A importância de uma rede de apoio que acolha e fortalece as mulheres após o divórcio.
Vivi Reis* Publicado em 06/07/2026, às 06h00

O divórcio se transformou em uma experiência coletiva e social, impactando milhões de mulheres que enfrentam questões emocionais, financeiras e familiares durante o processo de separação. Essa mudança de perspectiva destaca a necessidade de apoio e acolhimento, refletindo uma nova realidade social no Brasil.
Em 2022, o Brasil registrou 420.039 divórcios, com cerca de 70% dos pedidos feitos por mulheres, evidenciando que o fim de um casamento é uma experiência comum e não mais uma exceção. A falta de espaços para discutir a vida após a separação ressalta a importância de uma rede de apoio que aborde questões como autoestima, finanças e criação dos filhos.
O Canal Separações foi criado para oferecer suporte e informação, reunindo especialistas e mulheres dispostas a compartilhar suas experiências. A comunidade tem se mostrado eficaz em transformar a dor da separação em um processo de reconstrução coletiva, promovendo empatia e solidariedade entre as participantes.
O divórcio deixou de ser o fim. Tornou-se uma experiência coletiva, social e profundamente transformadora para milhões de mulheres.
Separar-se nunca é apenas assinar um documento. É atravessar um processo que envolve identidade, família, dinheiro, saúde emocional, trabalho e pertencimento. O divórcio não acontece no isolamento: ele reverbera na casa, nos filhos, na rotina, na rede de apoio, na vida profissional e na forma como a mulher passa a se enxergar. Por isso, mais do que uma decisão individual, ele é uma experiência social que exige acolhimento, informação e comunidade.
Foi justamente dessa vivência que nasceu o Canal Separações. Depois do fim do meu casamento de 19 anos, com três filhos, vivi sentimentos comuns a milhares de brasileiras: medo, culpa, insegurança e solidão. Procurei ajuda profissional, fiz terapia, consultei advogados, mas sentia falta de algo essencial: encontrar mulheres que estivessem vivendo o mesmo processo e que mostrassem que era possível recomeçar juntas.
Percebi que existiam muitas informações fragmentadas, mas nenhum espaço capaz de acolher a mulher de forma integral e coletiva. Foi dessa ausência que surgiu o Separações.
Mais do que um canal sobre divórcio, construímos uma rede feminina de apoio, acolhimento e reconstrução. Hoje reunimos cerca de um milhão de seguidoras nas redes sociais e nos consolidamos como a maior rede feminina de apoio às mulheres que enfrentam o fim de um relacionamento no Brasil.
Nosso propósito nunca foi incentivar separações. Pelo contrário. Nosso compromisso é garantir que nenhuma mulher enfrente esse momento sozinha e que ela encontre, ao seu redor, outras mulheres, especialistas e histórias capazes de sustentar sua travessia.
O divórcio envolve dimensões emocionais, jurídicas, patrimoniais, familiares e profissionais. Ele impacta a mulher, mas também mobiliza filhos, parentes, amigos, colegas de trabalho e toda a estrutura social ao redor. Por isso, criamos uma comunidade que oferece informação qualificada, orientação de especialistas, histórias reais e, principalmente, identificação.
Quando uma mulher conta sua trajetória, outras milhares percebem que não são as únicas vivendo aquele sofrimento. A culpa diminui, a vergonha desaparece e nasce algo extremamente poderoso: o sentimento de pertencimento. É nesse encontro entre histórias que o divórcio deixa de ser vivido como fracasso individual e passa a ser compreendido como uma experiência compartilhada, que pode ser atravessada com apoio e dignidade.
As histórias compartilhadas no canal mostram diferentes realidades. Há mulheres que enfrentaram violência doméstica, dependência financeira, traições, relacionamentos abusivos ou simplesmente descobriram que permanecer em um casamento infeliz também tem um alto custo emocional. Cada relato amplia o olhar coletivo sobre um tema que durante décadas permaneceu cercado de silêncio.
Esse movimento revela uma mudança importante na sociedade brasileira. Segundo o IBGE, em 2022 o Brasil registrou 420.039 divórcios; aproximadamente 45% dos casamentos terminam em divórcio, e quase 70% dos pedidos são feitos pelas mulheres. Esses números mostram que o fim de um casamento deixou de ser uma exceção para se tornar uma realidade social vivida por milhões de famílias.
Apesar disso, ainda existe pouco espaço para conversar sobre o que acontece depois da separação. Como reconstruir a autoestima? Como reorganizar a vida financeira? Como lidar com os filhos? Como enfrentar disputas judiciais? Como voltar a confiar em si mesma? Essas perguntas não pertencem a uma mulher apenas. Elas fazem parte de uma experiência coletiva que precisa ser nomeada, debatida e acolhida.
Foi justamente para responder a essas perguntas que nasceu nossa comunidade.
Hoje, o Separações reúne psicólogas, advogadas, terapeutas, especialistas em finanças e centenas de mulheres dispostas a compartilhar experiências, aprendizados e caminhos possíveis para quem precisa recomeçar. Somos uma rede de apoio que informa, escuta, orienta e fortalece. Um espaço onde a mulher não é reduzida ao fim do casamento, mas reconhecida em sua potência de reconstrução.
O que mais emociona não são apenas os depoimentos publicados. É observar diariamente mulheres acolhendo outras mulheres nos comentários, nas lives e nas redes sociais. Muitas chegam fragilizadas e, algum tempo depois, voltam para contar que reconstruíram suas vidas, abriram empresas, retomaram a carreira, encontraram paz ou simplesmente voltaram a sorrir. Esse movimento mostra que a reconstrução feminina não acontece sozinha: ela é sustentada por vínculos, trocas e solidariedade.
Esse talvez seja o maior patrimônio que construímos: uma corrente permanente de apoio feminino baseada em empatia, informação e solidariedade. Uma rede que transforma dor em conversa, isolamento em pertencimento e recomeço em possibilidade concreta.
Ao longo dessa trajetória, também percebemos que dar voz às mulheres produz impacto social. Histórias compartilhadas no canal já contribuíram para ampliar o debate sobre violência doméstica, abuso psicológico e direitos das mulheres, mostrando que romper o silêncio pode transformar não apenas vidas individuais, mas toda a sociedade.
Quando criamos o Separações, imaginávamos ajudar algumas mulheres. Hoje entendemos que ajudamos a construir um movimento.
Porque nenhuma mulher deveria enfrentar o fim de um relacionamento acreditando que está sozinha.
Quando uma mulher encontra apoio, ela encontra coragem. Quando encontra informação, faz escolhas melhores. E quando encontra outras mulheres caminhando ao seu lado, descobre que o divórcio pode deixar de representar apenas um fim para se transformar no início de uma reconstrução coletiva, feminina e profundamente transformadora.
*Vivi Reis é a idealizadora do Canal Separações
*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres