A transição para uma economia circular exige mudanças culturais e operacionais nas empresas, visando a sustentabilidade em toda a cadeia produtiva
Gisele Barbin* Publicado em 23/09/2026, às 06h00
Existe uma pergunta que toda empresa deveria fazer antes mesmo de uma nova legislação entrar em vigor: o que podemos fazer além da obrigação? Tenho pensado muito sobre isso nos últimos meses, especialmente diante das novas regras para logística reversa de embalagens plásticas no Brasil. O Decreto Federal nº 12.688/2025 estabelece metas progressivas de recuperação de embalagens e de incorporação de conteúdo reciclado. Para as empresas de grande porte, a exigência de conteúdo reciclado começou em janeiro de 2026, com uma meta nacional de 22%. Esse percentual sobe gradualmente até chegar a 40% em 2040. Na recuperação das embalagens, a meta nacional parte de 32% em 2026 e chega a 50% em 2040.
A legislação é importante. Ela cria parâmetros, estabelece responsabilidades e coloca a economia circular definitivamente na agenda empresarial. Mas acredito que não podemos esperar que a lei nos diga até onde devemos ir.
Na Extrusa-Pack, decidimos começar antes. Desde janeiro deste ano, incorporamos 30% de plástico reciclado pós-consumo, o PCR, nas embalagens de sacos para lixo produzidas pela empresa. Ou seja, começamos o processo acima da meta estabelecida para 2026. Para fazer essa mudança, investimos cerca de R$ 200 mil, incluindo a reciclagem de estoques antigos de embalagens, a substituição de mais de 50 clichês flexográficos e meses de desenvolvimento e testes.
Conto esse caso não para dizer que fizemos algo extraordinário, mas porque acredito que ele ajuda a mostrar uma mudança que precisa acontecer na indústria: sustentabilidade não pode ser apenas uma obrigação de compliance. Ela precisa fazer parte da estratégia do negócio. E isso exige coragem. Quando decidimos utilizar material reciclado, nosso primeiro desafio foi garantir que a mudança não significasse perda de qualidade. Não queríamos que o consumidor tivesse de escolher entre um produto mais sustentável e um produto melhor. A nossa meta era, e continua sendo, oferecer os dois.
Foram meses de testes para desenvolver formulações que permitissem incorporar o PCR sem comprometer resistência, aparência, coloração e qualidade de impressão das embalagens. É uma mudança que acontece dentro da fábrica, nos processos, na engenharia do produto, na relação com fornecedores e, principalmente, na mentalidade.
Mas essa preocupação não se limita à matéria-prima. Buscamos incorporar escolhas mais sustentáveis em diferentes etapas da produção. A empresa utiliza tintas à base de água e energia proveniente de fontes renováveis na fabricação de diversos itens, entre eles as sacolas plásticas.
São iniciativas que fazem parte de uma visão mais ampla. Afinal, quando falamos em reduzir o impacto ambiental de um produto, precisamos olhar para todo o seu ciclo de produção: os materiais utilizados, os processos industriais, a energia consumida, os insumos e, posteriormente, o destino daquela embalagem depois do consumo. Essa visão é fundamental para que a sustentabilidade deixe de ser uma ação isolada e passe a fazer parte da própria maneira de produzir.
Esse ponto é fundamental porque ainda existe uma visão de que sustentabilidade, necessariamente, significa aumento de custo para o consumidor. Nem sempre. No nosso caso, conseguimos incorporar o material reciclado sem repassar custo adicional ao mercado. Isso mostra que, quando existe planejamento, investimento e disposição para inovar, é possível encontrar soluções ambientalmente melhores que também façam sentido economicamente.
E esse equilíbrio é essencial. A transição para uma economia circular não acontecerá se sustentabilidade for tratada como um privilégio acessível apenas a produtos premium. Ela precisa chegar à produção em escala, aos produtos do cotidiano e às diferentes camadas de consumo.
Os números mostram o tamanho do desafio. Segundo estudo da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), a reciclagem mecânica de embalagens plásticas pós-consumo alcançou 24,4% no Brasil em 2024. No mesmo período, a produção de resina plástica reciclada pós-consumo chegou a 1,012 milhão de toneladas, crescimento de 7,8% em relação ao ano anterior.
São avanços importantes, mas ainda insuficientes diante do volume de materiais que colocamos em circulação. É por isso que não podemos falar de economia circular olhando apenas para a indústria. Precisamos olhar para toda a cadeia.
