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O elo entre estilo de vida e doenças inflamatórias intestinais

A falta de informação e o tabu sobre sintomas intestinais atrasam o diagnóstico e o tratamento das Doenças Inflamatórias Intestinais

Matheus Freitas Cardoso de Azevedo* Publicado em 06/06/2026, às 06h00

Nos últimos anos tem se constatado o aumento de Doenças Inflamatórias Intestinais (DII). - Foto: Canva Pro
Nos últimos anos tem se constatado o aumento de Doenças Inflamatórias Intestinais (DII). - Foto: Canva Pro

O Brasil registrou um aumento de 61% nas internações por Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) na última década, refletindo uma mudança no perfil epidemiológico e a dificuldade de muitos pacientes em buscar ajuda médica devido ao preconceito sobre saúde intestinal.

Os principais fatores associados ao crescimento das DIIs incluem urbanização, dieta ocidental rica em ultraprocessados e antibióticos, além de um maior reconhecimento médico que, embora contribua para diagnósticos, não explica completamente a mudança epidemiológica global.

Campanhas de conscientização são essenciais para promover o diagnóstico precoce e o controle da inflamação, enquanto recomendações de hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e atividade física, são fundamentais para a manutenção da saúde digestiva e prevenção de complicações.

Resumo gerado por IA

Nos últimos anos tem se constatado o aumento de Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), em decorrência da urbanização e da dieta pobre e alimentos como os ultraprocessados. Um levantamento do Ministério da Saúde, divulgado em 2025, apontou um crescimento de 61% nas internações por DII no Brasil nos últimos dez anos, especialmente, doença de Crohn e retocolite ulcerativa. Esse cenário é alarmante e reflete uma mudança drástica no perfil epidemiológico do Brasil e a demora na busca pela ajuda médica, na maioria das vezes, é devido ao preconceito em falar sobre a saúde intestinal. Muitos pacientes ignoram alguns sintomas como diarreia, fadiga e perda de peso, atribuindo-os a estresse ou a algum tipo de alimentação.

O principal desafio ainda é o desconhecimento da população sobre as Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs), que englobam a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. Muitos sintomas, como diarreia persistente, dor abdominal, sangramento nas fezes, perda de peso e fadiga, acabam sendo banalizados, atribuídos ao estresse, à alimentação inadequada ou a “problemas intestinais comuns”. Isso frequentemente atrasa a procura por avaliação médica e, consequentemente, o diagnóstico.

Outro ponto importante é o tabu em relação aos sintomas intestinais. Muitas pessoas sentem vergonha de falar sobre alterações do hábito intestinal ou sangramento, o que dificulta ainda mais o reconhecimento precoce da doença. Além disso, como as DIIs acometem principalmente adultos jovens e têm períodos de melhora e piora, muitos pacientes convivem com sintomas por anos antes de receberem o diagnóstico correto.

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Por isso, campanhas de conscientização têm um papel fundamental, pois estimulam a atenção da população aos sinais de alerta e reforçam a importância do diagnóstico precoce. Quanto mais cedo identificamos a doença, maiores são as chances de controlar a inflamação, evitar complicações e preservar a qualidade de vida dos pacientes.

O aumento das Doenças Inflamatórias Intestinais (DIIs), especialmente da doença de Crohn e da retocolite ulcerativa, é considerado multifatorial. Hoje entendemos que existe uma interação entre predisposição genética, alterações da microbiota intestinal, sistema imunológico e fatores ambientais. O que mudou de forma mais marcante nas últimas décadas foram justamente os fatores ambientais e o estilo de vida moderno. 

Entre os principais fatores associados a esse crescimento estão a urbanização, a ocidentalização da dieta com maior consumo de alimentos ultraprocessados, gorduras, aditivos e emulsificantes, além do uso frequente de antibióticos, especialmente na infância, poluição, tabagismo e mudanças no estilo de vida. Esses fatores parecem alterar a composição da microbiota intestinal e favorecer um estado inflamatório crônico em indivíduos geneticamente suscetíveis. 

