A educação ambiental infantil deve ir além de práticas simples, visando formar uma consciência crítica sobre a sustentabilidade e a preservação do planeta
Karin Brüning* Publicado em 17/04/2026, às 06h00

O relatório da Organização Meteorológica Mundial alerta que o planeta está enfrentando um desequilíbrio energético sem precedentes, resultando em um aquecimento acelerado e exigindo ações urgentes para mitigar os impactos climáticos.
As concentrações de gases de efeito estufa atingiram níveis históricos, contribuindo para eventos climáticos extremos que afetam diretamente a vida das pessoas, como secas, tempestades e aumento nos preços dos alimentos.
A educação ambiental nas escolas é frequentemente superficial e fragmentada, necessitando de uma abordagem mais integrada que promova a conscientização sobre a interdependência entre ações humanas e a saúde do planeta.
O planeta Terra está sendo levado além dos seus limites, com todos os principais indicadores climáticos em alerta vermelho, conforme o mais recente relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado pelo Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental (UNRIC). Esse relatório, intitulado "Mensagem sobre o Relatório do Estado do Clima Global 2025", destaca uma tendência alarmante e a necessidade urgente de ação.
O relatório confirma que o desequilíbrio energético da Terra, ou seja, a diferença entre o calor absorvido e o calor liberado, é o mais elevado já registado. Isso significa que o planeta está retendo calor mais rapidamente, resultando em um aquecimento acelerado.
Diante desse cenário, urge a necessidade de uma população educada ambientalmente, cuja percepção do que é educação ambiental vá além do plantio de hortas em escolas ou da separação do lixo, uma vez que esses dois são mandatórios, mas somente uma pequena parte do que é realmente necessário para o entendimento de sustentabilidade no planeta.
A dificuldade em compreender a importância da educação ambiental infantil é um fenômeno complexo que envolve barreiras psicológicas, socioculturais e estruturais profundamente enraizadas na sociedade moderna. Um dos maiores obstáculos é o que pesquisadores chamam de extinção da experiência, um processo em que o distanciamento físico e emocional da natureza torna a preservação ambiental um conceito abstrato e irrelevante para a vida cotidiana. Quando as crianças crescem em ambientes puramente urbanos, perdem o contato sensorial com os ciclos naturais, o que impede a formação de uma “identidade ecológica”. Sem essa base afetiva estabelecida na infância, os adultos tendem a ver a educação ambiental apenas como uma transmissão de informações técnicas e não como uma formação de valores fundamentais.
Os oceanos estão absorvendo níveis épicos de calor, o que contribui para a intensificação de tempestades e, paralelamente, glaciares e gelo marinho estão desaparecendo a um ritmo acelerado, fazendo os níveis médios da água do mar continuarem a subir.
Voltando para a psiquê humana... Outro fator psicológico relevante é a Síndrome da Linha de Base Móvel (Shifting Baseline Syndrome). Cada geração tende a aceitar o estado de degradação ambiental em que nasceu como o padrão “normal”. Isso faz com que a urgência de educar as crianças para a regeneração do planeta seja subestimada, uma vez que os adultos não percebem o quanto a biodiversidade e a saúde dos ecossistemas já foram comprometidas em comparação a gerações anteriores.
Além disso, a sociedade contemporânea é fortemente influenciada por uma visão antropocêntrica, que coloca o ser humano como centro do universo e a natureza como um mero recurso a ser explorado. Essa perspectiva molda o sistema educacional para priorizar habilidades voltadas à produtividade econômica imediata, em detrimento da compreensão sistêmica da vida.
Aliado a isso, existe ainda uma crescente “cultura do medo” e a “fé na tecnologia”, ou seja, pais e educadores, muitas vezes por preocupação com a segurança urbana ou higiene, restringem o brincar ao ar livre, confinando as crianças em espaços fechados e digitais, e acreditando que inovações tecnológicas futuras resolverão sozinhas as crises climáticas, descartando a necessidade de uma mudança.
Segundo a ONU, as concentrações de gases de efeito estufa atingiram níveis sem precedentes nas últimas centenas de milhares de anos, impulsionando o aumento contínuo das temperaturas globais. A humanidade testemunhou os 11 anos mais quentes já registados, uma sequência que, segundo o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, não é uma coincidência, mas sim um alerta para a ação.
Esses dados não se limitam a estatísticas, mas se manifestam no cotidiano das pessoas, afetando famílias que enfrentam dificuldades devido a secas e tempestades que elevam os preços dos alimentos. Trabalhadores são levados ao limite pelo calor extremo, agricultores veem suas plantações definhar e comunidades e lares são devastados por inundações.
E o nosso sistema educacional, para formar as próximas gerações, como fica diante disso?
Na maioria das vezes, a educação ambiental é tratada de forma fragmentada e superficial nas escolas, limitada a datas comemorativas ou projetos isolados. Essa abordagem impede que a criança compreenda a interdependência entre suas ações e o equilíbrio do planeta, entre o que lhe benéfico momentaneamente, mas prejudicial ao entorno.
Por fim, vivemos em uma cultura que valoriza a gratificação imediata. Os benefícios da educação ambiental infantil são colhidos a longo prazo, na formação de adultos conscientes e na preservação de recursos para o futuro. Para muitas pessoas, é difícil investir tempo e recursos em algo cujos resultados não são visíveis no próximo boletim escolar ou no PIB do próximo trimestre. Essa dificuldade em lidar com o “tempo da natureza” versus o “tempo do mercado” é um dos maiores entraves para a valorização real da educação ambiental nas primeiras etapas da vida.
Superar essas barreiras exige uma mudança de paradigma: entender que a educação ambiental na infância não é apenas “ensinar a reciclar”, mas uma questão de garantir à próxima geração a capacidade de se maravilhar e cuidar do sistema que sustenta toda a vida na Terra.
* Karin Brüning é cientista e ambientalista, licenciada em Química pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), doutora em Síntese de Dendrímeros de Carbosiloxanos pela UFRJ, com pesquisas no MIT. Fundadora da @playrecycling, plataforma de educação ambiental.
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