mas exigindo entregas ainda maiores, resultando em exaustão e um sentimento de inadequação.

É crucial repensar o conceito de produtividade para incluir a criatividade e não apenas o volume de trabalho, caso contrário, a IA poderá intensificar o esgotamento dos trabalhadores, especialmente da Geração Z, que já está sentindo os efeitos dessa transformação.

Resumo gerado por IA

A velocidade vertiginosa com que a Inteligência Artificial amadurece e domina os processos corporativos está implodindo a base da pirâmide do trabalho. Até pouco tempo atrás, tarefas operacionais e de assistência eram território exclusivo de trainees e juniores — o degrau obrigatório para o aprendizado prático. Hoje, a IA não apenas engoliu esse espaço com eficiência implacável, como escala velozmente rumo a patamares de alta senioridade.

Nesse cenário de obsolescência iminente, a tecnologia não trouxe alívio: para a Geração Z, ela eliminou a rampa de entrada no mercado e impôs uma nova ditadura da hiperprodutividade.

Essa juventude não é um bloco uniforme, e a IA fratura a geração em dores distintas. Na base, estão os entrantes (estagiários e juniores). Historicamente, compilar dados ou rascunhar e-mails funcionavam como uma "escola invisível", o tempo necessário para absorver a cultura corporativa. Com a máquina assumindo o básico em segundos, o direito de aprender desapareceu. O mercado agora exige maturidade estratégica instantânea de quem mal começou. O resultado? Um sentimento crônico de inadequação, a sensação de invisibilidade e um mercado com cada vez menos vagas de entrada.

Veja também

Já para os operantes (níveis plenos), o cenário é o de uma esteira ergométrica infinita. Se a ferramenta reduz a execução de um projeto de dois dias para uma tarde, não há descanso: exige-se o triplo de entregas no mesmo prazo. A IA roubou o respiro mental entre as tarefas. É a inflação das expectativas, onde o trabalho excepcional de ontem virou a linha de base obrigatória de hoje.

Eis o paradoxo existencial: dominamos as ferramentas mais velozes da história, mas os jovens nunca estiveram tão exaustos e ameaçados, correndo uma corrida impossível contra os algoritmos. E essa pressão está subindo a régua para todos. Se até Mark Zuckerberg já testa um "agente de CEO" para automatizar o seu próprio dia a dia na Meta, o sinal de alerta está ligado: ninguém está a salvo.

Diante disso, o futuro nos impõe mais perguntas do que respostas. Como o jovem iniciante provará seu valor se o seu ponto de partida foi automatizado? O que será das próximas gerações se as portas de entrada continuarem se fechando? Se a Geração Z está sendo o principal alvo agora, o que acontecerá com as gerações Y, X ou mesmo os Baby Boomers quando a IA atingir sua maturidade plena?

A tecnologia avança a passos firmes, mas o cérebro humano mantém seus limites biológicos. Se não mantivermos o espaço para os novos entrantes e redefinimos urgentemente o conceito de produtividade — valorizando o impacto criativo e não o mero volume mecânico —, a Inteligência Artificial servirá apenas para automatizar o nosso próprio esgotamento. E, na linha de frente desse colapso, a Geração Z é quem primeiro está pagando a conta.

* Jorge Matos é mestre em gestão de negócios pela FGV e especialista em desenvolvimento humano e CEO da Etalent.

Quer incentivar este jornalismo sério e independente? Você pode patrocinar uma coluna ou o site como um todo. Entre em contato com o site clicando aqui.