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IA na educação: ferramenta de apoio ou risco de dependência?

A IA já é parte do cotidiano profissional, mas será que estamos usando-a da maneira certa para não perder habilidades essenciais?

Kenneth Corrêa* Publicado em 20/10/2026, às 06h00

Com a Inteligência Artificial, você está ficando preguiçoso na parte operacional do trabalho ou no que exige seu talento profissional? - Foto: Canva Pro
Com a Inteligência Artificial, você está ficando preguiçoso na parte operacional do trabalho ou no que exige seu talento profissional? - Foto: Canva Pro

A inteligência artificial (IA) já está impactando a forma como profissionais trabalham, gerando preocupações sobre a dependência e a perda de habilidades essenciais, especialmente entre os mais jovens.

Estudos indicam que a IA pode desqualificar funções ao assumir tarefas que exigem formação, enquanto outras, como a gestão imobiliária, mantêm o valor humano nas interações e decisões.

Medidas como a fiscalização nas escolas de negócios estão sendo implementadas, mas é crucial que os profissionais aprendam a usar a IA como uma ferramenta que complementa, e não substitui, suas habilidades e entendimento.

Resumo gerado por IA

A inteligência artificial já está me deixando mais preguiçoso. E a você também.

Trabalho com treinamento corporativo há 15 anos. Hoje ensino executivos C-level e desenho e entrego programas de formação de lideranças, dos conselhos de administração às equipes de gestão.

Por isso, quando me perguntam se a IA é ferramenta de apoio ou risco de dependência, respondo que a pergunta chegou atrasada. As duas coisas já acontecem na mesma sala, com a mesma ferramenta, às vezes com o mesmo aluno. O porém está em outro lugar: estamos ficando preguiçosos na parte certa do trabalho?

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Em reportagem publicada em setembro de 2026 pela Times Higher Education, o reitor do INSEAD, uma das escolas de negócios mais respeitadas do mundo, declarou morta a avaliação tradicional por estudo de caso, porque os alunos usam IA para achar as respostas. A reação de muitas escolas foi apertar a fiscalização. Na Imperial Business School, em Londres, a lógica foi resumida assim: a menos que você tranque o aluno numa sala com papel e lápis, não dá para ter certeza de quem elaborou as respostas.

Como professor, eu até entendo o reflexo, mas acho que ele responde à pergunta errada. Costumo dizer que, se ninguém vai ler, um relatório só precisa parecer um relatório. Quando a máquina produz o entregável em segundos, o valor saiu dali. Prefiro tratar a IA como dada e mudar a pergunta: o que essa pessoa faz que a máquina não faz?

Os dados mostram que essa resposta já está sendo dada, e nem sempre da melhor maneira. Em janeiro deste ano, a Anthropic, criadora do Claude, cruzou o uso real da sua IA com as tarefas de cada profissão. O efeito líquido foi desqualificar o trabalho: a máquina tende a assumir justamente as tarefas que exigem mais formação.

Um exemplo bem claro é o do agente de turismo. A IA planeja e monta os roteiros e calcula os custos da viagem. Para ele, sobram emitir o bilhete e cobrar o cliente. No mesmo estudo, o gestor imobiliário vive o contrário: a IA mantém os registros e compara os aluguéis com o mercado, e ele fica com o julgamento profissional e o contato presencial. A ferramenta é a mesma. Um ficou com o resto; o outro, com o que é dele.

Andrej Karpathy, um dos fundadores da OpenAI, tem uma frase que virou refrão nas minhas aulas: você pode terceirizar o seu pensamento, mas não o seu entendimento. Um estudo do MIT mostra o que acontece quando alguém ignora a segunda metade. O cérebro de quem escreveu uma redação com o ChatGPT mostrou menos conectividade, e 83% dessas pessoas não conseguiram citar corretamente um trecho do texto que tinham acabado de entregar. Os pesquisadores chamaram isso de dívida cognitiva. A conveniência vem na hora; a conta, depois, com juros. O texto era deles. O entendimento, não.

Nada disso é argumento para usar menos IA. Ela virou infraestrutura, como a eletricidade, e ninguém se prepara para viver sem luz. Só que aquilo que todo mundo tem não diferencia ninguém. Quando o processamento fica disponível para qualquer um, o valor migra para o que a máquina não tem: leitura de gente, relação, repertório da vida real, gosto, julgamento.

O filtro que uso com executivos é simples. Depois que a IA fez a parte dela, o que ficou com você é o que ela ainda não fez ou o que ela não tem? Bilhete e cobrança estão na fila da automação. Já o gestor imobiliário bom de relacionamento ficou com a parte que ele faz com facilidade e brilho, e que nenhum agente de IA faz por ele. Preguiça certa é entregar à máquina tudo o que ela faz, para gastar o tempo no que é seu. Preguiça errada é entregar justamente o que é seu e ficar com o resto.

A consequência mais incômoda aparece no começo da carreira. Senioridade é repertório acumulado: a mesma decisão difícil tomada muitas vezes, errada algumas, corrigida por alguém mais experiente. Se o júnior entrega exatamente essa parte à máquina no primeiro dia, o repertório não se forma.

Outro estudo da Anthropic, também de janeiro, acompanhou programadores, quase todos juniores, aprendendo uma ferramenta nova. Com IA, acertaram 50% de um teste de compreensão; sem IA, 67%. A diferença estava no jeito de usar: quem pedia explicação e perguntava "por quê" não perdeu nada. E uma pesquisa de Stanford e do MIT com mais de 5 mil participantes mostrou que os novatos com IA renderam 34% mais e absorveram as práticas dos melhores colegas. A mesma tecnologia pode acelerar a formação de um profissional ou interrompê-la. Sem que ninguém tenha decidido, a IA pode estar formando juniores que nunca vão virar seniores. E, em 2030, esse júnior vai disputar espaço com um agente de IA.

Na minha sala, a parte da IA acontece ali mesmo, em minutos. Os alunos usam a ferramenta para levantar os drivers e as tendências de um setor, com os dados mais atualizados que conseguirem, para abastecer uma análise SWOT. A ordem importa: o dado chega no começo da conversa, e não no fim, para enfeitar uma opinião que já estava pronta. O resto da aula é discussão sobre o que aquilo significa para aquela empresa, o que ninguém quer admitir e que apostas fazer.

É o que nossos antepassados faziam em volta da fogueira. A antropóloga Polly Wiessner registrou as conversas de nativos (quase) totalmente isolados na savana africana. De dia, dois terços do papo giravam em torno de questões econômicas, queixas e fofoca, e as histórias eram 6%. À noite, em volta do fogo, 81% eram histórias.

Meu trabalho não é descobrir se o aluno aprendeu. É garantir que ele saia mais útil do que um agente de IA. A máquina ficou com a conversa do dia. A noite, em volta da fogueira, continua sendo nossa.

* Kenneth Corrêa é especialista em inteligência artifical.

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