A importância da escrita como forma de processar a dor e celebrar a vida das mães que partem. É preciso falar sobre aquilo que sentimos quebrado
Monalisa Barros* Publicado em 08/09/2026, às 06h00
"Nove horas. Foi o que levei para atravessar um livro que esperou meses por mim."
Há tempos o livro Análise, de Vera Iaconelli, repousava na minha estante. Comprei-o, deixei-o descansar e, quando finalmente o abri, descobri que não se tratava de ler: tratava-se de degustar cada palavra. A orelha, assinada por Ligia Diniz, anuncia um livro costurado ao redor da reforma de uma casa. Eu li outra coisa: um livro sobre uma mãe que está morrendo. Foi a entrada no hospital, a imagem daquela mulher frágil, que fez Vera revolver todas as memórias e os processos de análise pelos quais passou. Li um livro corajoso, profundo, atravessado por uma ética da verdade que clama pela existência e autoriza a autonomia — da mãe e da autora.
Mas o que me fez engasgar? O que me prendeu àquelas páginas por nove horas seguidas, até fechá-las e precisar escrever? Encontrei pontos de convergência entre a escrita de Vera e a escrita do meu próprio livro, Minha mãe está Morrendo. E aqui preciso dizer com honestidade: não me coloco ao lado dela. Vera escreve de dentro da sua análise, como alguém que percorreu um longo caminho de auto-responsabilização. Eu escrevo de outro lugar — o de uma filha ainda em processo, que escolheu o cuidado. São caminhos diferentes, e é justamente essa diferença que me interessa.
O primeiro ponto de encontro foi o dilema da escrita não autorizada. Escrever sobre a mãe, o pai, a família — teríamos esse direito? O dilema ético se interpõe antes da primeira linha. Até percebermos que estamos falando da nossa própria história, que é diferente de qualquer outra versão que pertença aos demais atores dela. Cada um terá a sua.
O segundo foi o percurso nada linear das relações. Na família de Vera, o alcoolismo do pai, a submissão da mãe, a origem por adoção, a morte dos dois irmãos. Na minha, uma relação tensa e de difícil comunicação com a minha mãe, marcada por tentativas de reaproximação que terminavam em rompimentos e novos afastamentos. Uma impossibilidade de conversas pacíficas que só a proximidade da morte permitiu atravessar.
Vera mergulhou para reviver os próprios vínculos. Eu assisti a minha mãe revisitar os dela, e precisei recolher minhas próprias versões e vivências, em função da escolha que fiz: ofertar o cuidado. Vera optou pelo afastamento. Não há aqui nenhum julgamento, nenhuma pretensão de apontar a posição correta ou errada. As coisas são o que são.
Frente ao quadro clínico da minha mãe e à nossa relação errática, encontrei em Tudo sobre o Amor, de bell hooks, uma definição que me coube bem — o conceito de amor cunhado por Erich Fromm: "O amor é a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa. Amar é um ato de vontade — tanto uma intenção quanto uma ação. A vontade implica uma escolha. Nós não temos que amar. Escolhemos amar."
Eu fiz essa escolha. E é aqui que a narrativa de Vera se distancia da minha. Ela traz o fio da própria análise para percorrer o caminho de descobrir quem é, para encontrar a auto-responsabilização pelos seus atos e saber em nome de quê eles aconteceram — como convém a uma pessoa analisada. Eu, ainda em processo de análise e sem a intenção de me tornar analista, resolvi viver esse tempo em suspensão de armas, para desfrutar do cuidado possível com ela e comigo. Talvez para me manter ativa, cuidando para não invadir, nem provocar mais dores adicionais ao processo.
Enquanto Vera reconhece a mãe que desabrocha após a morte do pai, eu encontrei a mãe que um dia, na infância, me provocou tanta admiração por sua coragem, seu desejo de justiça, seu poder. Ao longo dos anos, essas características não se mantiveram coerentes com seus atos, e isso me gerou muito dissabor e decepção. O espelho quebrado.
Mas, na proximidade da morte, aquela mulher voltou com força. Em diversos momentos, reencontrei a mulher que um dia me serviu de espelho: na escolha de falar abertamente sobre a morte, na decisão de comunicar às pessoas pessoalmente o que se passava, na opção de como morrer — em casa, se possível, sem reanimação e sem intubação. Paradoxalmente, também vi a mulher frágil, infantil, medrosa, que não resistiu à chegada da morte: ao contrário, a acolheu.
Acompanhar isso me ensinou a viver. E me devolveu a frase de Marguerite Duras, citada por Vera: "Só a escrita é mais forte do que a mãe." Talvez por isso tantas pessoas escrevam. Talvez escrevamos para testemunhar as nossas mães caminhando em direção aos seus próprios desejos — e, no mesmo gesto, para que os nossos também encontrem o caminho.
*Monalisa Nascimento dos Santos Barros é psicóloga, Professora Titular dos cursos de Medicina e de Psicologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e Docente do corpo permanente dos programas de Mestrado Profissional de Psicologia da Saúde IMS CAT/UFBA e de Saúde da Família FIOCRUZ/UFBA. Também é mestre pela University of Exeter, doutora em Estudos da Subjetividade pela Universidade Federal Fluminense e realizou pós-doutorado em Saúde Mental Perinatal pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra em Portugal.
Monalisa também é autora dos livros "Corpos, Vínculos e Narrativas” e "Minha mãe está morrendo".
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