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Álcool e climatério: uma combinação explosiva

Questões psicológicas que surgem por conta do climatério intensificam o contato com o álcool, que afeta de forma explosiva o organismo nessa fase

Vanessa Kopersz* Publicado em 14/04/2026, às 06h00

Mulher segura um copo de uísque.
O álcool sobrecarrega o fígado, que é um dos principais órgãos envolvidos na metabolização dos hormônios. - Foto: Canva Pro

Um levantamento do Datafolha revela que 42% das mulheres no Brasil consomem bebidas alcoólicas, levantando preocupações sobre os efeitos do álcool durante o climatério, que pode agravar problemas de saúde devido à queda nos níveis hormonais.

Durante o climatério, a redução do estrogênio aumenta o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas, e o consumo de álcool pode exacerbar esses riscos ao interferir na metabolização hormonal e aumentar a inflamação.

Especialistas alertam que o uso do álcool como uma forma de lidar com as mudanças emocionais e físicas do climatério pode ser prejudicial, e é necessário um cuidado especial para evitar o abuso, que pode levar a sérios problemas de saúde mental e física.

Resumo gerado por IA

O cenário do consumo de álcool por mulheres no Brasil é preocupante: um levantamento do Datafolha mostrou que quando se trata do público feminino, 42% fazem uso de bebidas alcoólicas. A pesquisa foi feita entre 08 e 11 de abril de 2025. Diante desses dados, um questionamento que pode surgir é: como a relação entre o climatério e as bebidas alcoólicas afeta o organismo das mulheres?

Um estudo publicado no jornal Alcohol Health and Research World destacou que a ingestão de bebidas alcoólicas nesse período é capaz de influenciar a ocorrência ou o progresso de algumas doenças, por conta dos níveis hormonais afetados.

Durante o climatério e a menopausa, os hormônios protetores do organismo da mulher são reduzidos, principalmente o estrogênio. A queda nos níveis desse hormônio, considerado o ‘’CEO do corpo e do cérebro’’ aumenta o risco de doenças cardiovasculares, osteoporose e alterações metabólicas. Também há mais riscos de hipertensão arterial , além de elevação dos níveis de triglicerídeos e interferência na absorção de cálcio – o que aumenta o risco de fraturas.

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E beber afeta ainda mais esse equilíbrio hormonal: ‘’o álcool sobrecarrega o fígado, que é um dos principais órgãos envolvidos na metabolização dos hormônios. E ele ainda pode aumentar os níveis de estrogênio circulante. O álcool também favorece a inflamação, o estresse oxidativo e ganho de gordura corporal, que por si só já bagunçam bastante o ambiente hormonal’’, explica a Dra. Rafaela Braz, ginecologista e nutróloga. O que acontece no fígado quando bebemos?  ‘’Na prática, o órgão precisa priorizar o álcool perante a metabolização de outras substâncias , porque ele o entende como um composto tóxico que precisa ser eliminado. Então parte da capacidade metabólica do fígado fica voltada para o etanol e o acetaldeído. Com isso, outros processos ficam menos eficientes, inclusive a metabolização de hormônios e de vários compostos que precisam ser transformados e eliminados. Além disso, o metabolismo do álcool aumenta o estresse oxidativo e pode favorecer lesão hepática, o que piora ainda mais esse processamento’’, completa a Dra. Rafaela.

Beber cerveja, uísque, vinho e afins também aumenta a atividade da enzima aromatase,  que converte andrógenos em estrógenos. Quando essa enzima está elevada, a tendência é haver mais produção de estrogênio. Isso pode contribuir para um ambiente de hiperestrogenismo, principalmente em mulheres que já têm predisposição, excesso de gordura corporal, resistência insulínica ou doenças inflamatórias. E esse excesso de estrogênio pode piorar sintomas e quadros clínicos como mastalgia, sangramento aumentado, miomas, adenomiose e endometriose.

Mas não pode beber nem uma tacinha de vinho, um copo de cerveja ou copo de uísque? ‘’Não é que uma única taça, isoladamente, vá causar um desastre hormonal em todo mundo. Mas o que a gente vê na literatura é que mesmo consumo leve ou moderado já se associa a aumento de risco para alguns desfechos, principalmente quando esse consumo é repetido ao longo do tempo. Então o problema não é só a quantidade de um dia — é a soma do hábito, da frequência e da vulnerabilidade individual daquela mulher, resume a Dra. Braz.

Além disso, a literatura médica tem muitas evidências que o álcool aumenta o risco de câncer de mama, e isso vale inclusive para consumo baixo. A Organização Mundial da Saúde classifica bebidas alcoólicas como carcinogênicas para humanos. Entre os mecanismos propostos estão: aumento de estrogênio, formação de acetaldeído — que é carcinogênico —, aumento de estresse oxidativo e interferência em vias metabólicas importantes. Então não existe aquela ideia de ‘bebida segura’ do ponto de vista oncológico. Quanto menor a exposição a bebidas, melhor. A Dra. Braz ainda gosta sempre de lembrar que hormônio não é só o que o ovário produz — é também o que o corpo consegue metabolizar e eliminar. ‘’E o fígado tem um papel central nisso. Então, quando a mulher tem sintomas hormonais, doenças estrogênio-dependentes, histórico familiar importante ou preocupação com longevidade, o álcool não deve ser analisado como algo ‘inofensivo’ só porque é social. Às vezes é um detalhe da rotina que parece pequeno, mas que, somado ao resto — estresse, resistência insulínica, inflamação, disbiose, excesso de gordura corporal — vira uma peça importante no quebra-cabeça hormonal’’.

