Pesquisa mostra que mulheres têm 16 variantes genéticas relacionadas à depressão, enquanto homens têm apenas 8.
Vanessa Kopersz* Publicado em 28/01/2026, às 06h00

Uma metanálise publicada na revista Nature revelou que mulheres possuem 16 variantes genéticas associadas à depressão, enquanto homens têm apenas 8, o que pode explicar a maior prevalência de quadros depressivos entre mulheres.
Além da predisposição genética, fatores como violência, pressão social e a dupla jornada de trabalho contribuem para o aumento da vulnerabilidade feminina à depressão, conforme especialistas.
O estudo sugere que a identificação dessas variantes genéticas pode auxiliar no desenvolvimento de tratamentos mais específicos, enquanto a relação entre hormônios e depressão ainda requer mais investigação para entender sua influência na saúde mental das mulheres.
Mais uma notícia que corrobora o quanto as mulheres sofrem na vida veio à tona recentemente: uma metanálise (análise estatística que combina os resultados de múltiplos estudos independentes sobre o mesmo tema, usando métodos quantitativos para chegar a uma conclusão precisa e robusta) realizada com mais de 195 mil pessoas, publicada recentemente na Revista Científica Nature, identificou algumas variantes genéticas em mulheres que aumentariam a nossa vulnerabilidade à depressão.
O estudo de cientistas da Universidade de Queensland, na Austrália, conclui que as mulheres teriam 16 variantes genéticas para a depressão enquanto os homens possuiriam apenas 8 dessas variantes. Isso explicaria, em partes, porque as mulheres apresentariam mais quadros de depressão que os homens.
Pois é, notícias não muito animadoras para nós mulheres, que já sofremos com TPM, partos e menopausa, entre outras intempéries. ‘’Mas é importante lembrar que, em doenças complexas como os transtornos mentais, os fatores genéticos são predisponentes, mas não determinantes. Outras influências estão envolvidas na gênese da depressão, uma vez que se trata de uma transtorno multifatorial’’, diz a Dra. Giuliana Cividanes, psiquiatra da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e Membro Internacional da American Psychiatric Association (APA). "Além disso, as mulheres sofrem violência sexual, disputa pelo mercado de trabalho, uma pressão absurda, enlouquecedora, quase doentia para serem bonitas, estarem sempre arrumadas, com a unha feita, com o cabelo impecável, para serem magras. Na maioria das situações, as mulheres também fazem uma dupla jornada de trabalho: trabalham e ao voltar para o lar, têm de cuidar de outros pontos, da educação e saúde dos filhos e da casa também, por mais que os homens estejam mais participantes hoje em dia’’, afirma o psiquiatra Dr. Arthur Guerra, Fundador e Coordenador do Núcleo de Álcool e Drogas do Hospital Sírio-Libanês.
Mas será que esta descoberta ao menos abre caminhos para novos tratamentos? ‘’O estudo publicado na Nature mostrou que a depressão tem uma influência genética importante e que é poligênica, ou seja, não depende apenas de um gene. Estudos para tratamentos da depressão em nível molecular têm sido desenvolvidos já há algum tempo, com resultados ainda pouco promissores, mas essa nova descoberta de genes específicos poderá ajudar no desenvolvimento de medicamentos com foco mais específicos para indivíduos que carreguem tais mutações gênicas’’, crava a Dra. Giuliana.
O estudo australiano também mostrou que outros fatores como obesidade e a síndrome metabólica, que são fatores inflamatórios e geralmente atacam na menopausa, podem estar envolvidas tanto no desenvolvimento quanto no agravamento da depressão. Combater esses fatores seriam de grande ajuda no controle do Transtorno Depressivo Maior.
No caso da mulher na perimenopausa e na menopausa, existem mais fatores hormonais envolvidos do que fatores genéticos para que a depressão surja. ‘’É claro que aquela mulher que já tinha depressão antes dessa da menopausa, terá uma chance maior de agravamento de seus sintomas. Mas a mulher que apresenta o início da doença nessa fase, provavelmente o faz devido à redução de hormônios, principalmente o estradiol’’, diz a Dra. Cividanes.
Aliás, a influência dos hormônios e suas alterações na gênese da depressão é muito conhecida há anos. ‘’Se esses novos fatores genéticos têm ou não uma influência na modificação desses hormônios e por isso levam à depressão ainda não se sabe. As alterações genéticas encontradas ainda precisam ser mais bem estudas para que se possa entender qual o seu papel no aumento da vulnerabilidade à depressão’’, analisa o Dr. Guerra.
Infelizmente, os ciclos menstruais são, por si só, um fator de risco para o desenvolvimento da depressão, devidos às mudanças constantes de níveis de hormônios mensais. Entretanto, nem todas as mulheres sofrem de depressão, outras só tem alterações emocionais no período pré-menstrual (TDPM, uma forma incapacitante de TPM), outras ainda não sentem qualquer alteração de humor durante os seus ciclos menstruais.
E mesmo se a carga genética para os transtornos depressivos fosse a mesma para ambos os sexos, ‘’a interação dessa carga genética com o mundo que as mulheres vivem é muito diferente. Isso se deve em maior parte às condições de ser mulher: as principais delas são as fortes alterações hormonais que vêm com puberdade, menarca, parto, pós-parto, menopausa, ciclo menstrual mensal. Isso tudo deixa a mulher muito mais vulnerável para desenvolver quadros depressivos’’, resume o Dr. Guerra.
Conclusão principal: que a ciência invista na cura da depressão, um assunto para lá de importante. Mesmo assim, fica a pergunta: será que haveria um antidepressivo que funcionasse melhor para as mulheres do que para os homens? ’’Isto ainda não vi, pois os medicamentos antidepressivos em geral precisam no mínimo entre 12 e 15 dias para fazer efeito. Se o ciclo menstrual da mulher, às vezes, tem uma periodicidade de 28, 30 dias, então, não tem medicamento que vá agir em consonância com esse ciclo’’, finaliza o Dr. Arthur.
*Vanessa Kopersz é jornalista.
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