Encontrei a mãe biológica da minha filha

Parte 1: Um relato mais que emocionante do colunista Antoune Nakkhle sobre o primeiro encontro de sua filha Gabi com a mãe biológica dela

Antoune Nakkhle* Publicado em 10/01/2024, às 06h00

Antoune e a filha Gabi - foto: arquivo pessoal

Primeira parte

 

Estávamos terminando de almoçar quando Gabi, aos 15 anos, olha para mim e pergunta com firmeza:

— Pai, você sabe o nome da minha mãe biológica?

Estremeci. Respirei fundo e olhei para minha companheira, que aproveitou para resolver alguma coisa lá para dentro e saiu de perto.

O maior fantasma que reconheço, quando converso com pais adotivos ou adotantes, ou com qualquer amigo que nunca adotou, é: e se sua filha quiser conhecer a mãe biológica? 

Ao ouvir esses questionamentos aparentemente tão naturais, o tal fantasma tomava conta de mim. Afinal, tudo o que ouvimos no Fórum e assistimos nos filmes é que a pessoa que entrega seu filho pode aparecer um dia do nada querendo seu direito de mãe ou, pior, querendo tirar proveito da situação. Geralmente as pessoas pensam numa mãe fria, desnaturada, interesseira, que é pobre e que vai querer dinheiro. Por aí cresce o fantasma. Fantasmas não existem. O que existe no que acabo de afirmar é apenas uma coisa: preconceito.

— É legítimo que alguém queira conhecer sua história — eu dizia para meus amigos mais próximos que questionavam: 

Mas como? É perigoso! E se a pessoa for um "mau elemento", já pensou como ficará a cabeça da criança? Cuidado, você pode estar apresentando o inferno para sua filha! Essa ideia de levar a criança para conhecer a família biológica é muito bonita, mas só nos filmes. 

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Pense agora se fosse com você. Feche os olhos por 10 segundos e coloque-se no lugar de uma pessoa vinda por adoção. Pense na curiosidade que ela tem de saber de onde veio, ou de ouvir de quem lhe deu à luz o que a levou a abrir mão dela e tirá-la de sua vida. Por que será que minha mãe me deu? Será que a gente se parece? Minha mãe biológica não gostava de mim? Eu tenho  irmãos? Mais velhos ou mais novos? E meu pai biológico, quem é?  Será que tenho uma irmã gêmea? Afinal, por que ela não me quis? A culpa é minha? Com quem eu me pareço?

Minha filha sempre soube que veio por adoção; desde muito pequena ensinamos para Gabriela que sua mãe biológica a entregou para adoção por amor a ela. Sempre tivemos essa certeza. Soube também que foi muito aguardada por nós, que a desejamos muito, antes mesmo dela ser gerada e de sabermos que ela seria a nossa filha. 

Acho que estou dando essa volta toda porque para mim também não é simples entrar em contato com este fato, num dos momentos mais fortes da minha vida. 

 

A saga

 

A curiosidade vinha de longe. Aos cinco anos, Gabi disse que queria conhecer a mãe da barriga. Aos 15 anos, fez a pergunta que deu início a este texto. E não parou mais. Eu me senti na obrigação de parar para pensar profundamente neste assunto. Voltei para a terapia. Uma nova e profunda análise. Será que estava na hora de procurar esta moça que deu luz à minha filha? Quem poderia ter esta resposta?

Será que eu estava pronto emocionalmente para reencontrar a mãe biológica da Gabi, que a entregou para mim 28 horas após seu nascimento quando eu e minha esposa já estávamos na fila da adoção pelo Fórum? Eu estava fugindo do principal. A questão era: minha filha quer conhecer suas origens. Será que Gabi estava pronta para um encontro tão forte como esse? 

Minha saga só estava começando e eu não havia me dado conta. Foram três anos até reencontrar Roberta (nome fictício da mãe biológica da Gabi). Corri muitos riscos. Arrisco dizer que algumas vezes senti como se eu estivesse colocando a mão na lama de uma areia movediça sem saber se conseguiria retirá-la.

Quando adotamos Gabi pelo Fórum tive a sorte de ter ficado com o nome completo, R.G. e data de nascimento da mãe biológica. Na verdade, era o que eu pensava. Os dados estavam incompletos ou com pequenas trocas de números e, por isso, levei tanto tempo para reencontrar Roberta.

Quando me dei conta, eu praticamente tinha me tornado um detetive amador e procurava outros investigadores/detetives profissionais em busca de ajuda. Não adiantava. Na hora em que a procura se aprofundava, eu encontrava um muro muito alto diante de mim e nada do endereço ou telefone dela. O muro crescia a cada dia. Todos eram contra minha busca, até mesmo os investigadores. Às vezes eu olhava para cima e tinha a sensação de que esse muro estava chegando no céu.

Até que um primo de uma grande amiga estendeu a mão para mim. Acionou seus contatos e assim a encontrei após seis meses de buscas. Quando ele conseguiu autorização dela para eu ligar e me passou o celular dela, pensei: E agora?! Agora liga, não era isso que você queria? Vá em frente. Com medo mesmo.

 

A conversa

 

Nosso primeiro contato telefônico foi forte para nós dois:

— Alô, Roberta?

— Oi, tudo bem com o senhor? 

— Tudo bem com você? Quanto tempo...

— Pois é, achei que nunca mais íamos nos falar, lembra… da última vez o senhor disse que provavelmente nunca mais nos veríamos?

