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Um pouco mais consciente: prazer, Gabi

Gabriela compartilha um pouco de suas vivências e reflexões sobre racismo no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

Gabriela Cigarini* Publicado em 25/07/2026, às 06h00

Gabriela, atriz, compartilha seus desafios com o racismo e a adoção. - Foto: Arquivo Pessoal/ Gabriela Cigarini
Gabriela, atriz, compartilha seus desafios com o racismo e a adoção. - Foto: Arquivo Pessoal/ Gabriela Cigarini

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, Gabriela Cigarini compartilha suas experiências com racismo e a importância da conscientização sobre essas questões, destacando a desigualdade enfrentada por mulheres negras no Brasil.

Com mais de 60 milhões de mulheres negras no país, elas enfrentam não apenas discriminação racial, mas também microagressões que perpetuam estereótipos e injustiças sociais, dificultando a identificação e a defesa contra essas ofensas.

Gabriela relata incidentes de racismo em sua vida cotidiana e enfatiza a necessidade de educação e diálogo para combater a desinformação, buscando ser uma voz ativa na luta contra o preconceito e promovendo a resistência das mulheres negras.

Resumo gerado por IA

Hoje, 25 de julho, é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Como mulher preta, de pele clara (digo isso porque sei que tenho mais vantagens sociais do que as mulheres pretas de pele escura, o que é injusto), quero aproveitar essa data para começar a compartilhar meus desafios com o racismo e a adoção. Hoje vou falar sobre racismo, no próximo texto falarei sobre preconceitos contra a adoção. Ultimamente, vivi algumas situações em que me vi bastante reflexiva. Por isso, surgiu uma vontade imensa de ser mais consciente sobre tudo, até para me defender e, com isso, poder conscientizar as pessoas à minha volta.

Meu nome é Gabriela Cigarini, sou filha do Antoune Nakkhle que há anos escreve sobre racismo e adoção aqui nesse site. Aliás, tenho muito orgulho de ser filha dele e de como ele busca estar sempre em constante evolução.

Hoje é um dia para comemorar a resistência das mulheres negras. Somos o maior grupo populacional do país, mais de 60 milhões (Informe MIR, 2023), e sofremos desigualdades de raça e gênero mais do que qualquer outro grupo.

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Além disso, existem as microviolências: essas são também complicadas porque elas não são tão diretas; você sabe o que está acontecendo, mas fica uma dúvida no ar. É angustiante.

Quando uma pessoa faz parte de um grupo que é extremamente oprimido, em geral, ela desenvolve uma hipersensibilidade a qualquer tipo de discriminação. Mas nem sempre é assim. Nem toda vítima consegue identificar a toda hora certas formas de preconceito, seja porque elas foram normalizadas desde a infância, seja devido a pressões sociais, mecanismos psicológicos de defesa ou à própria estrutura de como o preconceito opera na nossa sociedade.

O racismo acontece por um olhar, fala ou ações. Por exemplo: "Você é muito articulada para uma pessoa preta”, “Eu não vejo cor, pra mim somos todos iguais”, "Mas você critica qualquer coisa, se ofende com tudo”, "Quem foi que escreveu seu texto?”, “Ah, acho que você entendeu errado, você está vendo coisa onde não tem”, “Eu não sou racista, tenho muitos amigos negros”, “Você não é tão preta assim, você é moreninha”,“Eu queria ter sua cor”, “Hoje em dia tudo é racismo", e o famoso “Como lava as suas tranças?.

Só para esclarecer, uso tranças há alguns anos e essa pergunta, que é muito frequente, parece inofensiva. Ela é considerada uma microagressão porque as tranças carregam um significado fundamental de identidade, resistência e ancestralidade. Tratá-las como algo "exótico", ou relacioná-las com a falta de higiene fere profundamente a dignidade das pessoas que as usam.

Confesso que ainda tenho dificuldade em me defender. Às vezes, é mais fácil defender o outro do que a mim. Meus pensamentos travam. Fico em choque, imóvel e desacreditada com tamanha ignorância e desinformação, até com aquelas violências que são escancaradas.