Além disso, hoje temos maior conhecimento médico, melhor acesso a exames e maior reconhecimento da doença, o que também contribui para o aumento do número de diagnósticos. No entanto, o crescimento observado mundialmente vai muito além apenas de melhora diagnóstica e reflete uma verdadeira mudança epidemiológica global, principalmente em países em desenvolvimento que passaram por rápida urbanização e industrialização.

Até o momento, não sabemos ao certo a causa das DIIs, entretanto os estudos sugerem etiologia multifatorial. Parece ser resultante de uma interação complexa entre fatores genéticos, fatores ambientais e a microbiota (flora) intestinal. O indivíduo geneticamente predisposto, quando em contato com algum fator ambiental específico desconhecido, pode desenvolver uma inflamação descontrolada, possivelmente causada por um desequilíbrio do sistema imunológico (de defesa).

Quando buscar ajuda médica

Pacientes que apresentem sintomas persistentes de dor abdominal, diarreia crônica (>4 semanas), sangramento nas fezes, perda de peso inexplicada ou alteração prolongada do hábito intestinal nunca devem ser ignorados. Além disso, sintomas intestinais associados a febre, anemia, sintomas noturnos, fadiga excessiva ou urgência para evacuar devem sempre servir como sinal de alerta e motivar avaliação médica especializada.

Nas DIIs, um dos grandes desafios é justamente o atraso no diagnóstico, porque muitos pacientes acabam normalizando os sintomas ou atribuindo-os ao estresse, alimentação ou “intestino irritado”. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de controlar a inflamação, evitar complicações e preservar a qualidade de vida.

Por isso é importante ficar atento, pois quando diagnosticado, a doença não tem cura, mas existem várias opções de tratamento disponíveis para controlar os sintomas, a inflamação intestinal e prevenir complicações. As DII são doenças heterogêneas, alguns pacientes apresentam um curso leve, enquanto outros uma doença grave e incapacitante desde o seu princípio. Portanto, é fundamental identificar os pacientes que apresentem risco de um curso mais grave desde o início dos sintomas para definição de uma abordagem terapêutica adequada.

Recomendações para manter a saúde digestiva saudável

Para manter a saúde digestiva envolve um conjunto de hábitos que ajudam a preservar o equilíbrio intestinal, a microbiota e o bom funcionamento do organismo como um todo. Recomendo manter uma alimentação equilibrada, rica em alimentos naturais, fibras, frutas, verduras e legumes, além de reduzir o consumo de ultraprocessados, excesso de gorduras, álcool e tabagismo.

Outro ponto fundamental é ter uma rotina de atividade física, boa hidratação e qualidade do sono. Hoje sabemos que o intestino sofre influência direta do estresse, da ansiedade e dos hábitos de vida modernos, e isso pode impactar tanto sintomas digestivos quanto doenças inflamatórias e funcionais do trato gastrointestinal.

Também é importante evitar a automedicação, especialmente o uso excessivo de anti-inflamatórios e antibióticos sem orientação médica, pois esses medicamentos podem alterar a barreira intestinal e a microbiota.

Para finalizar, embora as DII possam apresentar desafios e dificuldades, é possível levar uma vida normal com o tratamento adequado e estratégias eficazes de autocuidado, promovendo, assim, uma melhor qualidade de vida.

Se você está enfrentando a doença, lembre-se de que não está sozinho e que existem recursos disponíveis para ajudar no manejo e tratamento dessa condição. Não hesite em buscar ajuda e orientação de um profissional especializado.

*Matheus Freitas Cardoso de Azevedo é Gastroenterologista da EV Citi, Doutor em Gastroenterologia pelo HCFMUSP e Médico assistente da Divisão de Gastroenterologia Clínica do HCFMUSP.

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