Descubra como a experiência de vida molda a decisão sobre o intervalo entre cada filho e a construção da família
Monalisa Nascimento dos Santos Barros* Publicado em 15/06/2026, às 06h00
Sempre me perguntam qual é o intervalo ideal entre um filho e outro. Como se o amor pudesse ser medido em meses. Como se o desejo de ser mãe obedecesse a uma régua. Sorrio — esse sorriso de quem já entendeu que o tempo da maternidade não se agenda. Ele se vive.
A minha história com o tempo começou cedo. E começou pelo avesso.
1982. Primeira gestação, primeiro amor interrompido. Um bebê que nasceu antes da hora e partiu antes que eu pudesse segurá-lo. 1983. Outra gestação, outra esperança, outro silêncio. Dois filhos que não tiveram nome, não tiveram velório, não tiveram despedida. Aos dezessete anos, inaugurei a maternidade pela porta da perda — e ninguém me ensinou que aquilo também era ser mãe.
Mas a vida, quando quer, insiste.
Em 1985, Leonardo chegou. O primeiro que ficou. O primeiro que chorou e foi ouvido. O primeiro que coube nos meus braços e neles permaneceu. Eu tinha vinte anos e um medo imenso de que a felicidade também fosse embora. Mas Leonardo ficou. E me ensinou que era possível recomeçar.
Nove anos depois, Júlia veio. Nove anos — tempo suficiente para que eu já não fosse a mesma mulher. Já era psicóloga, já entendia que aquelas perdas iniciais não tinham sido fracasso, mas luto. E luto, quando nomeado, transforma-se em força. Júlia me encontrou madura, inteira, pronta para cada fase, cada descoberta, cada noite em claro. O intervalo que a vida me impôs me deu um presente inesperado: presença absoluta.
Mais onze anos. Pedro chegou. Onze anos depois da irmã, vinte anos depois da primeira gestação. Quando Pedro nasceu, Leonardo já era um homem, Júlia uma mocinha. E eu, uma mulher que já sabia que o amor de mãe não se divide — ele se multiplica, encontra espaço onde antes parecia não haver.
Dizem por aí que irmãos com grande diferença de idade não criam laços. Bobagem. É só olhar para os meus filhos hoje: Júlia é madrinha de Marcelo e de Malu, filhos de Leonardo. Pedro é padrinho de Felipe e de Malu, também filhos de Leonardo. A distância no calendário não impediu que eles construíssem pontes — pelo contrário, deu-lhes tempo para saber exatamente que tipo de ponte queriam construir.
E então vieram os netos. Ah, os netos. Com eles descobri um amor diferente — um amor sem compromisso, sem planilha, sem a aflição de educar ou corrigir. Um amor livre, que simplesmente se derrama. Para vivê-lo, bastou estar disponível. Bastou estar aberta. Bastou ter sobrevivido ao que veio antes para merecer o que veio depois.
Hoje, quando alguém me pergunta sobre o intervalo ideal entre os filhos, não ofereço números. Ofereço a minha história. Porque o intervalo não se decide apenas com o corpo ou com o bolso — ele se decide com a alma, com as marcas que carregamos, com o luto que ainda dói e com a esperança que ainda ousa brotar. A pergunta certa nunca foi quando. Foi sempre como: como construir uma família que caiba dentro de tudo o que já vivemos e de tudo o que ainda sonhamos viver.
Para casais que desejam ter mais de um filho — perguntas para uma conversa de coração aberto:
* Monalisa Nascimento dos Santos Barros é psicóloga, Professora Titular dos cursos de Medicina e de Psicologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e Docente do corpo permanente dos programas de Mestrado Profissional de Psicologia da Saúde IMS CAT/UFBA e de Saúde da Família FIOCRUZ/UFBA.
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