Quer ver um exemplo evidente? No começo do ano, certo dia acordei e percebi que uma pessoa tinha mudado a imagem de perfil de um grupo de trabalho no WhatsApp. Uma caricatura extremamente ofensiva de um homem preto. Assim que vi essa imagem passou um filme na minha cabeça sobre todas as vezes que sofri racismo. Na hora subiu o sangue e imediatamente saí do grupo. Pensei: “Qual é o sentido de ele colocar essa imagem em um grupo de trabalho? Não tem explicação!” Na verdade, tinha. Ele foi extremamente racista. Logo depois, comuniquei o crime à responsável pelo projeto e a justiça foi feita. No mesmo dia ele foi demitido. Pena que isso não aconteça no dia a dia.

Agora, um exemplo disfarçado: Fui em uma exposição ao lado da Avenida Paulista. Todas as pessoas que trabalhavam lá usavam um uniforme rosa-choque, aquele rosa marca-texto, sabe? Pois bem, eu estava na fila linda e elegante, até que fui chamar meus sogros que estavam um pouco atrás e acenei com a mão. Uma mulher achou que eu estava chamando ela! Pensei: “ihh lá vem de novo”. Ela saiu do lugar dela na fila e chegou mostrando os ingressos pra mim e eu disse muito seca:

— Eu não trabalho aqui.

Ela respondeu desapontada:

— Mas, e agora? Eu perdi meu lugar na fila?

Como se fosse minha culpa. Por coincidência, nesta hora a moça que validava os ingressos me liberou e entrei rapidinho para não ficar ouvindo absurdos. Pensei: “Se ferrou, achou que eu trabalhava lá e perdeu o lugar na fila".   

Um dia desses, conversando com um amigo que também é preto, começamos a discutir sobre o quão exaustivo é se comportar em espaços majoritariamente brancos (ou seja, praticamente todos os lugares “chiquetosos”), porque sentimos que a todo momento estamos sendo julgados por existir inúmeros estereótipos racistas: a hipersexualização da mulher negra, a ideia de que sempre somos muito fortes (emocionalmente ou fisicamente), de que somos submissas, a desconfiança sobre a nossa capacidade intelectual, entre outros. E ainda por cima, todo mundo tem certeza de que uma pessoa, por ser preta, precisa ter a obrigação de explicar qualquer questão sobre o racismo.

Concluí que, ao nos rendermos a essa armadilha de nos “comportarmos” para não cair nesses estereótipos que eu acabei de falar, com o objetivo de “nos mantermos na linha”, deixamos de ser nós mesmas para evitar sofrer racismo. Quando temos postura, autoconfiança, expressamos nossas opiniões e ocupamos espaços de liderança, ihhh, aí é pior ainda. Viramos a “preta metida". Se não aceitamos desrespeito e temos noção dos nossos limites, somos agressivas e arrogantes. Nada adianta. Cansei. Cada vez mais procuro ser eu, independente do rótulo que vão me colocar.

A cada dia que passa, sinto que a minha única armadura para defender a mim e aos outros será construída com muito estudo. Quanto mais a gente se informa, mais percebemos o tamanho da desinformação. Esse foi meu principal incentivo para começar a expor minhas indignações.

Nunca seremos conscientes o suficiente, mas se eu tenho a oportunidade de compartilhar meus relatos e aprendizados, por que não ajudar as pessoas a serem um pouco mais conscientes?

Encerro com um trecho de uma música de um dos meus ídolos, Michael Jackson.

“If you wanna make world a better place, take a look at yourself and make a change” (Se você quer fazer do mundo um lugar melhor, olhe para si e faça uma mudança).

Viva a resistência das mulheres negras! Que, apesar das dores, sejamos capazes de carregar em nossos corações o orgulho de quem fomos, de quem nos tornamos e de quem ainda seremos.

Até a próxima.                                             

Caça palavras antirracista criado por Gabi
Caça palavras antirracista criado por Gabi

* Gabriela Cigarini - a Gabi - é atriz, tem 22 anos. É uma mulher preta vinda por adoção.

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