Mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais foram registrados no Brasil em 2024, afetando especialmente jovens profissionais
Renata Filardi* Publicado em 12/06/2026, às 06h00

O Brasil registrou mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, com a Geração Z sendo a mais afetada, refletindo um aumento significativo em relação aos anos anteriores e levantando preocupações sobre a saúde mental no ambiente de trabalho.
Os jovens enfrentam pressões intensas por resultados e adaptação em um mercado de trabalho desafiador, exacerbadas pela pandemia e pela cultura de comparação social, o que contribui para a crescente incidência de problemas de saúde mental entre eles.
As empresas precisam ir além de ações superficiais de bem-estar e adotar uma abordagem mais humanizada, promovendo ambientes de trabalho saudáveis e lideranças preparadas, para atender às expectativas da Geração Z e garantir a sustentabilidade dos negócios.
Os afastamentos por saúde mental nunca estiveram tão presentes nas discussões corporativas quanto agora. Dados recentes do Ministério da Previdência Social mostram que o Brasil registrou mais de 440 mil afastamentos relacionados a transtornos mentais em 2024, um crescimento expressivo em comparação aos anos anteriores. Ansiedade, depressão e burnout aparecem entre os principais motivos. E um dado chama ainda mais atenção: os jovens profissionais, especialmente integrantes da Geração Z, estão entre os mais impactados.
Esse movimento levanta uma reflexão importante para empresas, lideranças e profissionais de Recursos Humanos: afinal, o que está acontecendo com os jovens no mercado de trabalho atual?
A resposta não é simples. Estamos diante de uma geração que ingressou no mercado em um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas. A Geração Z cresceu em um ambiente de hiperconectividade, excesso de informação, mudanças tecnológicas aceleradas e forte exposição à comparação social. Soma-se a isso o impacto da pandemia, que afetou diretamente a construção das relações interpessoais, da segurança emocional e do amadurecimento profissional de muitos jovens.
Ao entrar nas organizações, esses profissionais encontram um cenário de alta pressão por resultados, necessidade constante de adaptação, insegurança sobre o futuro e cobrança por performance desde o início da carreira. Muitas vezes, são exigidos como profissionais experientes antes mesmo de terem tido tempo para desenvolver repertório, maturidade emocional e vivência corporativa.
Mas é importante fazer uma reflexão madura sobre esse tema: não estamos falando apenas de uma geração “mais frágil”, como muitas vezes o debate é colocado de forma superficial. Estamos falando de uma geração que aprendeu a verbalizar o sofrimento emocional, buscar ajuda e questionar ambientes de trabalho que não promovem relações saudáveis.
Pesquisas recentes mostram que cerca de 30% dos jovens da Geração Z já solicitaram afastamento por questões ligadas à saúde mental. Além disso, muitos afirmam não se sentir seguros para falar sobre o tema dentro das empresas. Existe ainda uma percepção crescente de incoerência entre o discurso corporativo sobre bem-estar e a prática cotidiana das organizações.
Esse é um ponto central da discussão. Durante muitos anos, saúde mental foi tratada como um tema individual, quase privado. Hoje entendemos que ela também é consequência direta da cultura organizacional, da qualidade da liderança, das relações de trabalho e da forma como as empresas estruturam seus ambientes.
As organizações precisam compreender que oferecer ações pontuais de bem-estar não é suficiente. Frutas no escritório, palestras motivacionais ou aplicativos de meditação não resolvem ambientes tóxicos, lideranças despreparadas ou jornadas emocionalmente desgastantes.
O grande desafio das empresas será equilibrar performance e humanização. Continuaremos precisando de produtividade, inovação e resultados. Mas o futuro do trabalho exigirá ambientes mais sustentáveis, relações mais transparentes e lideranças emocionalmente preparadas para lidar com pessoas em um cenário cada vez mais complexo.
O papel do gestor ganha ainda mais relevância nesse contexto. Liderar não é apenas acompanhar indicadores e entregar metas. É também criar um ambiente psicologicamente seguro, desenvolver pessoas, dar direcionamento claro, reconhecer esforços e construir relações de confiança.
Outro aspecto importante é que a Geração Z possui expectativas diferentes em relação ao trabalho. Essa geração valoriza propósito, flexibilidade, desenvolvimento, pertencimento e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Isso não significa falta de comprometimento. Significa uma mudança de mentalidade sobre o papel do trabalho na vida das pessoas.
As empresas que não compreenderem essa transformação terão cada vez mais dificuldade para atrair, engajar e reter talentos. Já aquelas que conseguirem construir culturas mais humanas, inclusivas e coerentes estarão mais preparadas para o futuro.
A saúde mental deixou de ser um tema secundário. Hoje, ela é estratégica para a sustentabilidade dos negócios, para a inovação e para a construção de ambientes corporativos mais saudáveis e produtivos.
Mais do que discutir os desafios da Geração Z, talvez o verdadeiro debate seja: as organizações estão preparadas para o futuro das relações de trabalho?
*Renata Filardi é presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro (ABRH-RJ).
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