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» VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Quando a violência ainda não tem nome

O Programa Florescer tem ajudado mulheres a entenderem seus direitos e a reconhecerem a violência em suas vidas para que possam romper o ciclo de abuso

Alline Cezarani* Publicado em 28/08/2026, às 06h00

Aline Cezarani, CEO da Rede Santa Catarina - Foto: Divulgação
Aline Cezarani, CEO da Rede Santa Catarina - Foto: Divulgação

A Lei Maria da Penha, que completou 20 anos, transformou a abordagem do Brasil em relação à violência contra a mulher, mas muitas ainda demoram a buscar ajuda devido à falta de reconhecimento do que é violência.

Uma pesquisa revela que muitos brasileiros não identificam comportamentos abusivos, como controle financeiro e isolamento, como formas de violência, perpetuando a naturalização de abusos que afetam a autonomia feminina.

O Programa Florescer, que oferece apoio a mulheres em situação de violência, destaca a importância de ajudar as vítimas a reconhecerem seus direitos e a violência que enfrentam, promovendo um ambiente seguro para que busquem apoio em diversos contextos sociais.

Resumo gerado por IA

Durante muito tempo, acreditamos que o momento mais importante no enfrentamento da violência contra a mulher era aquele em que ela pedia ajuda. Hoje, depois de conhecermos tantas histórias por meio do Programa Florescer, acredito que esse momento, na verdade, acontece muito antes: é quando uma mulher descobre, pela primeira vez, que aquilo que ela vive tem nome. E que esse nome é violência.

Neste ano, a Lei Maria da Penha completou duas décadas. É uma das legislações mais importantes da nossa história recente, responsável por transformar a forma como o Brasil enfrenta a violência contra a mulher e por criar mecanismos fundamentais de proteção. Mas, vinte anos depois, uma pergunta continua nos inquietando: por que tantas mulheres ainda demoram para buscar ajuda?

Parte da resposta está em um fato pouco discutido. Muitas não reconhecem que vivem uma violência. Segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo Movimento Mulher 360, embora a violência contra a mulher seja considerada uma das formas mais graves de criminalidade do país, uma parcela significativa dos brasileiros ainda não reconhece como violência atitudes como controlar o salário da parceira ou impedi-la de sair sozinha para uma confraternização. Isso mostra que, muitas vezes, a violência começa antes mesmo de ser percebida como tal, escondida em comportamentos que ainda são tratados como parte da rotina de uma relação. O dado revela um problema que vai além da segurança pública: ainda naturalizamos formas de violência que corroem, silenciosamente, a autonomia feminina.

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A agressão física costuma ser o ponto de ruptura. Mas quase nunca é o ponto de partida. Antes dela, existe o controle financeiro. A humilhação cotidiana. O isolamento. A vigilância sobre o celular. A crítica constante que faz a mulher duvidar da própria capacidade. A ameaça que nunca se concretiza, mas que passa a silenciar e a orientar cada decisão da rotina. Essas marcas não aparecem em exames de corpo de delito. Aparecem na forma como alguém deixa de falar, de sorrir, de confiar em si.

Nos últimos dois anos, convivemos de perto com essa realidade por meio do Programa Florescer, criado para acolher colaboradoras em situação de violência doméstica. Mais do que oferecer apoio psicológico, social e jurídico, a iniciativa nos ensinou algo que não aparece nos manuais: antes de ajudar uma mulher a romper com o agressor, muitas vezes é preciso ajudá-la a compreender que ela tem direitos e que aquilo que vive não é normal.

Muitas chegam ao atendimento e, em dado momento, revelam que o companheiro controla seu dinheiro "porque ele sempre organizou as contas". Outras contam que deixaram de ver familiares para evitar conflitos, que precisam mostrar mensagens no celular ou justificar com muita cautela onde estiveram. Narram essas situações como quem descreve a rotina. Não porque aceitem a violência, mas porque nunca aprenderam a reconhecê-la.

É nesse momento que a informação se torna ferramenta de proteção. Quando uma mulher compreende que abuso psicológico, moral e patrimonial também são formas de violência previstas na Lei Maria da Penha, ela passa a enxergar sua própria história sob outra perspectiva. O primeiro passo nem sempre é denunciar. Muitas vezes, é conseguir voltar a confiar na própria percepção, recuperar a capacidade de decidir e entender que existe uma rede preparada para apoiá-la, disposta a respeitar o seu tempo e as suas escolhas.

Em dois anos de Florescer, os números ajudam a dimensionar o que essa rede de apoio tem significado na vida de muitas mulheres. Foram 183 atendimentos. Desse total, parte relevante das mulheres passou por todo o ciclo de acompanhamento do programa e, entre elas, uma parcela representativa conseguiu romper o ciclo da violência.

Esses números são relevantes e demonstram a força do impacto que esse tipo de iniciativa pode gerar. Mas não são os dados o que mais nos comove. O que permanece na memória são histórias de mulheres que voltaram a fazer planos, recuperaram sua dignidade e autoestima, reconstruíram a relação com os filhos, retomaram a vida profissional, avançaram em suas áreas e descobriram que não precisavam enfrentar tudo sozinhas.

A experiência do Florescer também nos leva a uma segunda reflexão. Durante muito tempo, imaginamos que a porta de entrada para a rede de proteção fosse apenas a delegacia, o júri ou os serviços especializados. E sim, eles são absolutamente indispensáveis, sejam quais forem as circunstâncias. Mas hoje sabemos que o primeiro pedido de ajuda pode surgir em muitos outros lugares. Inclusive, onde menos se espera.

Pode surgir na empresa, no hospital, na escola. Em uma conversa com um colega ou uma liderança preparada para ouvir sem julgar. Criar ambientes seguros não significa substituir o papel do Estado. Significa reconhecer que a violência atravessa todos os espaços da sociedade e que todos temos responsabilidade e dever social em ajudar a interrompê-la antes que ela se torne irreversível.

Talvez esse seja um dos maiores desafios para os próximos anos da Lei Maria da Penha: fazer com que as mulheres consigam reconhecer, o quanto antes, quando seus direitos começam a ser violados. Porque nenhuma mulher deveria precisar esperar a primeira agressão para entender que a violência já havia começado. E, principalmente, para descobrir que existem caminhos e pessoas dispostas a apoiá-la.

* Alline Cezarani é CEO da Rede Santa Catarina e é Graduada em Administração de Empresas com ênfase em Gestão Hospitalar, possui pós-graduação em Saúde Pública, especialização em Gerontologia e MBA em Gestão de Saúde.

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