Na prática, uma embalagem só se torna parte de uma economia circular quando existe uma estrutura capaz de fazer com que ela volte ao ciclo produtivo. Isso envolve empresas, varejo, poder público, consumidores, recicladores e, de maneira muito especial, cooperativas e catadores.
O próprio Decreto 12.688 estabelece que a logística reversa deve priorizar cooperativas, associações e outras formas de organização de catadores e catadoras. Também determina que fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes assumam responsabilidades pela estruturação e pelo financiamento do sistema.
Essa dimensão social da sustentabilidade é algo que considero particularmente importante. Na nossa operação, o material reciclado utilizado é adquirido de cooperativas de reciclagem da região de Guarulhos, em São Paulo. Quando uma indústria compra material reciclado, não está apenas substituindo parte da matéria-prima virgem. Está ajudando a criar mercado para aquilo que foi descartado e fortalecendo uma cadeia de trabalho que depende justamente da valorização dos materiais recicláveis.
É uma mudança de lógica. Durante muito tempo, enxergamos o resíduo como o fim da história de um produto. A economia circular nos convida a enxergá-lo como o começo de uma nova história. Essa transformação também muda o papel das empresas.
Não basta produzir, vender e transferir para o consumidor a responsabilidade pelo descarte. Quem coloca um produto no mercado precisa pensar no que acontecerá com ele depois do consumo. O próprio decreto determina que aspectos como reciclabilidade e durabilidade sejam considerados ainda na concepção e na produção.
Essa é uma das mudanças culturais mais importantes que estamos vivendo. A empresa do futuro não será aquela que simplesmente conseguir produzir mais, mais rápido e mais barato. Será aquela capaz de produzir com eficiência, qualidade e responsabilidade sobre todo o ciclo de vida daquilo que coloca no mercado.
Isso não significa ignorar a realidade econômica. Pelo contrário. Como profissional que atua na área comercial, sei que preço, qualidade, produtividade e competitividade são questões concretas. Uma empresa precisa ser economicamente saudável para continuar investindo, empregando, inovando e cumprindo seu papel social. Mas acredito que precisamos parar de colocar sustentabilidade e resultado financeiro necessariamente em lados opostos. A inovação pode aproximar essas duas coisas.
Quando uma empresa desenvolve uma embalagem que utiliza material reciclado, mantém a qualidade e não aumenta o preço para o consumidor, ela está demonstrando que a sustentabilidade pode fazer parte do próprio modelo de negócio.
É claro que ainda temos muito a avançar. A própria legislação estabelece uma trajetória de metas que vai exigir investimentos, tecnologia, rastreabilidade, infraestrutura de coleta, expansão da reciclagem e maior integração entre os diferentes elos da cadeia. O desafio é grande. E não será resolvido por uma empresa isoladamente.
Mas toda transformação começa com decisões concretas. Por isso, acredito que a pergunta mais importante para as empresas brasileiras não deveria ser apenas: “O que a legislação está nos obrigando a fazer?”
Deveríamos perguntar: “O que podemos fazer além da obrigação?” Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a maneira de enxergar sustentabilidade. Quando fazemos apenas o que a lei determina, estamos cumprindo uma regra. Quando buscamos soluções antes que elas sejam obrigatórias, estamos ajudando a construir um novo padrão para o mercado.
É essa mentalidade que precisamos levar para a indústria. O meio ambiente não é uma responsabilidade do governo, de uma área de sustentabilidade ou do consumidor. É uma responsabilidade compartilhada. E as empresas têm um papel enorme nessa equação, porque são elas que projetam produtos, escolhem matérias-primas, definem processos produtivos e colocam milhões de itens em circulação.
Não acredito que exista mais espaço para esperar. A economia circular não é uma tendência distante. Ela já começou. A legislação brasileira está criando as bases para acelerá-la, e o mercado terá de responder.
As empresas que entenderem isso primeiro não estarão apenas se antecipando a uma exigência regulatória. Estarão se preparando para um mercado em que responsabilidade ambiental será parte inseparável da qualidade, da inovação e da competitividade. E, principalmente, estarão entendendo que produzir para o futuro significa também assumir responsabilidade pelo futuro que estamos ajudando a construir.
* Gisele Barbin é Head de Vendas da Extrusa-Pack. Ela é formada em Administração de Empresas e tem MBA em gestão comercial.
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