— Lembro, sim. Mas minha filha quer conhecer você.

— Como está sua menina?

— Minha filha está muito bem, felizmente. Com saúde, estudando, tudo certo. 

— Que bom que ela está bem e feliz. Sempre rezei pela felicidade dela. Para que tivesse bons pais. Que não sofresse racismo só por ser uma mulher preta. Não tem problema, eu posso conhecê-la. Mas o que vou falar? É uma situação muito difícil. Não quero que ela saiba detalhes da minha história nem da minha família.

— Diga o que seu coração mandar, Roberta. Eu não tenho como sugerir nada. Precisa ser de verdade. Apenas lhe peço: fale com o seu coração.

Silêncio. Acho que nos emocionamos ao mesmo tempo.

— Você sabe o que uma pessoa que foi entregue para adoção pensa sobre isso? Você é adotada, Roberta?

— Não sei o que uma pessoa que foi abandonada pela mãe pensa e também não sou adotada, sou filha dos meus pais mesmo. Por que?

— Você pode se encontrar comigo pessoalmente?

— Posso, sim. 

— Ok. Posso ir até você?

— Pode, sim.

— Até lá.

 

O dia em que reencontrei a mãe biológica da minha filha, 18 anos depois 

 

No dia em que fui até ela eu estava muito ansioso, apesar de saber que estava fazendo a coisa certa. A lanchonete onde eu a esperava guardava um clima de cenário de novela, onde os garçons atendiam os clientes, levavam os pedidos e o caixa fechava a conta. Tudo muito orgânico e natural. Eu estava lá sem nunca ter ensaiado para viver este momento. Inseguro. Meu amigo de todas as horas foi comigo e ficou sentado na mesa ao lado. Já estava emocionado por dentro e sabia que este seria um dos momentos mais fortes da minha vida até então. Eu, que choro uma vez por dia, precisei conter a emoção. O momento exigia razão e foco. Eu precisava ver e olhar novamente nos olhos dessa mulher para sentir se ela teria o equilíbrio necessário para falar com minha filha. 

Assim que ela chegou eu me levantei para cumprimentá-la. Na dúvida se nos beijávamos ou nos abraçávamos, demos as mãos. Nos olhamos com cumplicidade e respeito mútuo num rápido silêncio. Me senti agradecido por esse momento. Graças a ela eu e minha esposa pudemos ser pai e mãe da Gabriela. Isso foi tão forte que quase eu a agradeci novamente após 18 anos passados do dia em que Gabi nasceu. Sentamos e começamos a conversar. 

— Como eu disse para o senhor, no telefone, eu não sei mesmo o que dizer para a sua filha. Pode me ajudar mais uma vez?

— Vou tentar. Algumas pessoas que são adotadas pensam que a mãe biológica não gostava delas. Que a culpa por ter sido entregue é dela própria. Esse costuma ser o maior conflito de uma pessoa que foi entregue para adoção.

— Pelo amor de Deus, eu sempre quis o bem dela e por isso entreguei, do contrário, não sei como seria, talvez ela já tivesse morrido, minha vida sempre foi muito difícil, tenho uma família complicada demais, muitos erros. Ela não tem nenhuma culpa, imagine, foi uma decisão minha. Não me leve a mal, eu não vou mentir: eu nunca me arrependi do que eu fiz porque eu sabia que seria o melhor para a vida dela. E foi. E agora, sabendo que ela está bem, estudando, que vai ser gente, eu fico mais tranquila ainda. Parece que saiu um peso de preocupação dos meus ombros, obrigada por me procurar e me dar esta boa notícia. Pode acreditar, desde aquele dia em que entreguei sua filha para o senhor eu comecei a rezar e não parei mais para que eu a tivesse entregado para um casal de bem e que ela fosse amada e feliz. Ela veio por mim, não para mim. Veio para o senhor e sua esposa. 

— A resposta sobre o que dizer a ela você acabou de me falar. Não disse que bastava falar com o coração? Fique tranquila, ela está muito feliz e é muito amada por toda a família dela. Acho que será um belo encontro para todo mundo. Vai dar tudo certo, pode confiar.

O tal dia demorou para chegar.  Enquanto isso eu me fazia uma série de perguntas. Discutia sobre isso com minha analista e me sentia muito tenso e conflituado. O medo de não ser um bom momento para minha filha, de ela sair deste encontro pior do que chegou, do emocional dela se abalar e ela ficar mal, enfim: eram os monstros que todos criam quando o assunto é um filho conhecer a mãe biológica. Estavam aqui dentro numa panela de pressão. Até que um dia, sentado numa praça enquanto eu esperava o pôr do sol, percebi que o que eu mais temia neste encontro não era pela minha filha: era por mim. Eu tinha medo dos meus preconceitos. De repente me dei conta que eu só estava aproximando minha filha da mãe biológica dela e não de uma assaltante criminosa. Minha cabeça parou de rodar e comecei a encontrar meu eixo. Se desse errado eu não me perdoaria. Mas entendi que minha parte estaria feita. Agora era com elas e a sorte estava lançada.

Mas o encontro entre elas é assunto para outro dia.

Nota: Aguarde! A segunda parte desta história vai ser publicada na quarta-feira que vem, dia 17/01.

 

*Antoune Nakkhle é jornalista, assessor de comunicação e imagem e pai da Gabi, de 19 anos. Mulher preta e adotada. Um pai branco de filha preta.

paibrancofilhapreta@gmail.com

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