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O papel da Saúde na integração das políticas da Primeira Infância

Investir na saúde na Primeira Infância gera retornos significativos em educação e produtividade ao longo da vida das crianças

Heloisa Oliveira* Publicado em 31/08/2025, às 06h00

Por uma infância livre de telas - pexels
Por uma infância livre de telas - pexels

Agosto é o mês da Primeira Infância, também chamado de Agosto Verde, período em que todo o país se mobiliza para discutir e fortalecer ações que garantam o desenvolvimento pleno das crianças de zero a seis anos. Neste mês, tive a honra de participar da Sessão Solene do Biênio da Primeira Infância, no Congresso Nacional, e levei uma defesa que considero essencial: a Saúde pode e deve ser o eixo integrador de todas as outras políticas públicas voltadas à infância.

A Primeira Infância é uma fase decisiva para o futuro de cada criança — e do país. É nos primeiros anos de vida que se formam as bases do desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social. Estudos apontam que cada real investido nessa etapa retorna em múltiplos benefícios em educação, saúde e produtividade ao longo da vida do ser humano.

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É importante lembrar que as políticas públicas se materializam para as famílias é nos municípios, nas comunidades onde elas vivem, onde as crianças crescem, aprendem, brincam e são cuidadas.

Defendemos que a Saúde seja a porta de entrada para todas as políticas, a partir da qual as famílias são encaminhadas e orientadas para os outros serviços. Quando falamos em Saúde, estamos entendendo-a no seu conceito mais amplo, como o completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doenças, conceito que é utilizado pela Organização Mundial de Saúde. Sob essa perspectiva, a saúde tem papel estratégico na articulação das ações intersetoriais, conectando assistência social, educação, cultura, proteção e o direito à cidade e ao meio-ambiente.

Essa integração é viável e acontece a partir do acompanhamento pré-natal, na atenção ao parto seguro, no incentivo ao aleitamento materno, nas campanhas de vacinação e no monitoramento do desenvolvimento infantil feito pelas equipes de Saúde da Família. Em todas essas etapas do acompanhamento é possível se identificar oportunidades de articulação com outras áreas e de integração dos fluxos de atendimento.

No Instituto Opy, temos testemunhado os efeitos positivos dessa abordagem. Realizamos um projeto em um município de Sergipe, com o objetivo de auxiliar à gestão municipal a qualificar a assistência à saúde materna e infantil, mapeando as ofertas de serviços existentes e fazendo uma aproximação dos profissionais da saúde e da assistência social.

O impacto começou logo a ser percebido, o acolhimento às famílias tornou-se mais completo. Percebemos que as equipes de saúde que faziam o atendimento às famíliasnão conheciam todos os programas sociais disponíveis, principalmente para aquelas que convivem com situações de vulnerabilidade. Quando as áreas se comunicam, o cuidado deixa de ser fragmentado e passa a ser integral,atendendo às múltiplas necessidades das crianças e de seus cuidadores.

Nessa forma de pensar a Saúde, nosso olhar vai muito além da Unidade de Saúde, do Consultório médico ou de um hospital. Saúde também é brincar e conviver com outras crianças, criar vínculos são experiências fundamentais para o bem-estar emocional e para o desenvolvimento integral. Políticas de cultura, esporte e lazer precisam estar conectadas com essa visão de proporcionar uma vida saudável à criança, garantindo ambientes e espaços seguros e estimulantes para que o desenvolvimento aconteça de forma plena.

A saúde é, portanto, mais que um serviço a que as famílias com crianças têm direito, é a porta de entrada e a melhor oportunidade de conexão e de fortalecimento da rede de proteção à infância. Quando há integração entre as áreas que atendem às famílias e compromisso com o desenvolvimento integral das crianças, ampliamos a efetividade das políticas públicas, reduzimos desigualdades e construímos uma sociedade mais justa e saudável desde os primeiros anos de vida.

Se queremos para o Brasil um futuro mais promissor, é preciso agir já, com a Primeira Infância no centro das decisões e dos investimentos públicos e tendo a Saúde como alicerce de todas as demais políticas.

*Heloisa Oliveira é diretora-presidente do Instituto Opy.