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A testosterona e a função cardiovascular da mulher

Entenda os riscos de usar testosterona em mulheres sem regulamentação

Nara Kobbaz* Publicado em 04/01/2026, às 06h00

Há um perigo em comercializar a medicina e tratar como modismo - pexels
Há um perigo em comercializar a medicina e tratar como modismo - pexels

O uso indiscriminado de testosterona em mulheres, impulsionado pela busca por resultados rápidos em saúde e estética, levanta preocupações éticas e de segurança, com a classe médica se distanciando de práticas baseadas em evidências.

Entidades médicas brasileiras afirmam que a única indicação comprovada para a testosterona em mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em pós-menopausa, sem respaldo para usos estéticos ou de performance.

A falta de formulações aprovadas pela Anvisa e o uso off-label de testosterona, especialmente em implantes subcutâneos, aumentam os riscos de efeitos adversos, levando a um apelo por ensaios clínicos rigorosos e uma abordagem ética na prescrição hormonal.

Resumo gerado por IA

O uso indiscriminado de testosterona em mulheres tornou-se, nos últimos anos, um dos símbolos mais preocupantes da chamada “medicina de atalhos”. Em uma era marcada pela busca por resultados rápidos em emagrecimento, ganho de massa magra, melhora da energia, libido “aumentada” e rejuvenescimento, muitas mulheres têm sido expostas a terapias hormonais sem segurança comprovada, enquanto parte da classe médica se distancia dos princípios éticos e da medicina baseada em evidências. Essa preocupação vem sendo amplamente discutida não apenas entre especialistas, mas também na imprensa, que já denunciou a comercialização de soros, hormônios e protocolos sem comprovação como um “modelo de negócio” disfarçado de cuidado em saúde.

Diante desse cenário, renomadas entidades médicas brasileiras, como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicaram uma nota técnica conjunta reafirmando que a única indicação cientificamente comprovada, até o momento, para o uso de testosterona em mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), especificamente em mulheres na pós-menopausa e após avaliação criteriosa. O diagnóstico é clínico, de exclusão, e requer investigação cuidadosa de causas multifatoriais, como hipoestrogenismo, depressão, efeitos colaterais de medicamentos, obesidade, síndrome metabólica e questões relacionais ou emocionais.

A nota é igualmente clara ao afirmar que não existe indicação respaldada em diretrizes para o uso de testosterona com finalidade estética, metabólica, cardioprotetora, para melhora de energia, humor, composição corporal ou para emagrecimento. Também destaca que não há dosagem laboratorial capaz de diagnosticar “deficiência androgênica feminina” e que a dosagem de testosterona sérica só se justifica quando há suspeita de hiperandrogenismo (situação em que há excesso de hormônios androgênicos — “masculinos” — no organismo da mulher), e nunca como triagem para prescrição.

Um ponto de extrema relevância é que não existe, no Brasil, qualquer formulação de testosterona aprovada pela Anvisa para uso feminino, o que coloca todas as apresentações atualmente utilizadas nesse contexto em um cenário de uso off-label. O problema se agrava com a expansão dos implantes subcutâneos e das formulações manipuladas, cuja farmacocinética é imprevisível, produz picos hormonais suprafisiológicos e aumenta substancialmente o risco de efeitos adversos. Por esses motivos, os implantes são explicitamente não recomendados tanto pela SBEM, Febrasgo e SBC quanto pelo Posicionamento sobre Saúde Cardiometabólica da Mulher 2025.

A evidência internacional confirma esse posicionamento. O Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women, publicado simultaneamente em importantes revistas médicas, reforça que a única condição para a qual há benefício consistente é o TDSH pós-menopausa. Nenhum estudo de qualidade demonstra benefício para estética, emagrecimento, melhora de performance, prevenção de doenças ou aumento de vitalidade.

Os estudos disponíveis mostram apenas uma melhora discreta em alguns aspectos da função sexual, enquanto apontam aumento consistente de efeitos colaterais androgênicos, como acne e crescimento de pêlos. Além disso, os dados de segurança cardiovascular em longo prazo permanecem escassos e heterogêneos, impossibilitando conclusões sólidas sobre o risco de infarto, acidente vascular cerebral ou câncer de mama. Os perigos associados ao uso inadequado de testosterona vão muito além dos efeitos cutâneos e certas vias de administração podem ainda reduzir o HDL (dito “colesterol bom), elevar o LDL (conhecido como colesterol “ruim”) e prejudicar a função vascular, especialmente quando produzem níveis suprafisiológicos do hormônio.

É fundamental reconhecer que o período da menopausa representa uma mudança importante no perfil cardiometabólico da mulher. A queda hormonal gradual que ocorre nessa fase favorece alterações na função vascular e perfil metabólico, o que contribui para o aumento do risco cardiovascular. Diante desse contexto, quando há indicação de terapia hormonal, o tratamento deve priorizar estrogênio e progesterona, os principais hormônios envolvidos na fisiologia feminina, e ser acompanhado de intervenções essenciais no estilo de vida, como alimentação equilibrada, prática regular de exercício físico, abandono do tabagismo, entre outras estratégias de promoção de saúde.

Sendo assim, conclui-se que a expansão da prescrição de testosterona como produto estético ou de “performance” representa não apenas um desvio ético grave, mas uma ameaça concreta à saúde da mulher. Exames hormonais são solicitados sem critério, gerando falsos diagnósticos de “deficiência”; fórmulas manipuladas são vendidas como “naturais” ou “bioidênticas”, quando na verdade são produtos de farmacocinética imprevisível; e implantes são oferecidos como solução simples e duradoura.

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É imprescindível que se conduzam ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e com tamanho amostral adequado, livres de vieses e com desfechos padronizados, para que os potenciais benefícios e os riscos da testosterona em mulheres sejam claramente definidos. Até o momento, a única situação em que seu uso demonstra segurança e eficácia é no tratamento do TDSH em mulheres pós-menopausa, sempre em doses fisiológicas, por via transdérmica, sem o uso de implantes e com acompanhamento médico rigoroso, após a exclusão cuidadosa de outras causas para a queda do desejo sexual. Qualquer prescrição além desse cenário não representa avanço terapêutico, mas sim uma forma de experimentação sem controle.

Aos colegas médicos, o compromisso ético deve ser inegociável. A medicina não pode ser capturada por modismos, marketing e modelos de faturamento baseados em intervenções sem evidência. E, às pacientes, reforço: qualquer proposta de usar testosterona para emagrecimento, “regulação hormonal”, aumento de energia, melhora de humor, ganho de massa muscular ou rejuvenescimento deve ser vista com extrema desconfiança. Perguntar “qual diretriz recomenda isso?” é, hoje, uma das principais ferramentas de proteção da própria saúde.

A testosterona não é inimiga, mas o mau uso é. E, na medicina, atalhos quase sempre levam ao caminho oposto da saúde.

*Dra. Nara Kobbaz é Cardiologista, Especialista em Insuficiência Cardíaca, Transplante Cardíaco, Cardio-Oncologia e Medicina Intensiva (UTI). Membro da SBC, AMIB e da Sociedade Internacional de Cardio-Oncologia, com atuação no Hospital do Coração do Brasil em Brasília.

Ela é sócia e fundadora da Quarter Cardiologia, com foco em prevenção, no tratamento de doença complexas e na reabilitação multidisciplinar, oferecendo um cuidado contínuo ao longo de toda a jornada do paciente.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres