Pesquisa recente acende alerta sobre sedentarismo infantil e reforça a urgência de repensar o ambiente escolar para incentivar o corpo em movimento
Marcos Mourão (Marcola)* Publicado em 15/05/2026, às 06h00

Uma pesquisa do Instituto Atlas/Intel revela que 53,4% dos pais brasileiros acreditam que seus filhos praticam menos exercícios do que deveriam, com a falta de espaços acessíveis e questões emocionais como principais causas. O sedentarismo infantojuvenil é um problema crescente, com 84% dos jovens entre 11 e 17 anos não atingindo os níveis recomendados de atividade física, superando a média global.
O aumento do sedentarismo é atribuído à urbanização, insegurança e digitalização, resultando em uma infância mais restrita e menos ativa. A escola, portanto, deve se tornar um espaço vital para a atividade física e o desenvolvimento integral das crianças, integrando movimento ao processo de aprendizagem.
Para reverter essa situação, é necessário que famílias, educadores e o poder público trabalhem juntos para promover ambientes que incentivem o movimento e a conexão com a natureza. A mudança de perspectiva sobre a importância do brincar livre e da alimentação saudável é fundamental para garantir um desenvolvimento mais equilibrado e saudável para as crianças.
Uma pesquisa recente do Instituto Atlas/Intel, divulgada pela imprensa mostra que mais da metade dos pais (53,4%) brasileiros admite que seus filhos fazem menos exercício do que deveriam. Umas das principais causas desse desinteresse é a falta de espaços acessíveis para essa prática (53,3%), questões emocionais ou psicológicas como ansiedade e falta de motivação (31,5%) e uso excessivo de telas (31,1%).
Embora o sedentarismo infantojuvenil não seja um problema exclusivo do Brasil, sendo considerado mundialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como pandemia, aqui, 84% dos jovens entre 11 e 17 anos não atingem os níveis recomendados de atividade física, um índice superior à média mundial.
Diante desse cenário, é essencial que famílias e o poder público façam uma reflexão sobre onde as crianças têm espaço para se movimentar. E a resposta passa, necessariamente, pela escola.
Durante décadas, o movimento foi sendo gradualmente retirado da rotina infantil. O crescimento urbano, o aumento da insegurança nas cidades e a digitalização da vida cotidiana contribuíram para um modelo de infância mais restrito, indoor e mediado por telas. Ou seja, estamos diante de uma geração que não brinca mais ao ar livre ou caminha até a escola com a mesma frequência de seus pais e avós.
É por isso que a escola deixou de ser apenas um espaço de aprendizagem formal para se tornar, cada vez mais, um dos poucos ambientes possíveis para a vivência plena da infância, aquela que envolve corpo, exploração e interação com o mundo real. Mas isso exige uma mudança de perspectiva.
Não basta concentrar o movimento em momentos pontuais, como as aulas de educação física. A atividade corporal precisa ser compreendida como parte integrante do processo de aprendizagem. Crianças aprendem com o corpo e não apesar dele. Movimento, curiosidade e experimentação são elementos centrais no desenvolvimento cognitivo, emocional e social. O contato com a natureza nas escolas, portanto, não deve ser entendido como um diferencial, mas como uma necessidade.
De acordo com o manual de orientação “Benefícios da Natureza no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes – atualização 2024”, da Sociedade Brasileira de Pediatria, o acesso regular a ambientes naturais está associado a uma série de ganhos para o desenvolvimento infantil. Entre eles, a melhora da saúde mental, o fortalecimento do sistema imunológico, o aumento da capacidade de atenção e a redução de sintomas de ansiedade e estresse.
Além disso, o documento reforça a importância do brincar livre em ambientes abertos como componente essencial para o desenvolvimento saudável. Não estamos falando só de lazer. É por meio dessas experiências que a criança desenvolve autonomia, criatividade, habilidades socioemocionais e senso de pertencimento ao mundo.
Costumo dizer que o corpo em movimento não compete com o aprendizado, ele potencializa o aprendizado. Ambientes que favorecem o movimento, com áreas externas, espaços abertos e propostas pedagógicas que incentivam a exploração, contribuem para a saúde física e para o engajamento das crianças.
Outro aspecto frequentemente negligenciado nesse debate é a relação das crianças com a alimentação. Em um contexto de sedentarismo crescente, repensar hábitos alimentares torna-se parte indissociável da formação integral. Experiências que conectam crianças à origem dos alimentos, como hortas escolares, trocas e testes de receitas ajudam a construir uma relação mais consciente, saudável e autônoma com a comida.
Tudo isso aponta para a necessidade de ressignificar o espaço escolar.
A escola contemporânea cria condições para que a criança viva plenamente sua infância. Isso significa garantir tempo, espaço e estímulo para o movimento, para o brincar e para a conexão com o ambiente natural, muitas vezes não assegurado fora dela.
Em um mundo cada vez mais digital, o desafio não está em negar a tecnologia, mas em equilibrá-la com experiências fundamentais para o desenvolvimento humano. O sedentarismo infantil não é apenas uma questão de saúde pública é um sinal de que estamos, pouco a pouco, desconectando as crianças daquilo que as constitui como crianças.
Reverter esse quadro exige ação coordenada entre famílias, poder público e educadores. Mas passa, sobretudo, por reconhecer que o futuro começa no corpo em movimento e que a escola tem um papel decisivo em garantir que ele não fique parado.
* Marcos Mourão (Marcola) é Coordenador dos Especialistas no espaço ekoa. Educador físico com experiência na Educação Infantil e no Ensino Fundamental.
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