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O custo da superproteção: quando a proteção vira agressão

Entenda como ensinar seus filhos a resolver problemas sem agressão, mas com diálogo e empatia

Larissa Fonseca* Publicado em 05/04/2025, às 06h00

É importante ouvir e entender as outras versões do conflito antes de agir - pexels
É importante ouvir e entender as outras versões do conflito antes de agir - pexels

Recentemente, mais dois casos extremos tomaram as manchetes dos veículos de comunicação pela maneira agressiva com que pais intervieram em situações escolares envolvendo seus filhos. Em um deles, um pai atropelou o colega de seu filho, acreditando que a criança o havia agredido. No outro, familiares de um aluno agrediram uma professora de 65 anos, supostamente por discordarem de sua conduta.

Esses episódios são exemplos de uma preocupação legítima, mas que, quando mal direcionada, se transforma em comportamentos perigosos e irresponsáveis.

Vivemos em uma sociedade onde, cada vez mais, as pessoas estão descompensadas emocionalmente, reagindo de maneira impulsiva a qualquer situação que toque suas feridas emocionais.

Casos como esses citados, não são apenas manifestações de descontrole emocional dos pais, mas também atos criminosos que ultrapassam qualquer justificativa de proteção parental. O mais preocupante é que esses exemplos extremos refletem um problema mais amplo, que se repete diariamente. Cada vez mais, vemos pais que, ao se depararem com conflitos envolvendo seus filhos, perdem o controle e partem para agressões físicas ou verbais. Em vez de ser um espaço de aprendizado, as escolas se tornam cenários de desrespeito e violência, quando o que deveria prevalecer é o diálogo e a compreensão.

O impulso de proteger os filhos diante de frustrações é natural, mas esse comportamento exagerado, muitas vezes, acaba impedindo que as crianças e adolescentes desenvolvam habilidades sociais essenciais, como a resolução de problemas, a empatia e a resiliência.

O que é ainda mais alarmante é que, ao se comportarem como justiceiros, alguns pais contribuem para a perpetuação de um ciclo de violência que prejudica a educação e o desenvolvimento emocional dos filhos. Crianças brigam, discutem e cometem injustiças umas com as outras. Professores, como qualquer ser humano, também erram. Mas isso nunca justifica que os pais se tornem agressores, causando danos irreversíveis a suas próprias famílias e aos outros.

Atropelar uma criança ou espancar uma professora não são respostas aceitáveis a conflitos. A violência nunca será uma solução. O que essas atitudes ensinam aos filhos? Que a agressão é um modo válido de resolver problemas? Que destruir vidas alheias é justificável quando se sente raiva? Além de traumatizar suas próprias famílias, esses pais estão dando o pior exemplo possível aos filhos que os observam.

Existem limites na superproteção e na impulsividade.

O papel dos pais é orientar, acolher e ensinar os filhos a lidar com os desafios da vida, não incitá-los à violência em nome de uma falsa proteção. A indignação nunca pode ser usada como justificativa para ações violentas. Se queremos criar crianças emocionalmente saudáveis, precisamos começar com o equilíbrio e a responsabilidade dos adultos em lidar com os conflitos.

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Quando um conflito escolar ocorre, a abordagem mais eficaz é agir com calma e buscar informações antes de tomar decisões precipitadas. Ouvir o filho com atenção é importante, mas também é essencial procurar outras versões da história, já que as crianças podem interpretar as situações de forma emocional e parcial. Em vez de resolver tudo pelos filhos, os pais devem ensiná-los a lidar com os problemas por conta própria, incentivando o diálogo, a empatia e a busca por soluções pacíficas. Se houver uma queixa contra um colega ou professor, a escola deve ser a primeira instância a ser procurada, pois diretores e coordenadores estão lá para mediar conflitos e garantir o bem-estar dos alunos.

Se um pai desconfia de maus-tratos por parte de um professor, é fundamental agir de forma racional e dentro dos limites legais. O primeiro passo é conversar com a criança, entender os detalhes da situação e registrar qualquer informação relevante. A partir daí, o ideal é relatar as preocupações à coordenação da escola e solicitar uma investigação. Caso haja indícios sérios de abusos ou agressões, é necessário fazer a denúncia aos órgãos competentes, como o Conselho Tutelar ou a Secretaria de Educação.

Pais jamais devem abordar diretamente a criança ou o adolescente envolvido em um conflito com seu filho. Isso demonstra descontrole emocional e dá um péssimo exemplo, além de poder acarretar consequências legais sérias. Quando necessário, os pais podem buscar os responsáveis pela outra criança para um diálogo respeitoso, mas nunca devem recorrer à agressão, seja física ou verbal.

Crianças e adolescentes não devem ser tratados como adultos em situações de conflito. O equilíbrio e a responsabilidade dos pais são essenciais para que os filhos aprendam a lidar com as dificuldades de forma madura e pacífica. Pais precisam entender que seu papel é apoiar os filhos, mas também orientá-los a enfrentar desafios com equilíbrio.

A violência nunca será a solução para conflitos escolares, e agir impulsivamente pode gerar consequências irreversíveis.

*Larissa Fonseca é Pedagoga e NeuroPedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres