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Câncer de ovário: o silêncio que custa vidas

Os sintomas vagos do câncer de ovário podem ser facilmente confundidos; saiba quando procurar ajuda médica imediatamente

Prof. Dr. José Carlos Sadalla* Publicado em 08/05/2026, às 06h00

O Brasil registra mais de 7.300 novos casos de câncer de ovário por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer. - Foto: Canva Pro
O Brasil registra mais de 7.300 novos casos de câncer de ovário por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer. - Foto: Canva Pro

O câncer de ovário, com mais de 7.300 novos casos anuais no Brasil, apresenta uma alarmante taxa de 70% de diagnósticos em estágios avançados, refletindo a falta de ferramentas eficazes de triagem para a doença.

Os sintomas iniciais são vagos e frequentemente confundidos com problemas digestivos, levando muitas mulheres a adiar a busca por atendimento médico, o que agrava a situação ao momento do diagnóstico.

A conscientização sobre os fatores de risco e a importância do acompanhamento médico regular são cruciais, pois diagnósticos precoces podem aumentar significativamente as taxas de cura e melhorar a qualidade de vida das pacientes.

Resumo gerado por IA

Toda vez que o dia 8 de maio chega, o Dia Mundial do Câncer de Ovário, sinto um peso particular. Não porque seja uma data simbólica no calendário, mas porque vejo de perto o que essa doença faz com mulheres que chegaram tarde demais.

O câncer de ovário é o tumor ginecológico com a menor taxa de sobrevida. O Brasil registra mais de 7.300 novos casos por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer. E o número que mais me incomoda não é esse — cerca de 70% das pacientes já chegam em estádios avançados da doença. Setenta por cento. Isso não é azar. 

Por que chegamos tão tarde?

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Diferente do câncer de mama, que tem a mamografia como ferramenta de rastreamento em massa, o câncer de ovário não conta com nenhum exame de triagem simples e eficaz para a população geral. Não há um teste de rotina que o ginecologista possa pedir anualmente e que sinalize o problema antes que ele se instale com força. Essa ausência tem um preço altíssimo: quando o diagnóstico finalmente acontece, as opções cirúrgicas já são mais limitadas e a letalidade, muito mais alta.

Os sintomas que as mulheres ignoram 

O que torna esse câncer tão traiçoeiro é que ele não dói de forma óbvia no começo. Os sintomas são vagos, incômodos e facilmente confundidos com questões digestivas ou intestinais do dia a dia: inchaço abdominal persistente, desconforto pélvico contínuo, perda de apetite e vontade frequente de urinar.

A maioria das mulheres toma um antiespasmódico e espera passar. Às vezes passa. Às vezes não é o intestino.

Minha orientação é direta: se esses sintomas se mantiverem por mais de duas semanas sem melhora clara, é hora de buscar o ginecologista. Não amanhã. Não quando a agenda abrir. Agora.

Quem merece atenção redobrada

Alguns fatores aumentam o risco e precisam ser discutidos abertamente nas consultas de rotina: obesidade, nunca ter engravidado e, principalmente, histórico familiar de tumores de ovário, mama ou pâncreas. Se você se encaixa em algum desses perfis, isso não significa que você vai ter a doença, mas significa que a conversa com seu médico precisa ser mais aprofundada e mais frequente.

Quando conseguimos diagnosticar o câncer de ovário nos estádios iniciais, o cenário muda completamente. As taxas de cura aumentam de forma expressiva, os tratamentos são menos agressivos e a qualidade de vida durante e após o tratamento é preservada de maneira muito mais eficaz. A medicina hoje oferece procedimentos de alta precisão — mas precisamos ter a oportunidade de usá-los no momento certo.

Essa oportunidade começa com a mulher que decide não ignorar o próprio corpo.

O acompanhamento anual, a escuta atenta dos sintomas e a relação de confiança com um especialista não são luxos. São os fatores que, na minha experiência clínica, realmente salvam vidas.

* Prof. Dr. José Carlos Sadalla é oncoginecologista e atua na Clínica Andrade & Sadalla, em São Paulo (Moema). 

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