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Antirracismo na escola: a responsabilidade que começa na gestão

A formação contínua de educadores é fundamental para garantir uma prática pedagógica de antirracismo e inclusão

Dedé Ladeira* Publicado em 04/12/2025, às 06h00

Três meninas negras sorrindo abraçadas
O gestor escolar deve atuar lado a lado com a equipe pedagógica para garantir que o combate ao racismo não seja um tema eventual - Foto: Canva Pro

A construção de uma cultura antirracista nas escolas depende da liderança dos gestores, que devem integrar o combate ao racismo na prática pedagógica e garantir que o currículo reflita as leis pertinentes, promovendo a diversidade e enfrentando desigualdades históricas.

É fundamental envolver as famílias no processo educativo, criando espaços de diálogo e engajamento que legitimem o compromisso antirracista, embora muitos pais ainda sintam desconforto ao discutir o tema com seus filhos.

Os gestores devem oferecer apoio contínuo aos professores, promovendo formações e encontros que garantam a coerência nas práticas educacionais, enquanto a representatividade na Educação Infantil é crucial para a autoestima das crianças negras e para a formação de uma visão plural nas crianças brancas.

Resumo gerado por IA

Costumo dizer que a construção de uma cultura antirracista na escola começa na liderança. Gestores escolares têm a responsabilidade de garantir que o combate ao racismo não seja um tema eventual, mas um eixo estruturante da prática pedagógica. São eles que definem quando e como o assunto será tratado com as famílias, que cuidam da formação dos professores e que asseguram que o currículo reflita as orientações das Leis 10.639/03 e 11.645/08. Não se trata apenas de incluir conteúdos, mas de sustentar uma visão de mundo que valoriza a diversidade e enfrenta desigualdades históricas.

Para que essa cultura floresça, é essencial envolver pais e mães. A gestão precisa criar espaços de diálogo, escuta e participação. Ações planejadas, encontros temáticos e estratégias de engajamento aproximam as famílias do projeto educativo e legitimam o trabalho da escola. Quando a comunidade entende o propósito pedagógico, o compromisso antirracista ganha força e se mantém coerente ao longo do ano letivo.

Mas esse processo pode encontrar resistências. Muitas famílias, sobretudo brancas, ainda sentem desconforto ao discutir racismo com seus filhos. Cabe ao gestor deixar explícitos os conteúdos trabalhados em sala, apresentar com transparência os objetivos formativos e abrir canais permanentes de conversa. O diálogo individual é fundamental. Ele acolhe dúvidas, reduz tensões e constrói um espaço seguro para reflexão. Também é papel da gestão indicar livros, séries, cursos e referências que ampliem o repertório das famílias e fortaleçam sua participação.

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Dentro da escola, os professores precisam de apoio contínuo. Muitas pesquisas mostram que educadores evitam trabalhar relações raciais por insegurança ou falta de formação específica. Por isso, o gestor deve atuar lado a lado com a equipe pedagógica. Encontros formativos frequentes, estudos coletivos e análise das práticas de sala garantem coerência e constância. A formação não é pontual. É um processo permanente de aprendizado institucional.

Na Educação Infantil, a responsabilidade é ainda maior. Crianças negras enfrentam experiências de discriminação muito cedo, o que afeta sua autoestima e o modo como se percebem no mundo. A representatividade nas histórias, nas brincadeiras e nos recursos lúdicos é essencial. Quando crianças negras se veem como protagonistas, constroem uma autoimagem positiva desde cedo. Crianças brancas, por sua vez, aprendem a reconhecer a pluralidade humana como valor e a romper com ideias de padrão único.

Vamos falar com exemplos?

Sempre digo que casos reais ajudam a materializar qualquer ideia ou teoria. E não poderia deixar de citar a EMEI Nelson Mandela, localizada na Zona Norte da cidade de São Paulo, justo por ser uma escola que possui um desenho curricular centrado em uma educação decolonial, oferecendo aos estudantes um contato efetivo com a tematica de diversidade racial a partir de práticas diversas (desde a leitura de livros com personagens negros de maneira potente, como a apresentação de modelos sociais centrados em países africanos).

A crença em um trabalho contínuo sobre relações raciais e diversidade, que acontece na rotina diária dos estudantes, se consolida neste espaço para garantir uma educação de qualidade que respeita e valoriza a pluralidade de identidades presentes na instituição.

Em geral, nos trabalhos de consultoria, orientamos gestores para que esse compromisso seja contínuo. E isso acontece por meio de formações exclusivas sobre relações raciais e diversidade, com foco na atuação da liderança. A transformação institucional depende de gestores preparados, conscientes de seu papel e capazes de garantir que políticas antirracistas se tornem prática diária. A liderança escolar é decisiva para que a inclusão não seja discurso, mas realidade.

* Dedé Ladeira é sócia-fundadora da Inaperê Consultoria

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