Chega! Políticas públicas eficazes são necessárias para enfrentar as causas profundas da violência contra a mulher
Ligia Kallas* Publicado em 26/02/2026, às 06h00

A autora reflete sobre a realidade estrutural da desigualdade de gênero, destacando a influência de sua avó na formação de sua identidade e a persistência do assédio e da opressão feminina ao longo de sua vida.
Ela aponta que, apesar do lançamento do Pacto Nacional de enfrentamento ao feminicídio, as causas profundas da violência contra a mulher continuam sendo ignoradas, perpetuando um ciclo de abusos e desigualdade.
A autora defende a necessidade de políticas mais rigorosas contra assediadores e a promoção de equidade salarial, enfatizando que a luta pela dignidade e respeito das mulheres deve ser uma prioridade social e política.
Alguns leitores podem se sentir desconfortáveis com este texto. Outros dirão que ele generaliza ou que recorre a um discurso vitimista. Ainda assim, dificilmente poderá ser negado que se trata do retrato de realidade estrutural.
Nasci em 1987 e fui criada, majoritariamente, por minha mãe e pela família materna, juntamente a extensa rede de tios, tias, avós, nove irmãos e irmãs. Uma configuração bastante comum às famílias nordestinas que migraram para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Quando digo “comum”, não ignoro as particularidades, mas reconheço um padrão que atravessa milhões de histórias semelhantes à minha.
Meu avô era caixeiro-viajante. A ausência constante dele fez com que minha avó assumisse sozinha a criação de quase dez filhos. Coube a ela ser provedora, educadora, cuidadora e referência emocional. Bordadeira, passava noites inteiras sobre a máquina de costura para garantir que seus filhos crescessem com dignidade, saúde e valores. Foi essa mulher - e tantas como ela - quem moldou minha primeira noção de força feminina.
Desde muito cedo compreendi que a relação entre mulheres e a sociedade é marcada por um desequilíbrio profundo. As ferramentas disponíveis para nos defendermos sempre pareceram escassas, frágeis e insuficientes. Ainda menina, senti o peso do olhar masculino, do assédio, das expectativas silenciosas para ser contida, delicada, educada, discreta. O jogo nunca foi justo. Crescer apenas tornou isso mais explícito. Trinta e dois anos após meu primeiro episódio de assédio sexual, sigo me sentindo, diariamente, diminuída e violada, não por exceção, mas por estrutura.
Neste ano, o governo federal lançou um Pacto Nacional de enfrentamento ao feminicídio e à violência contra a mulher, convocando os poderes públicos e a sociedade civil a se unirem em torno dessa causa. A iniciativa é necessária e, sem dúvida, legítima. Mas é suficiente? A sensação é de que se combate o efeito final sem enfrentar, com a mesma intensidade, as causas profundas. O assassinato é o desfecho extremo da longa cadeia de violências. Antes dele, há abusos cotidianos, naturalizados e sistematicamente ignorados.
Recentemente, a atriz Jameela Jamil chamou atenção, em uma entrevista, para a forma como meninos são educados: não para serem homens, mas para não serem meninas. Desde cedo, aprendem que tudo o que se associa ao feminino deve ser negado. Aos homens é permitido quase tudo. Às mulheres, impõem-se regras, limites e vigilância constantes. Eles crescem entendendo que são donos de si e do mundo. Nós, que precisamos caber em padrões, silêncios e concessões.
É nesse processo que nasce o desrespeito. A crença de que homens são superiores e que mulheres ocupam lugar secundário e inferior, persiste e se reproduz diariamente. Ela se manifesta quando corpos femininos são violados no transporte público, quando meninas precisam adaptar suas roupas para “evitar” olhares, quando mulheres competentes recebem menos e ocupam posições inferiores apenas por serem mulheres. São episódios diferentes, mas todos sustentados pela mesma lógica.
Diante disso, é legítimo questionar se não deveríamos avançar para políticas mais incisivas, com punições rigorosas a assediadores e pedófilos, mecanismos reais de equidade salarial, exigência de diversidade e pluralidade no mercado de trabalho. Sobreviver não pode ser o único objetivo. Aceitar desigualdade, abuso e desvalorização tampouco é uma opção.
Penso na minha filha e na fragilidade das garantias que hoje existem para protegê-la. Penso em mim mesma, nos espaços profissionais dos quais precisei me retirar diante de tratamentos desiguais. Penso na minha avó, que trabalhou noites e dias porque o homem que deveria dividir a responsabilidade simplesmente não se reconhecia como parte dela.
Lutar para que mulheres permaneçam vivas é fundamental. Mas não existe vida plena sem dignidade, segurança e respeito.
Ainda espero pelo pacto que fará milhões de homens compreenderem que mulheres não são propriedade, que meninas são seres humanos e que competência profissional não se mede por gênero, ego ou força física, mas por compromisso, inteligência e entrega.
*Lígia Kallas é Head de Marketing na Kallas Mídia OOH
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