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FIilantropia: mitos, barreiras e silêncios

Explorando as barreiras sobre a efetividade da filantropia e suas reais contribuições para mudanças socioambientais no Brasil

Mônica de Roure* Publicado em 08/06/2026, às 06h00

Mônica de Roure, vice-presidente e diretora de Relações Institucionais da BrazilFoundation. - Foto: Divulgação
Mônica de Roure, vice-presidente e diretora de Relações Institucionais da BrazilFoundation. - Foto: Divulgação

A filantropia no Brasil enfrenta mitos sobre sua efetividade, especialmente a crença de que o aprimoramento de relatórios e monitoramento gera impacto social significativo, enquanto na verdade, a tecnicidade não é suficiente para promover as transformações necessárias nas comunidades sub-representadas.

A cultura de doação no Brasil é limitada e avessa a riscos, priorizando investimentos em áreas consideradas 'seguras', como educação, em detrimento de temas urgentes como direitos humanos e justiça social, que exigem mudanças estruturais mais profundas.

Para que a filantropia se torne verdadeiramente transformadora, é essencial que os investimentos sejam flexíveis e significativos, permitindo que as organizações da sociedade civil atuem de forma eficaz, além de promover um diálogo genuíno com as comunidades e reconhecer a diversidade do país.

Resumo gerado por IA

Em minha interpretação sobre a filantropia no Brasil, há claramente mitos sobre a efetividade que alcançamos versus as necessidades de pessoas e territórios onde mudanças socioambientais precisam, de fato, ocorrer.

Um dos maiores mitos existentes é de que o aperfeiçoamento sistemático de planilhas de controle, relatórios e monitoramento leva a um maior impacto social. A chamada accountability exerce um importante papel na governança do setor: organiza processos, oferece transparência e permite avaliar a eficiência de projetos. No entanto, não deve ser entendida como uma resposta estratégica às pressões econômicas e políticas que vivemos, tampouco deveria representar o motor primordial de um impacto transformador em si. Na realidade, esse é um dos maiores mitos: a tecnicidade em si não produz as transformações socioambientais que as populações sub-representadas de nossa sociedade necessitam.

Por outro lado, tecnicidades são o que são: mecanismos de controle. Por que precisamos de tanto controle? Por que somos tão resistentes a tomar riscos em nosso investimento filantrópico? Por que a cultura de doação no Brasil é limitada em montantes e escolhas? Quantos de nós querem, de fato, promover mudanças no contexto de um capitalismo oligárquico, que estrangula a criação de novas oportunidades para as populações tradicionalmente excluídas? Estamos correndo o risco de um crescente processo de exacerbação das desigualdades.

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As barreiras sociais crescem com as mudanças drásticas do sistema socioeconômico. Estamos pensando em mudanças sistêmicas enquanto o próprio sistema passa por mudanças drásticas com os avanços da tecnologia. Temos clara noção dos impactos do uso de IA na lógica de operação de aspectos fundamentais de funções na vida? Qual o impacto que isso provoca na matriz energética no mundo. Há mudanças no sistema que fazem emergir novos desafios sociais.

Infelizmente, a filantropia atual deve considerar mudanças sistêmicas em um sistema em clara transição. A geopolítica e a geoeconomia hoje impactam diretamente a filantropia no Norte e no Sul Globais. Diante da diminuição de recursos financeiros — especialmente aqueles provenientes do Norte Global —, a resposta tem sido exigir maior controle, como se a redução do financiamento social resultasse da insuficiência de métricas. O fato é que o retrocesso no volume de captação decorre de escolhas políticas e econômicas mais amplas, não da ausência de mecanismos de controle.

Surge uma questão metafísica: a filantropia brasileira tradicional cria mecanismos de controle real face aos mecanismos existentes de controle do imaginário social em um contexto de extrema velocidade de mudança das próprias questões socioambientais devido às pressões econômicas.

Vivemos um momento geopolítico em que conflitos armados, polarizações e o avanço de agendas conservadoras colocam em xeque compromissos antes assumidos com a luta pelos direitos humanos e a justiça socioambiental.

Falando especificamente do Brasil, temos uma cultura de doação avessa a riscos. Investe-se majoritariamente em campos considerados “seguros”, como educação, enquanto temas associados a direitos humanos, justiça social e ambiental enfrentam maior resistência. Não porque sejam menos urgentes, mas porque defendem, de maneira mais explícita, mudanças nos alicerces do poder.

A questão central é romper os silêncios que cercam o desenvolvimento sustentável. Como encarar as realidades que não conseguimos impactar frente a novas questões que surgem? Por que a cultura de doação, no Brasil, ainda é tão incipiente em termos de alocação de montantes significativos estratégicos para lidar com questões complexas.

Que tipo de transformação queremos ver e até que ponto estamos dispostos a assumir riscos para que ela aconteça? Financiar pautas tidas como "incômodas" implica mexer em estruturas consolidadas. E a realidade é que nem todos estão prontos para um mundo verdadeiramente equânime.

Uma filantropia que se propõe verdadeiramente transformadora começa no reconhecimento de territórios, na leitura de contextos, na escuta ativa, na proximidade com as comunidades e com as organizações da sociedade civil que operam na linha de frente. Exige visitas de campo, diálogo genuíno, disposição para confrontar as próprias premissas e reconhecer que essas — frequentemente moldadas por vieses de classe, raça e geografia — não dão conta da pluralidade dos muitos "Brasis” que formam o país.

É fundamental que os investimentos sejam expressivos e flexíveis para que as organizações tenham segurança para dar continuidade a seus projetos, e não apenas garantir a própria sobrevivência. A filantropia transformadora precisa ser estratégia para sustentar mudanças no longo prazo - e isso inclui assumir uma maior margem de risco e investimentos mais vultosos não em sua soma total, mas para pautas específicas que dêem voz às pessoas invisíveis, que são a base social do país.

Nosso maior silêncio reflete um espelho quase cruel entre a distribuição de recursos econômicos e filantrópicos, onde o poder se restringe em vez de espraiar para o conjunto da sociedade.

*Mônica de Roure é vice-presidente e diretora de Relações Institucionais da BrazilFoundation

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