Mas a equação para parar de beber no climatério não é tão simples - há o fator emocional ‘’gritando’’. Segundo o Prof. Dr. Arthur Guerra, coordenador do núcleo de psiquiatria do Hospital Sírio Libanês, ‘’algumas mulheres podem abusar do álcool na menopausa e especialmente na perimenopausa. Isso implica, às vezes, em problemas de ansiedade e de humor. O álcool entraria como se fosse um mediador disso, péssimo mediador, aliás. Ele pode até induzir o sono num primeiro momento e diminuir a ansiedade’’, diz o Dr. ‘’Porém, de fato, o álcool piora o sono. E deixa as ondas de calor mais fortes ainda’’.

O Dr. Guerra vem testemunhando o aumento de mulheres que chegam a seu consultório queixando-se de abuso de bebidas no climatério. ‘’Eu vejo na minha clínica essa combinação perigosa de álcool e menopausa constantemente. Aliás, eu noto cada vez mais.  Para muitas mulheres não, mas algumas usam o álcool como se fosse uma muleta, uma bengala para superar esse momento de modificação hormonal na vida’’, explica. ‘’E o álcool, nessas situações, ao invés de ser benéfico, atrapalha toda a parte cognitiva, de pensamento, de memória, de juízo, de atenção, de concentração. Está tudo temperado de forma negativa por conta dele.  Eu acho que a mulher que entra no climatério precisa tomar muito cuidado com o álcool. Não é que não pode beber, ela só não vai poder usar o álcool como se fosse bengala, como se fosse essa muleta’’.

Para o psicanalista Guilherme Facci, ‘’o álcool, nesse contexto da perimenopausa, não é apenas uma bebida; ele é um sintoma’’, explica.

Ele analisa que ‘’as mulheres no climatério atravessam um luto simbólico triplo: pelo corpo jovem, pela fertilidade e, muitas vezes,  pelo papel social de ‘mãe cuidadora’ (quando os filhos saem de casa). O álcool surge como uma tentativa de anestesiar essa estranheza de habitar um corpo que mudou e um cotidiano que silenciou. É o que eu chamo de ‘beber o luto’ em vez de elaborá-lo’’.

Para Facci, o alcoolismo nesta fase é ‘’um pedido de socorro que não usa palavras. O famoso psicanalista Jacques Lacan diferencia o falar do atuar. O acting out é uma ação que a pessoa faz para mostrar algo que ela não consegue dizer. O abuso do álcool na frente da família ou o ‘esquecer-se’ de compromissos por estar embriagada pode ser um acting out. É como se essa mulher estivesse dizendo: ‘Olhem para mim! Eu estou sofrendo!’. Muitas vezes é uma mensagem endereçada aos filhos ou ao parceiro, mas escrita com álcool em vez de palavras.’’

Para Facci, ‘’a mulher não bebe porque é fraca, mas sim porque está tentando lidar com um transbordamento de angústia que não encontra palavras. O álcool funciona como um tamponamento do vazio. O problema é que essa anestesia é temporária e cobra um juros altíssimo da saúde física e mental, impedindo que ela descubra novas formas de sentir prazer e desejo’’.

Para Facci, são quatro os pilares principais para que as mulheres bebam mais no climatério:

1. A Invisibilidade Social: a sensação de não se sentir olhada, desejada ou reconhecida por ser uma mulher madura. Se ela sente que ninguém mais a olha com desejo ou importância, o álcool entra como uma compensação ou uma companhia que não a julga: a companhia perfeita.

2. A Síndrome do Ninho Vazio: A mudança na dinâmica familiar deixa um hiato de tempo e de sentido. O álcool preenche esse espaço vazio.

3. O Corpo Estranho: As alterações hormonais trazem um desconforto físico real. O álcool entra como um "relaxante" para uma tensão que é tanto biológica quanto psíquica. É a busca pelo o que o psicanalista Jacques Lacan chamaria do "Mais-de-Gozar": um prazer extra para compensar o que ela sente que perdeu.

4. A Castração Simbólica:  O encontro com o ‘não dá para ter tudo’. A menopausa é um lembrete biológico de que o corpo tem limites. A castração simbólica passa por aceitarmos que somos faltantes. O abuso do álcool muitas vezes é uma tentativa de negar a castração. Beber é uma forma de dizer: ‘Eu não aceito que o tempo passou, eu não aceito que meu corpo mudou’. O álcool cria uma ilusão de onipotência onde a mulher se sente jovem, invencível ou, pelo menos, anestesiada para a realidade da perda.

* Vanessa Kopersz é jornalista. 

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