Por que essa frase machuca tantas mulheres e pode afetar a saúde emocional da mãe e a relação com o bebê?
Larissa Fonseca* Publicado em 22/05/2026, às 06h00
Existe uma frase muito repetida durante a gestação e nos primeiros anos da maternidade que, apesar de frequentemente vir acompanhada de boa intenção, pode causar culpa, sofrimento emocional e uma sensação profunda de invisibilidade para muitas mulheres: “Agora não é mais sobre você. É sobre o bebê.”
Ela costuma aparecer em diferentes contextos. Quando a gestante reclama do cansaço. Quando uma mãe admite que está emocionalmente sobrecarregada. Quando sente medo, insegurança ou dificuldade para lidar com as inúmeras mudanças da maternidade. Ou até mesmo quando diz que não consegue fazer algo que, teoricamente, seria “melhor” para o bebê.
Recentemente, uma cantora famosa compartilhou uma situação que ilustra bem essa questão. Durante a gravidez, sua sogra lhe ofereceu um copo de suco verde. Ela agradeceu, mas explicou que aquele tipo de bebida sempre lhe fazia muito mal. A resposta que recebeu foi imediata: “Não é sobre você. É sobre o bebê. Você precisa tomar por ela.”
À primeira vista, pode parecer apenas um incentivo ao cuidado com a criança. Mas existe algo muito mais profundo por trás desse tipo de fala que é a ideia de que, ao se tornar mãe, a mulher deixa de existir como pessoa e passa a existir apenas em função do filho. E esse pensamento é extremamente perigoso.
A maternidade exige adaptações, responsabilidade e renúncias em muitos momentos, mas ela não deveria exigir o apagamento da mulher. Uma mãe continua tendo limites físicos, emocionais e psicológicos. Continua sentindo medo, cansaço, dores, ansiedade e necessidade de acolhimento. Ignorar isso não fortalece a maternidade, apenas aumenta a sobrecarga e a culpa.
Além disso, é importante lembrar que a maioria das mães já vive um estado de alta exigência interna. Muitas se cobram constantemente para fazer tudo da melhor maneira possível. Questionam a própria alimentação, o próprio sono, o próprio humor, a forma como seguram o bebê, como trabalham, como educam, como organizam a rotina e até como se sentem.
Por isso, frases que invalidam suas dificuldades podem gerar um impacto muito maior do que as pessoas imaginam.
Quando uma mãe ouve repetidamente que “não é sobre ela”, ela pode começar a acreditar que suas emoções precisam ser silenciadas. Que sentir dificuldade é sinal de fracasso. Que pedir ajuda é egoísmo. E isso afeta diretamente sua saúde emocional.
O mais contraditório é que o bebê também precisa da mãe bem. Precisa de uma mãe minimamente descansada, acolhida, emocionalmente amparada e fisicamente saudável. O desenvolvimento infantil não depende apenas de procedimentos “perfeitos” ou de seguir todas as orientações possíveis à risca. Ele depende, principalmente, da qualidade da relação construída entre mãe e bebê, e essa relação é profundamente influenciada pelo estado emocional materno.
Uma mãe que se sente apoiada tende a ter mais recursos emocionais para cuidar. Uma mãe acolhida sofre menos. Uma mãe ouvida consegue respirar. Uma mãe cuidada consegue cuidar melhor.
Isso não significa ignorar orientações importantes ou deixar de incentivar hábitos saudáveis. Significa compreender que apoio não é imposição e que cuidado não deve acontecer através da culpa.
Existe uma enorme diferença entre dizer: “Vamos pensar em outra alternativa?”; “O que poderia te fazer bem sem te prejudicar?” “Como posso te ajudar?” E dizer: “Você precisa aguentar.” “Agora não é mais sobre você.” Porque a verdade é que continua sendo sobre ela também! Vai sempre ser.
É a mãe quem atravessa as mudanças físicas da gestação. É a mãe quem enfrenta o puerpério. É a mãe quem passa noites acordada. É a mãe quem, muitas vezes, sustenta emocionalmente toda a dinâmica familiar enquanto tenta lidar com suas próprias transformações internas.
Por isso, cuidar da mãe nunca deveria ser visto como algo secundário. Cuidar da saúde emocional materna é também uma forma de cuidado com a criança.
E talvez uma das maiores necessidades das mães seja encontrar espaços onde possam existir sem (ou com menos) culpa, onde possam falar sobre suas dificuldades sem serem julgadas, onde recebam orientação com acolhimento, e não cobranças disfarçadas de preocupação.
Um bebê não precisa de uma mãe perfeita. Precisa de uma mãe possível, uma mãe saudável, uma mãe que também seja cuidada.
*Larissa Fonseca é Pedagoga e NeuroPedagoga graduada pela USP, Pós Graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Infantil. Autora do livro Dúvidas de Mãe.
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