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Antibiótico em doses baixas pode tratar Síndrome do Pânico, aponta estudo brasileiro

Estudo preliminar apoiado pela FAPESP mostrou que a minociclina, em doses menores, tem ação anti-inflamatória nas micróglias

Vanessa Kopersz* Publicado em 25/05/2026, às 06h00

O efeito anti-inflamatório a minociclina pode reduzir crises de pânico em humanos. - foto: pexels
O efeito anti-inflamatório a minociclina pode reduzir crises de pânico em humanos. - foto: pexels

Um estudo brasileiro revela que a minociclina, um antibiótico, pode ser eficaz no tratamento da síndrome do pânico, apresentando efeitos semelhantes ao clonazepam, mas com doses menores que minimizam o risco de resistência bacteriana.

Os experimentos, realizados em camundongos e humanos, mostraram que a minociclina reduz a intensidade das crises de pânico, possivelmente devido ao seu efeito anti-inflamatório nas células nervosas, que pode ser mais relevante para pacientes com inflamação exacerbada.

Embora a minociclina já seja um medicamento seguro, novos estudos clínicos são necessários para determinar a dosagem ideal e os efeitos colaterais, abrindo possibilidades para o reposicionamento de fármacos e novas abordagens no tratamento de transtornos psiquiátricos relacionados à inflamação.

Resumo gerado por IA

Quem diria que um antibiótico poderia tratar um transtorno mental tão delicado quanto a síndrome do pânico? Um estudo apoiado pela FAPESP mostra que pequenas doses da minociclina podem ajudar a amenizar o distúrbio psiquiátrico. Os experimentos preliminares  em camundongos, realizados na Universidade Estadual Paulista (Unesp), e em humanos, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostraram que a minociclina tem efeito similar ao do clonazepam -ou o famoso Rivotril- remédio amplamente utilizado para controlar as crises da doença.

O trabalho dos cientistas brasileiros foi publicado na revista Translational Psychiatry. As doses de antibiótico necessárias para tratar os ataques de pânico no estudo foram menores do que as usadas para tratar infecções por bactérias, o que reduz as chances de desenvolvimento de resistência bacteriana.

“No nosso modelo experimental, que usa a inalação de dióxido de carbono [CO2] para induzir um ataque de pânico, os camundongos tratados com minociclina por 14 dias antes do experimento reduziram uma das respostas panicogênicas. Em humanos, o tratamento reduziu a intensidade das crises de pânico provocadas pela inalação de CO2”, conta Beatriz de Oliveira, primeira autora do estudo, realizado durante a iniciação científica com bolsa da FAPESP na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, em Jaboticabal.

O estudo integra o projeto “Fisiopatologia da sensibilidade ao CO2: papel do locus coeruleus”, apoiado pela FAPESP e coordenado por Luciane Gargaglioni, professora da FCAV-Unesp.

“É sabido que algumas condições psiquiátricas são resultantes da inflamação de células nervosas. Como a minociclina, em baixas doses, tem efeito anti-inflamatório e não necessariamente antibiótico, a melhora nos sintomas provavelmente se dá por meio da redução dessa inflamação. É uma via diferente da usada pelo clonazepam que atua inibindo receptores específicos no cérebro,” explica Gargaglioni.

Ainda que no tratamento com antibiótico algumas respostas não sejam como as do clonazepam, usado como controle no estudo com humanos, a minociclina pode ser uma alternativa para pacientes que não respondem ao medicamento psiquiátrico, que são cerca de 50% do total.

“Esses indivíduos apresentam um componente inflamatório maior que indivíduos saudáveis. Nós averiguamos isso em modelo animal, com camundongos. Quando a gente coloca  esses animais para respirar um ar com uma alta concentração de CO2, isso ativa as células do sistema nervoso, que são chamadas de micróglia, e essas células liberam substâncias inflamatórias, então esses indivíduos apresentam uma resposta inflamatória mais exacerbada. Então, se o indivíduo que tem a síndrome do pânico, potencialmente está com um quadro de neuroinflamação, um aumento da resposta inflamatória no sistema nervoso,” explica Gargaglioni.

Uma vez que a minociclina já é utilizada para outro fim e, portanto, segura para humanos, os estudos clínicos poderiam avançar diretamente para a fase 2, com o aumento do número de pacientes, testes de diferentes doses e avaliação de possíveis efeitos colaterais, entre outros levantamentos feitos nesse tipo de estudo.

A pesquisa abre caminho, ainda, para a busca por outras drogas com ação anti-inflamatória nas micróglias que poderiam ter efeito semelhante ou ainda mais satisfatório do que a minociclina no tratamento do transtorno do pânico.

