A sociedade julga a mãe após a tragédia, mas o foco deve estar na violência que vitima mulheres e crianças
Malu Echeverria* Publicado em 24/02/2026, às 06h00
Muito se falou nos últimos dias sobre a tragédia da família de Itumbiara (GO), em que um secretário de governo da prefeitura local, Thales Machado, assassinou seus dois filhos e tirou a própria vida em seguida. O crime foi motivado por vingança, já que o pai não aceitava a separação da mãe das crianças, Sarah Araújo.
Em poucas horas, o tribunal da internet julgou a mãe culpada pelo crime, embora quem tenha atirado nas crianças tenha sido o pai. Em primeiro lugar, julgaram-na por infidelidade conjugal (embora eles já estivessem separados quando ela supostamente se envolveu com outra pessoa). Além disso, Sarah foi acusada de negligência. Se ela sabia que o marido era violento, por que foi viajar e deixou os filhos com ele, afinal?
Apesar dos milhares de comentários, tanto de homens quanto de mulheres, com o objetivo de justificar algo injustificável, muitos jornalistas, profissionais de saúde e autoridades políticas usaram sua voz para lamentar o caso e defender Sarah publicamente. Talvez a crítica mais contundente, porém, tenha vindo de um poeta. “Se ela não seria dele. Não teria mais ninguém. Como se os filhos fossem dela, nunca dele”, escreveu Fabrício Carpinejar em suas redes sociais.
Tem um ditado popular que diz assim “Quem pariu Mateus que o embale” ou, na versão mais moderna, em forma de meme, “Cadê a mãe dessa criança?”. Essas expressões deixam bem claro o que se espera das mães ainda hoje, ou seja, que sejam as principais responsáveis de seus filhos. Não fosse assim, as escolas não ligariam primeiro para elas quando a criança fica doente. Ou a licença maternidade seria igual para pais e mães. São muitas as situações e estatísticas, enfim, que comprovam esse pensamento.
O caso de Itumbiara, como era de se esperar, foi abafado pelo Carnaval. Da homenagem ao presidente ao desfile da influencer que não sabe sambar, não faltaram motivos para desviar a atenção do povo para outras polêmicas. Ainda assim, nesses dias de festa, a BBC publicou uma entrevista com uma delegada que havia passado pelo mesmo que Sarah. Em julho de 2023, seis meses após a separação, o ex-marido da delegada Amanda Souza assassinou os dois filhos do casal (Marcelo, de 12 anos, e Letícia, 9) em Belém (PA). Na mensagem endereçada à ex-mulher, o assassino escreveu covardemente antes de se suicidar: “Parabéns, você conseguiu o que você queria: eu matei os seus dois filhos”.
A Justiça chama esses casos de violência vicária. O que dificulta a formatação de dados e a formulação de políticas públicas, diz a reportagem da BBC. Mas como apontou a jornalista Mariana Kotscho, o certo seria chamar de feminicídio. Afinal, uma mãe que sobrevive ao assassinato dos filhos também morre um pouco (ou muito).
Alheia ao sofrimento das mães, a sociedade tende a classificar homens que cometem atrocidades como essa de psicopatas. Alguns devem ser mesmo. Essa “desculpa”, porém, faz com que muitos se esqueçam que a maioria dos casos de violência contra mulheres e crianças acontece dentro de casa, por pessoas comuns. No caso das crianças de até 4 anos, por exemplo, é onde ocorrem 70% dos deles, de acordo com o Atlas da Violência.
Existe ainda outro fator difícil de mensurar por trás da tal da violência vicária, o machismo estrutural. Alguns especialistas em saúde mental dizem que o sentimento de posse nesses casos fala mais alto. Como esses homens se sentem donos das mulheres e da prole, podem fazer o que quiserem com ambos, ressaltam. Mas a fala do ex-marido da delegada Amanda deixou claro que a motivação do assassino foi além da posse. Como muitos homens, ele simplesmente se desvencilhou do maior vínculo de todos, a ponto de ter coragem de matar os próprios filhos. Como se fossem só dela. Nunca dele.
*Malu Echeverria é jornalista e autora do livro recém-lançado “Deus é Mãe: Celebrando a Potência da Maternidade” (Editora Feminas)
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