Descubra como a automedicação pode mascarar problemas graves.
Yuri Castro* Publicado em 09/06/2026, às 06h00
Quem nunca abriu a gaveta de casa em busca de um comprimido para aliviar uma dor de cabeça, uma azia ou aquele mal-estar que apareceu de repente? A cena é tão comum que quase não paramos para pensar nela. A automedicação virou parte da rotina de muitos brasileiros e, para muita gente, representa praticidade, economia de tempo e uma solução rápida para problemas aparentemente simples.
Mas existe um lado dessa história que poucos enxergam. Como médico que atua diariamente em serviços de urgência e emergência, vejo com frequência pacientes que chegam ao pronto-socorro enfrentando complicações provocadas justamente pela tentativa de resolver um problema sozinhos.
O primeiro risco está em algo que parece positivo: o alívio dos sintomas. Quando uma dor desaparece após tomar um medicamento, é natural acreditar que o problema foi resolvido. Nem sempre é assim. Em muitos casos, o remédio apenas mascara sinais importantes que o corpo está tentando mostrar. Uma dor abdominal persistente, por exemplo, pode ser temporariamente controlada por analgésicos enquanto uma condição mais grave continua evoluindo sem diagnóstico. Em situações como uma apendicite aguda ou até uma perfuração intestinal, esse atraso pode transformar um problema tratável em uma verdadeira emergência médica.
Outro perigo frequente é a intoxicação medicamentosa. A diferença entre o remédio e o veneno, muitas vezes, está na dose. Muitas pessoas desconhecem que medicamentos diferentes podem conter os mesmos princípios ativos. Ao combinar dois produtos para gripe, por exemplo, o paciente pode estar consumindo doses duplicadas de paracetamol sem perceber, sobrecarregando o fígado e aumentando o risco de lesões graves e até insuficiência hepática aguda. Além disso, reações alérgicas severas, incluindo choque anafilático, podem ocorrer mesmo com substâncias consideradas comuns e amplamente utilizadas.
As interações medicamentosas também merecem atenção. Pacientes que utilizam remédios para hipertensão, diabetes, doenças cardíacas ou anticoagulantes estão particularmente vulneráveis. A introdução de um medicamento aparentemente simples, como um anti-inflamatório para aliviar uma dor muscular, pode reduzir a eficácia de tratamentos em andamento ou desencadear complicações sérias, incluindo hemorragias digestivas e alterações importantes da pressão arterial. O organismo funciona em equilíbrio, e a combinação inadequada de medicamentos pode romper esse sistema.
Há ainda uma preocupação que ultrapassa o indivíduo e afeta toda a sociedade: o uso inadequado de antibióticos. Muitas pessoas recorrem a esses medicamentos para tratar gripes e resfriados, que são causados por vírus e não respondem aos antibióticos. Essa prática favorece o surgimento de bactérias cada vez mais resistentes, tornando os tratamentos menos eficazes quando realmente são necessários. A resistência bacteriana é considerada hoje uma das maiores ameaças à saúde pública global.
Diante de qualquer sintoma novo, persistente ou que gere preocupação, a recomendação é buscar orientação de um profissional de saúde. Médicos e farmacêuticos são os profissionais capacitados para avaliar a necessidade de medicamentos, orientar sobre doses corretas e identificar possíveis riscos de interações ou efeitos adversos. Em vez de recorrer a receitas compartilhadas por conhecidos ou informações encontradas sem critério, vale a pena investir em uma avaliação adequada, capaz de evitar complicações e garantir um tratamento seguro.
Os prontos-socorros estão preparados para atender a população quando necessário, mas grande parte dessas ocorrências poderia ser evitada com orientação adequada. Procurar um médico ou farmacêutico diante de sintomas novos ou persistentes continua sendo a atitude mais segura.
Vivemos em uma cultura que valoriza a praticidade e a rapidez. Diante da correria do dia a dia, é compreensível que muitas pessoas tentem resolver pequenos desconfortos por conta própria. O problema é quando esse comportamento se torna automático e substitui a busca por orientação profissional.
A automedicação foi normalizada ao longo das décadas no Brasil. Receitas compartilhadas entre familiares, indicações de amigos e a confiança excessiva em medicamentos de venda livre fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas. No entanto, o fato de uma prática ser comum não a torna segura. Quando o assunto é saúde, informação de qualidade e acompanhamento profissional continuam sendo as ferramentas mais eficazes para prevenir complicações.
Antes de recorrer à farmacinha de casa, vale uma reflexão: estamos realmente tratando um problema ou apenas silenciando um sinal de alerta do nosso corpo? Em muitos casos, essa diferença pode determinar não apenas a rapidez da recuperação, mas também a preservação da própria vida.
*Dr. Yuri Castro é médico emergencista
*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres
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