Os pesquisadores observaram, no sangue dos pacientes analisados, que aqueles que tomaram minociclina tiveram os níveis de citocinas pró-inflamatórias reduzidos.

Foram analisados 49 pacientes diagnosticados com transtorno do pânico. Eles inalaram ar enriquecido com 35% de dióxido de carbono no início do estudo e depois de sete dias tomando clonazepam ou minociclina. Nas duas ocasiões, os sintomas de ansiedade foram medidos por psiquiatras treinados, utilizando métodos adotados nesse tipo de estudo.

“Tanto essa concentração de CO2 quanto a usada nos camundongos, de 20%, não são encontradas na natureza. No entanto, o excesso de dióxido de carbono provoca a mesma sensação de sufocamento que o ataque de pânico. Uma vez que é uma sensação muito desagradável, o grupo-controle foi o que tomou clonazepam. Não seria ético ter um grupo que tomou placebo nesse caso,” diz Gargaglioni.

No entanto, após o tratamento com minociclina, foram observadas alterações comportamentais significativas nos animais, com redução dos saltos, uma das respostas após serem induzidos ao ataque de pânico via enriquecimento do ar com 20% de CO2.

A adoção da minociclina para tratar a síndrome do pânico depende de novos estudos. O atual, porém, abre horizonte para uma nova forma de debelar essa e outras condições psiquiátricas que possam estar relacionadas ao aumento da inflamação em células nervosas.

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Entrevistamos o Dr. Rodolfo Damiano, psiquiatra e doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), pós-doutorando em Psiquiatria pela USP, em parceria com Yale University e Ohio State University (EUA) e professor do programa de pós-graduação do Instituto de Psiquiatria da USP, para saber das aplicações práticas desse experimento em um futuro:

Quais as chances da minociclina tratar a síndrome do pânico depois desse estudo?

As chances existem, e o estudo é animador, mas ainda estamos longe de dizer que isso já virou tratamento. O principal mérito dessa pesquisa é mostrar que existe um caminho promissor: a minociclina pareceu reduzir respostas de pânico e também atuar sobre mecanismos inflamatórios envolvidos nesse processo. Mas um estudo assim ainda é inicial. Ele serve muito mais para abrir uma nova linha de pesquisa do que para mudar a prática clínica agora. Então, hoje, o mais correto é dizer que a minociclina é uma hipótese promissora, mas ainda precisa ser testada em estudos maiores antes de poder ser recomendada.

Isso pode realmente ser viabilizado?

Pode sim, porque a minociclina tem algumas vantagens importantes: é um remédio antigo, relativamente barato, disponível no Brasil e já bastante conhecido pelos médicos. Isso facilita muito o chamado reposicionamento de fármacos, que é quando se tenta usar uma medicação já existente para uma nova finalidade. Ao mesmo tempo, isso não significa que ela possa ser incorporada rapidamente sem cuidado. É preciso entender melhor quais pacientes poderiam se beneficiar, qual seria a dose ideal, por quanto tempo usar e quais seriam os riscos. Então, é uma possibilidade real, mas que ainda depende de confirmação científica.

Qual o papel da inflamação cerebral nas doenças psiquiátricas?

Hoje a gente sabe que cérebro e sistema imunológico se comunicam o tempo todo. Os processos inflamatórios leves e crônicos podem influenciar áreas do cérebro ligadas ao humor, à ansiedade, ao sono e ao pensamento. Isso não quer dizer que toda doença psiquiátrica seja causada por inflamação, porque esses transtornos são complexos e têm várias causas. Mas a inflamação é uma peça importante nesse quebra-cabeça. Esse é um dos campos mais interessantes da psiquiatria atual, justamente porque pode ajudar a explicar por que algumas pessoas adoecem de maneiras diferentes e respondem de forma diferente aos tratamentos.

A minociclina também poderia ser usada para depressão ou ansiedade, por exemplo?

Talvez, mas isso ainda não está definido. Na depressão, já existem estudos mostrando resultados promissores, principalmente em pacientes com quadros mais resistentes e com sinais de inflamação no organismo. Mas os resultados ainda são mistos, então não dá para dizer que funciona de forma ampla. Na ansiedade, as evidências ainda são mais limitadas, e por isso esse estudo sobre pânico chama tanto a atenção. A mensagem mais equilibrada para o público é: a minociclina não é hoje um tratamento padrão em psiquiatria, mas é uma linha de pesquisa séria e interessante, que pode ampliar as opções terapêuticas no futuro.

*Vanessa Kopersz é jornalista.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres.