Desafios incluindo "desertos de saúde" dificultam a saúde digital de avançar
André Bressan* Publicado em 19/10/2025, às 13h00

A digitalização da saúde no Brasil avança, mas enfrenta barreiras regulatórias, infraestruturais e de capacitação, limitando seu potencial de inovação e acesso. Apesar da aceitação popular, a falta de regulação legal sólida e desigualdades regionais dificultam a escalabilidade das soluções de telessaúde.
A infraestrutura deficiente e a necessidade de capacitação profissional são desafios significativos, com muitas áreas ainda sem conectividade adequada. Além disso, a educação dos usuários sobre o uso de tecnologias digitais é crucial para a eficácia dos serviços de saúde.
Medidas como a criação da Rede Nacional de Dados em Saúde e parcerias entre entidades públicas e privadas estão em andamento, mas é necessário um esforço conjunto para unir regulação clara, infraestrutura inclusiva e investimentos. Somente assim, a tecnologia poderá se tornar parte essencial do sistema de saúde brasileiro, melhorando a experiência do paciente e a eficiência do setor.
A digitalização da saúde já deixou de ser tendência para se tornar realidade. No entanto, o Brasil ainda está longe de liderar a inovação nesse campo, apesar do enorme potencial que possui. Pesquisas recentes mostram que, embora o uso de ferramentas de telessaúde ainda seja limitado, a aprovação por parte da população é ampla.
Avançamos em telemedicina, inteligência artificial e monitoramento remoto de pacientes, mas ainda enfrentamos barreiras que travam a escalabilidade dessas soluções.
A primeira delas é regulatória. A pandemia acelerou a adoção da telemedicina, mas não consolidou um marco legal robusto que garanta segurança jurídica a médicos, pacientes e empresas. Sem clareza nas regras, a inovação avança em terreno instável.
A segunda barreira é infraestrutural. Somos um país de dimensões continentais e profundas desigualdades sociais — convivemos com verdadeiros “desertos de saúde”. Ainda há regiões com conectividade precária, o que restringe o acesso às ferramentas digitais e aprofunda desigualdades.
Outro ponto crucial é a capacitação profissional. Não basta ter tecnologia: é preciso preparar médicos, enfermeiros e técnicos para lidar com plataformas digitais, interpretar dados e incorporá-los ao cuidado. Da mesma forma, é fundamental educar o usuário para o uso consciente e eficaz dos serviços digitais.
Por fim, faltam investimentos consistentes. Incentivar startups de saúde, ampliar parcerias público-privadas e fomentar a interoperabilidade entre sistemas são medidas urgentes para acelerar o ecossistema.
Apesar dos desafios, há sinais de progresso. A criação da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) — ainda em fase inicial — e a crescente cooperação entre entidades públicas e privadas de excelência apontam para um caminho promissor. Com padrões e operação estabelecidos, o Brasil pode se tornar um player relevante no mercado global, reunindo dados em escala rara por contar com um sistema de saúde público e universal.
Se quisermos que o Brasil lidere a inovação em saúde digital, precisamos unir regulação clara, infraestrutura inclusiva, capacitação profissional e investimento em escala. Só assim a tecnologia deixará de ser acessório para se tornar parte da espinha dorsal do sistema de saúde — garantindo melhor experiência ao paciente e maior eficiência ao setor.
*André Bressan é médico, fundador da AB Consult e CMIO da Rapha.Health. Ele tem mais de 20 anos de experiência no setor de saúde, da prática clínica à indústria farmacêutica, passando por gestão hospitalar, auditorias e health tech. Especialista em Medical Affairs e Saúde Digital, combina experiência executiva, consultoria estratégica e docência para desenvolver soluções inovadoras e sustentáveis em saúde.
*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres