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Da Terra do Gelo, lições de diversidade, equidade e experiência do cliente

O Método Hjalli promove igualdade de gênero e empoderamento infantil na Islândia, Terra do Gelo

Neiva Dourado Mendes* Publicado em 13/01/2026, às 06h00

Menina monta trator com brinquedo Lego
Crianças que passam pelo Método Hjalli mostram menos comportamentos “estereotipados” e mais confiança em atividades associadas ao gênero oposto. - Foto: Canva Pro

O Método Hjalli, desenvolvido na Islândia, propõe a separação de meninos e meninas em turmas para desconstruir estereótipos de gênero, promovendo a expressão e liderança das meninas e o autocontrole e empatia dos meninos, com o objetivo de formar adultos mais equilibrados e abertos à diversidade.

Estudos mostram que crianças que participam desse método apresentam menos comportamentos estereotipados e melhor capacidade de resolver conflitos, o que sugere um impacto positivo na formação de uma sociedade mais inclusiva e colaborativa.

Embora o método enfrente críticas por sua abordagem binária, ele serve como inspiração para empresas que buscam integrar diversidade e inclusão em suas práticas, destacando a importância de revisar processos internos e de atendimento para garantir equidade entre gêneros.

Resumo gerado por IA

"Todas as crianças devem ter todas as possibilidades do mundo, independentemente do seu gênero." Margrét Pála Ólafsdóttir, pedagoga islandesa, criadora do Método Hjalli

O que você sabe sobre a Islândia? A Islândia é uma ilha vulcânica no Atlântico Norte, entre a Europa e a América do Norte, conhecida como "Terra do Gelo" por suas paisagens de geleiras, vulcões, gêiseres e fontes termais. Sua capital é Reykjavik. A economia desse pequeno país baseia-se na pesca, turismo e energia renovável geotérmica e hidrelétrica, que posicionam o país como líder global em desenvolvimento sustentável. Seu idioma é islandês, faz parte da cultura nórdica e possui alta qualidade de vida, forte igualdade de gênero e baixa criminalidade.

Mas, o que um país pequenino, distante da nossa realidade, pode nos ensinar sobre diversidade, equidade e experiência do cliente? Pega um café ou chá que vou te contar!

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O Método Hjalli, criado na Islândia, é uma abordagem pedagógica que parece até contraditória no começo: as crianças ficam em turmas separadas por gênero parte do tempo. Pode soar meio retrô separar meninos e meninas, especialmente num país referência em igualdade. Mas a ideia é justamente desconstruir estereótipos no dia a dia.

Criado em 1989 pela pedagoga Margrét Pála Ólafsdóttir, o método nasceu para responder a uma pergunta simples: será que a escola tradicional trata meninos e meninas de verdade de forma justa? A resposta, após muita observação, foi “NÃO”. Meninos tendem a ganhar mais atenção, mesmo quando se comportam mal, enquanto meninas são elogiadas coletivamente e acabam invisíveis como indivíduos.

A solução do Hjalli? Em turmas separadas, as meninas são incentivadas a se expressar, liderar, tomar espaço, habilidades pouco estimuladas nelas fora da escola. Já os meninos recebem treino para cuidar, escutar, trabalhar a emoção e o autocontrole. Assim, cada grupo desenvolve competências que normalmente a sociedade atribui de forma limitada aos gêneros.

Além de exercícios assim, o método trabalha um currículo completo com foco em qualidades como empatia, resiliência, criatividade, comunicação e espírito democrático, tudo para formar pessoas completas, independentemente do gênero.

Os resultados falam por si. Crianças que passam pelo Método Hjalli mostram menos comportamentos “estereotipados”, mais confiança em atividades associadas ao gênero oposto, melhor capacidade de resolver conflitos e relações mais equilibradas em brincadeiras mistas. Essa base ajuda a criar adultos que não ficam presos a rótulos, com mais abertura para liderar, colaborar e inovar.

Agora, por que isso é um baita insight para negócios? Porque o mercado do futuro será feito desses adultos. Empresas que abraçam diversidade e inclusão tendem a ter resultados financeiros até 25% melhores e inovação mais forte. Além disso, clientes estão cada vez mais atentos a práticas autênticas de equidade.

No ambiente de atendimento e vendas, o que o Hjalli mostra é que não basta só discursos sobre diversidade. É preciso desconstruir "scripts" antigos que definem quem fala, quem escuta, quem lidera e quem cuida. E essa abordagem impacta diretamente na experiência do cliente, que é uma relação humana.

Lá na Islândia, essa experiência está integrada a uma cultura maior. O país mantém o primeiro lugar mundial em igualdade de gênero do Global Gender Gap Index do Fórum Econômico Mundial desde 2009, fruto de políticas públicas fortes e de movimentos históricos como a greve das mulheres em 1975, que mudou o rumo da sociedade.

Para quem quer aplicar no mundo corporativo, é preciso tomar a atitude de revisar os processos para garantir que homens e mulheres tenham espaço e voz, tanto internamente quanto no atendimento. Monitorar dados para detectar vieses de tratamento no relacionamento com clientes e preparar times para reconhecer e enfrentar essas barreiras acrescenta qualidade e traz resultados para as operações.

Claro, o Método Hjalli não é um modelo pronto para copiar. Ele enfrenta críticas, por focar numa separação binária e exigir adaptações para realidades mais complexas e diversas. Mas, mesmo assim, é uma grande inspiração sobre como trabalhar a diversidade desde a base para garantir um futuro profissional mais empático, colaborativo e inovador.

* Neiva Dourado Martins Mendes é atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia.

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