Leituras e planejamento: a educação antirracista começa já

Iniciar o ano letivo com leituras antirracistas é preciso para cultivar uma cultura escolar inclusiva

Leo Bento* Publicado em 01/02/2026, às 06h00

Integrar a educação antirracista no currículo é um passo fundamental para garantir representatividade nas escolas brasileiras - foto: pexels

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Se ler é um ato elementar, a qualidade sobre o que se debruça é tão essencial quanto. Iniciar o ano letivo com leituras voltadas à educação antirracista não é apenas uma escolha pedagógica. Trata-se de uma decisão estratégica de gestão e de posicionamento ético. Quando o letramento racial entra em cena logo no início do planejamento anual, ele deixa de ocupar um lugar periférico, restrito a datas simbólicas ou ações pontuais, e passa a estruturar o projeto educativo como um todo. Ou seja, não é direcionado a 20 de novembro unicamente, mas a todos os 365 dias do ano.

O começo do ano é o momento de “ajustar o foco”. É quando educadores, coordenadores e gestores definem prioridades, metodologias e referências. Ao incorporar leituras antirracistas desde esse ponto de partida, cria-se a possibilidade de identificar e intervir precocemente em estereótipos, brincadeiras discriminatórias e dinâmicas de exclusão que, se ignoradas, tendem a se cristalizar ao longo do ano. Para a gestão escolar, o conhecimento teórico também funciona como um protocolo preventivo: gestores que dominam conceitos e debates contemporâneos têm mais segurança para mediar conflitos, orientar famílias e evitar respostas improvisadas que podem se transformar em crises institucionais.

Mas escolher o que ler importa (e muito). Uma prática educacional verdadeiramente antirracista exige o rompimento com o monopólio do pensamento eurocêntrico, priorizando intelectuais negros e indígenas que oferecem perspectivas decoloniais sobre educação, sociedade e conhecimento. 

Ao mesmo tempo, é fundamental equilibrar o rigor da teoria crítica com a potência das narrativas literárias. Enquanto a teoria nos ajuda a nomear fenômenos como racismo estrutural e branquitude, a literatura mais fictícia, seja por meio da prosa ou da poesia, acessa a subjetividade, humaniza dados e promove transformações que o texto acadêmico, sozinho, nem sempre alcança.

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Para lideranças escolares, outro critério essencial é a aplicabilidade cotidiana. O livro precisa dialogar com a realidade da gestão, provocando revisões concretas de protocolos, práticas pedagógicas e formas de comunicação com a comunidade escolar. Isso implica uma análise interseccional, que considere raça, gênero, classe e território, e um compromisso com a realidade brasileira contemporânea, marcada por fenômenos como o colorismo e o persistente mito da democracia racial.

No planejamento pedagógico anual, a educação antirracista só se torna concreta quando deixa de ser tratada como evento e passa a ser entendida como cultura institucional. As Leis 10.639 e 11.645 não devem funcionar como anexos burocráticos, mas como lentes através das quais todo o currículo é filtrado. Isso envolve revisar materiais didáticos, garantir representatividade intelectual em todas as disciplinas, promover metodologias interdisciplinares e estabelecer protocolos de convivência baseados na pedagogia da reparação, e não apenas na punição.

Quando educadores se engajam em processos contínuos de estudo e reflexão sobre as relações raciais no Brasil, a transformação ultrapassa o plano individual. Forma-se uma cultura escolar intencionalmente antirracista, capaz de criar ambientes emocionalmente seguros, fortalecer a autoestima de estudantes negros e indígenas e posicionar a escola como um espaço de excelência pedagógica comprometido com a justiça social. Não se trata apenas de cumprir leis, mas de construir, cotidianamente, uma educação que reconheça a equidade como um valor inegociável.

 

*Leo Bento é consultor, professor e cofundador da Inaperê

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres

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