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O avanço do câncer no Brasil e o desafio de transformar cuidado em valor

O aumento de casos de câncer no Brasil exige uma resposta integrada e eficaz do sistema de saúde

Gustavo Fernandes* Publicado em 07/04/2026, às 06h00

Paciente de câncer e sua cuidadora, ambas com a fita lilás de campanha de conscientização sobre o câncer na roupa.
Ainda convivemos com diferenças no acesso ao diagnóstico e ao tratamento do câncer, o que impacta os desfechos clínicos. - Foto: Canva Pro

O aumento significativo de casos de câncer no Brasil, que pode chegar a 781 mil novos diagnósticos anuais até 2028, reflete uma mudança epidemiológica que pressiona o sistema de saúde a se reorganizar para atender a uma demanda crescente e complexa.

As doenças crônicas, especialmente o câncer, tornaram-se a principal causa de morte no país, exigindo uma abordagem mais integrada e coordenada no cuidado, além de um foco em qualidade e sustentabilidade no atendimento.

É necessário investir em diagnóstico precoce e na gestão de cuidados para sobreviventes de câncer, enquanto a tecnologia avança para melhorar a eficiência dos serviços de saúde, transformando a forma como o cuidado é prestado.

Resumo gerado por IA

Na prática clínica, é cada vez mais raro para qualquer médico passar uma semana sem atender novos casos de câncer. O que antes era percebido como uma tendência tornou-se uma realidade, presente no consultório, nos hospitais e, de forma mais ampla, na organização dos sistemas de saúde.

O Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, oferece uma oportunidade importante para ampliar essa reflexão. Mais do que discutir acesso, somos convidados a pensar em qualidade, sustentabilidade e, sobretudo, na capacidade do sistema de responder a uma mudança epidemiológica já em curso.

No Brasil, as doenças crônicas não transmissíveis, entre elas o câncer, deixaram de ser coadjuvantes e passaram a ocupar o centro do cuidado. Estimativas recentes do Instituto Nacional de Câncer indicam que o país poderá registrar cerca de 781 mil novos casos por ano até 2028, um crescimento relevante em relação aos aproximadamente 704 mil casos anuais observados no triênio anterior. Esse aumento reflete o envelhecimento da população, mudanças no estilo de vida e também avanços na capacidade diagnóstica.

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Mas esse movimento vai além dos números. Ele se traduz em pressão direta sobre o sistema de saúde, que precisa se reorganizar para dar conta de uma demanda crescente e mais complexa. O câncer já se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de morte no país, exigindo respostas estruturadas, integradas e orientadas a desfechos clínicos.

Ao longo dos anos, seja na prática assistencial, na formação de novos oncologistas ou na discussão de evidência científica, fica claro que não enfrentamos apenas um aumento de volume, mas uma mudança na natureza do cuidado. A oncologia tornou-se mais sofisticada, mais personalizada e, ao mesmo tempo, mais dependente de coordenação entre múltiplos atores.

Na gestão de uma rede com diversos serviços oncológicos, essa realidade se materializa em decisões cotidianas. Surge a necessidade de garantir acesso sem comprometer a sustentabilidade, de padronizar protocolos baseados em evidência e, ao mesmo tempo, respeitar as particularidades de cada paciente, além de escalar qualidade em um ambiente de crescente complexidade.

Nesse contexto, o debate sobre saúde precisa evoluir. Não basta ampliar acesso. É necessário discutir valor. Em oncologia, isso significa combinar qualidade assistencial, eficiência operacional e uso inteligente de recursos. Significa investir em diagnóstico precoce, integrar níveis de cuidado e incorporar inovação de forma criteriosa e sustentável.

A desigualdade permanece como um dos principais desafios. Ainda convivemos com diferenças importantes no acesso ao diagnóstico e ao tratamento, o que impacta diretamente os desfechos clínicos. Tumores potencialmente curáveis continuam sendo diagnosticados em estágios avançados, com impacto tanto na vida dos pacientes quanto nos custos do sistema.

A tecnologia, por sua vez, vem redesenhando o cuidado. Avanços em medicina de precisão, terapias-alvo e novas abordagens terapêuticas ampliaram de forma significativa as possibilidades de tratamento. Recentemente, durante uma visita à China com uma delegação brasileira, tive a oportunidade de conhecer hospitais altamente integrados do ponto de vista tecnológico, os chamados smart hospitals, que utilizam inteligência artificial, conectividade de dispositivos e análise de dados em tempo real para otimizar processos e personalizar o atendimento.

Mais do que um salto tecnológico, trata-se de uma mudança de paradigma. Hospitais mais eficientes, mais conectados e potencialmente mais humanos, desde que a tecnologia seja usada como meio e não como fim.

Outro aspecto que ganha cada vez mais relevância é o cuidado com os sobreviventes de câncer. Com os avanços no diagnóstico e no tratamento, cresce o número de pacientes que concluem sua terapia e seguem suas vidas. No entanto, o sistema de saúde ainda está pouco preparado para lidar com essa fase, que exige acompanhamento de longo prazo, reabilitação, suporte emocional e estratégias de reintegração social e produtiva.

A jornada oncológica não termina na cura clínica. Ela se estende para um novo momento que precisa ser reconhecido, estruturado e incorporado às linhas de cuidado.

Ao longo da minha trajetória como médico, educador e gestor em saúde, uma convicção se fortalece. Saúde não é custo. É investimento. Investir em prevenção, diagnóstico precoce e coordenação do cuidado é, ao mesmo tempo, melhorar a vida das pessoas e tornar o sistema mais eficiente e sustentável.

*Gustavo Fernandes é vice-presidente de Oncologia da Rede Américas.

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