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A exaustão no climatério é uma realidade inconveniente

Saiba como como a redução do estrogênio impacta a produção de energia e o que fazer para tentar contornar esse "cansaço eterno"

Vanessa Kopersz* Publicado em 13/05/2026, às 06h00 - Atualizado às 10h46

A fadiga é uma das queixas mais comuns das mulheres que estão na perimenopausa e menopausa. - Foto: Canva Pro
A fadiga é uma das queixas mais comuns das mulheres que estão na perimenopausa e menopausa. - Foto: Canva Pro

A fadiga intensa é uma queixa comum entre mulheres na perimenopausa e menopausa, resultante da queda dos hormônios, especialmente do estrogênio, que afeta a produção de energia celular e provoca sintomas como névoa mental e cansaço desproporcional.

Além da diminuição do estrogênio, fatores como alterações do sono, resistência à insulina e perda de massa muscular contribuem para essa exaustão, que pode ser exacerbada por deficiências nutricionais e estresse oxidativo.

Tratamentos incluem a reposição hormonal com estradiol e o uso de suplementos como Coenzima Q10 e NAD, embora a eficácia da suplementação de NAD seja debatida entre médicos, destacando a importância de um estilo de vida saudável para potencializar os efeitos dos tratamentos.

Resumo gerado por IA

Tenho conversado com amigas na minha faixa de idade e também constatado, nos diversos fóruns online sobre menopausa que frequento, que a fadiga é uma das queixas mais comuns das mulheres que como eu, estão na perimenopausa - ou mesmo das que já estão na menopausa.

Não adianta dormir horas, descansar, desacelerar, tomar café, etc. Sempre que você se percebe mais profundamente, está com aquela sensação de ‘’bateria piscando’’, como se fosse um celular prestes a ‘’morrer’’.

Mas afinal, o que causa essa exaustão sem fim? Claro, estamos ficando mais velhas, mas vejo mulheres que não passam por um climatério tão pesado cumprindo suas tarefas diárias normalmente.

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‘’A exaustão no climatério tem origem multifatorial e está diretamente ligada à queda dos hormônios, principalmente o estrogênio. Esse hormônio é muito mais do que regulador do ciclo menstrual: ele atua como verdadeiro guardião das mitocôndrias - as estruturas dentro das células responsáveis pela produção de energia. O estrogênio protege essas usinas energéticas, otimiza a produção de ATP (a moeda energética da célula) e ainda modula uma enzima fundamental chamada SIRT1, a sirtuína 1, que regula o metabolismo e o reparo celular’’, explica a Dra. Fabiane Berta, ginecologista e fundadora do movimento My Pausa.

‘’Quando o estrogênio cai, todo esse sistema se desorganiza. A função mitocondrial perde eficiência, a sinalização da SIRT1 enfraquece, o sono fragmenta, os despertares noturnos aumentam, e sintomas como ansiedade e irritabilidade passam a consumir ainda mais reservas de energia. O cérebro, que utiliza cerca de 20% de toda a energia produzida pelo corpo, é um dos primeiros a sentir o impacto - daí a névoa mental, a sensação de funcionar no automático e o cansaço que parece não ter explicação. O resultado é uma fadiga persistente, muitas vezes desproporcional às atividades do dia a dia. Não é preguiça, não é frescura, é fisiopatologia’’, completa a Dra. Berta.

E não é só uma questão de estrogênio: ‘’Além disso, no climatério são comuns alterações do sono, maior resistência à insulina e perda de massa muscular. A combinação desses fatores leva a uma sensação de cansaço persistente, muitas vezes desproporcional às atividades do dia’’, acrescenta a Dra. Maysa Penteado, especialista em emagrecimento, vitalidade e em saúde hormonal.

Além da falta de estradiol, também vale investigar outras possíveis causas fisiológicas da fadiga: desde deficiências nutricionais, como baixos níveis de ferro ou vitamina B12, até alterações na produção de energia mitocondrial, processos de inflamação crônica e estresse oxidativo. Cada um desses elementos precisa também ser cuidadosamente avaliado.

Fora a reposição hormonal com estradiol, um dos suplementos bem indicados para a fadiga é a Coenzima Q10.  Produzida naturalmente pelo organismo, ela participa do processo de geração de energia dentro das células. Com o avanço da idade, no entanto, essa produção diminui gradualmente, tornando-se ainda mais limitada após a menopausa. Esse declínio ajuda a explicar sintomas comuns relatados por muitas mulheres, como cansaço frequente, recuperação física mais lenta e sensação de queda de vitalidade.

Outro ponto relevante é o papel antioxidante da coenzima Q10. Durante o envelhecimento, o organismo passa a lidar com um aumento do estresse oxidativo, processo associado à inflamação e ao desenvolvimento de doenças crônicas. "A Q10 ajuda a melhorar o desempenho e tem um papel anti-inflamatório importante’’, explica o Dr. Walter Pace, titular da Academia Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, da Academia Mineira de Medicina e Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Personalizada (SBMP).

Tratamento com NAD

Ultimamente, médicos de vanguarda também vêm prescrevendo a molécula NAD (nicotinamida adenina dinucleotídeo)  para a combater o cansaço crônico do climatério.

A NAD está presente em todas as células do corpo e funciona como um verdadeiro “motor metabólico”, participando diretamente da produção de energia, do reparo do DNA e da regulação de processos ligados à longevidade. Sem NAD, a célula não consegue produzir ATP de forma eficiente - e, sem energia, não há função adequada, muito menos saúde. ‘’Com o passar dos anos, os níveis de NAD caem progressivamente. Esse declínio está associado à fadiga, perda de massa muscular, piora cognitiva e aumento do risco de doenças metabólicas. Não por acaso, muitos pesquisadores hoje consideram a queda da NAD uma das marcas biológicas do envelhecimento’’, afirma o Dr. José Bento, ginecologista.

‘’Além disso, a NAD ativa enzimas chamadas sirtuínas, que estão diretamente ligadas à proteção celular, melhora da função mitocondrial e controle da inflamação. É por isso que ele se tornou um dos principais alvos da medicina da longevidade’’, completa o Dr. Bento.

Mas é importante esclarecer um ponto: aumentar NAD, através de suplementação, não é mágica. ‘’Estratégias como exercício físico, sono adequado, controle da resistência à insulina e até o uso de precursores da NAD como NMN ou NR podem ajudar — mas o efeito depende do ‘terreno biológico’ do paciente’’, finaliza o ginecologista. Em outras palavras: não adianta aumentar o combustível se o motor não  está preparado para funcionar.

Mas o tratamento com NAD está longe de ser uma unanimidade entre os médicos. ‘’Se a paciente quiser usar NAD, a via mais recomendada é a oral. Há alguns estudos, mas super controversos, e qual é o problema disso? Exaustão e cansaço são sintomas muito subjetivos, difíceis de avaliar. Nos estudos com esta molécula, o percentual de pessoas do grupo placebo que melhora é enorme, comparável à melhora com o grupo que recebeu o suplemento de NAD.  Então, na prática, os estudos com NAD são muito limitados. Para mim, trata-se de um apelo que talvez tenha um efeito muito mais psicológico do que efetivo’’, pontua Igor Padovesi, ginecologista.

*Vanessa Kopersz é jornalista. 

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