A desinformação sobre o TDAH gera consequências graves e o Brasil enfrenta dificuldades em reconhecer o TDAH como o problema de saúde pública que é
Lara d'Almeida* Publicado em 13/07/2026, às 06h00

O Reino Unido iniciou um debate nacional sobre o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), questionando a possibilidade de superdiagnóstico, o que levou o governo a anunciar uma revisão sobre diagnósticos em saúde mental. A discussão ocorre em um contexto onde a comunidade científica defende que o problema real é o subdiagnóstico do transtorno.
Estudos indicam que a prevalência do TDAH entre crianças é subestimada, com taxas de diagnóstico abaixo do esperado, enquanto no Brasil, a dificuldade de reconhecimento do transtorno no sistema de saúde persiste, resultando em consequências sociais e econômicas significativas, como evasão escolar e desemprego.
Embora o cenário comece a mudar com o aumento do acesso à informação, a falta de avaliação clínica qualificada ainda gera distorções no diagnóstico. A necessidade de políticas públicas eficazes e de formação adequada para profissionais de saúde é crucial para garantir que o TDAH seja tratado como uma questão de saúde pública relevante.
Há poucas semanas, o Reino Unido transformou o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade/ Impulsividade (TDAH) em debate político nacional. Parlamentares, setores da imprensa e parte da sociedade levantaram a hipótese de que o transtorno estaria sendo superdiagnosticado, associando esse aumento ao modismo, medicalização excessiva e banalização do sofrimento psíquico. O governo britânico anunciou uma revisão sobre possíveis excessos diagnósticos em saúde mental e TDAH.
A discussão ganhou força justamente em um dos países com maior tradição em saúde pública e medicina baseada em evidências. Ainda assim, a reação da comunidade científica foi rápida. No editorial “Overdiagnosis of ADHD? Here we go again”, publicado no periódico Child and Adolescent Mental Health, a pesquisadora Anita Thapar, uma das principais referências na área, classificou o debate como mal fundamentado. O texto cita um relatório independente do National Health Service (NHS), segundo o qual as taxas de diagnóstico permanecem abaixo da prevalência estimada do transtorno na população. Em outras palavras: no Reino Unido, o principal problema ainda não é o excesso de diagnósticos, mas o subdiagnóstico.
Enquanto os britânicos discutem hoje a possibilidade de exagero diagnóstico, o Brasil ainda enfrenta uma questão básica: a dificuldade de reconhecer o TDAH dentro do próprio sistema de saúde. Foi isso que percebi há mais de uma década, ao ingressar no Sistema Único de Saúde.
Na prática clínica, escutava repetidamente frases como “as escolas encaminham demais”, “as crianças estão sendo medicalizadas em excesso” ou “os pais não sabem impor limites”. O sofrimento psíquico era frequentemente interpretado como falha familiar, dificuldade educacional ou consequência social. O diagnóstico de TDAH raramente entrava na discussão.
O adulto com TDAH praticamente não existia como hipótese clínica. Atendi inúmeras pessoas com anos de prejuízos acadêmicos, profissionais e emocionais sem que ninguém tivesse sequer considerado investigar o transtorno. A possibilidade simplesmente não fazia parte do raciocínio clínico de muitos serviços.
Esse foi meu primeiro grande questionamento: como um transtorno neurobiológico com prevalência global estimada entre 5% e 7% da população infantil, sustentado por décadas de revisões sistemáticas, meta análises e ensaios clínicos randomizados, ainda podia ser tratado como inexistente?
Parte da resposta estava na própria formação dos profissionais responsáveis pelo diagnóstico. Muitos concluíam a graduação sem preparo sólido sobre TDAH. Gestores de saúde jamais trataram o tema como prioridade. E um sistema inteiro, ao negligenciar o transtorno, empurrou milhares de pessoas para trajetórias de sofrimento evitável: evasão escolar, desemprego, relações interpessoais instáveis, uso problemático de substâncias e internações que poderiam ter sido prevenidas.
O custo dessa negligência é mensurável. Uma revisão sistemática sobre o impacto econômico global do TDAH estimou gastos anuais de até 266 bilhões de dólares apenas nos Estados Unidos, considerando despesas com saúde, educação, previdência e perda de produtividade. Entre adultos, o excesso de custo anual ultrapassa 122 bilhões. Diagnosticar precocemente custa menos. Tratar custa menos. Capacitar profissionais custa menos. Mas pouco mudará enquanto o TDAH continuar sendo tratado como um tema periférico, e não como uma questão de saúde pública.
Nos últimos anos, parte desse cenário começou a mudar. As redes sociais ampliaram o acesso à informação, e muitos adultos passaram, pela primeira vez, a reconhecer em si dificuldades que haviam atravessado décadas sem nome. Mas essa transformação também trouxe um novo desafio.
Cada vez mais pessoas chegam aos consultórios já convencidas de que possuem o diagnóstico.
E esse foi meu segundo questionamento: estamos finalmente corrigindo uma invisibilidade histórica ou criando uma distorção?
O problema não está no acesso à informação, mas na ausência de avaliação clínica qualificada acompanhando esse acesso. O TDAH possui diagnósticos diferenciais, comorbidades frequentes e critérios específicos que exigem investigação cuidadosa. Informação isolada não equivale a diagnóstico.
Depois de anos atendendo pacientes e defendendo o reconhecimento do TDAH, ficou evidente para mim que a desinformação sobre o transtorno produz consequências concretas. Ela aparece na formação insuficiente dos profissionais, nos serviços que falham em identificar sinais importantes e nas políticas públicas que ainda tratam o tema como secundário. Hoje, o TDAH já possui ampla sustentação científica como um transtorno do neurodesenvolvimento prevalente, tratável e associado a prejuízos relevantes quando não reconhecido precocemente.
Enquanto o debate público continuar oscilando entre a negação do transtorno e sua banalização, milhares de pessoas permanecerão sem acesso ao que realmente importa: avaliação qualificada, tratamento adequado e políticas públicas compatíveis com a dimensão do problema.
* Dra. Lara d’Almeida é Psicóloga, mestre em Psicologia Clínica e doutora em Distúrbios do Desenvolvimento. Atua há mais de 15 anos na área da saúde mental, com foco em TDAH, regulação emocional e transtornos do neurodesenvolvimento. Possui experiência na clínica, no serviço público de saúde (SUS), na rede suplementar e privada, além da formação de profissionais e da divulgação científica em saúde mental baseada em evidências. Seu trabalho se destaca pela capacidade de traduzir temas complexos do comportamento humano de forma acessível e cientificamente embasada para o público geral.
Referências
Benson V, et al. (2021). Economic burden of attention-deficit/hyperactivity disorder among adults in the United States: a societal perspective. Journal of Managed Care & Specialty Pharmacy. https://www.jmcp.org/doi/10.18553/jmcp.2021.21290
Cortese S,et al.(2026). ADHD (over) diagnosis: fiction, fashion and failure. Br J Psychiatry. doi: 10.1192/bjp.2026.10546. Epub ahead of print. PMID: 41787830.
Doshi JA, et al. (2012). Economic impact of childhood and adult attention-deficit/hyperactivity disorder in the United States. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 51(10), 990-1002. Global Economic Burden of ADHD: Systematic Review
Thapar, A. (2026). Overdiagnosis of ADHD? Here we go again. Child and Adolescent Mental Health (Wiley). https://acamh.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/camh.70075
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