Saiba como diferenciar secreções normais de infecções e quais sinais indicam a necessidade de avaliação médica do corrimento em crianças
Ana Paula Fonseca* Publicado em 26/09/2026, às 06h00

A secreção vaginal em meninas, especialmente antes da menstruação, pode gerar preocupações, mas nem sempre indica infecção; é importante considerar a idade e características da secreção para determinar a necessidade de avaliação médica.
Na infância, a vulvovaginite é uma queixa comum, e a sensibilidade da região genital, aliada a hábitos de higiene inadequados, pode levar a irritações e secreções que não são necessariamente patológicas.
Orientações sobre higiene íntima, como a limpeza correta após o uso do banheiro e a evitação de produtos irritantes, são essenciais, e a busca por avaliação médica é recomendada quando há secreção persistente ou acompanhada de sintomas como dor ou odor forte.
Quando uma mãe ou responsável percebe uma secreção na calcinha de uma menina, especialmente quando ela ainda não menstruou, é natural surgir a preocupação. Afinal, corrimento em crianças é sempre sinal de infecção? Pode acontecer antes da primeira menstruação? Quando é necessário procurar um médico?
A resposta depende principalmente da idade, da fase do desenvolvimento e das características da secreção. Nem toda secreção vaginal representa uma doença. Em algumas fases da vida, ela pode fazer parte das alterações fisiológicas normais do organismo. Por outro lado, quando aparece de forma persistente ou vem acompanhada de sintomas, merece avaliação.
Na infância, a vulvovaginite, que corresponde à inflamação da vulva e da vagina, está entre as queixas ginecológicas mais frequentes. Antes da puberdade, a região genital da menina apresenta características que a tornam mais sensível a irritações. A baixa ação do estrogênio deixa os tecidos mais finos e delicados, enquanto a proximidade entre a vulva e o ânus facilita o contato com bactérias da região intestinal.
Por isso, situações bastante comuns podem provocar irritação, como o uso frequente de sabonetes e produtos perfumados, roupas muito apertadas, permanecer muito tempo com roupa de banho molhada, banho de espuma e hábitos inadequados de higiene.
Crianças podem apresentar secreção vaginal?
Sim. É importante diferenciar uma secreção fisiológica de um corrimento causado por algum problema.
Em recém-nascidas, por exemplo, pode ocorrer uma secreção vaginal temporária em razão da influência dos hormônios maternos. Mais tarde, próximo à puberdade, o aumento da atividade hormonal também pode provocar secreção vaginal antes mesmo da primeira menstruação.
O chamado corrimento fisiológico tende a ser claro ou esbranquiçado, sem odor forte e sem provocar coceira, ardência ou dor.
À medida que a menina se aproxima da puberdade, as mudanças hormonais promovem transformações na região genital e podem aumentar a produção de secreção vaginal. Isso faz parte do amadurecimento do organismo e não deve ser confundido automaticamente com uma infecção.
Nas meninas que ainda não passaram pela puberdade, a vulva e a vagina são mais suscetíveis a irritações. Além das características próprias dessa fase, os hábitos de higiene têm papel importante.
É fundamental ensinar a criança a fazer a higiene adequadamente após usar o banheiro, principalmente depois de evacuar. A limpeza deve ser feita da frente para trás, evitando levar bactérias da região anal para a vulva.
Também é recomendável evitar sabonetes íntimos, perfumes, lenços umedecidos perfumados, banho de espuma e outros produtos irritantes. A região genital externa não precisa de uma grande quantidade de produtos para permanecer limpa.
Roupas excessivamente apertadas e o uso prolongado de roupas molhadas, como biquínis e maiôs depois da piscina ou da praia, também podem favorecer irritações.
Outro ponto importante é que a higiene não deve ser exagerada. Esfregar excessivamente a região ou tentar realizar uma limpeza interna pode causar mais irritação do que benefício.
Algumas características do corrimento em crianças indicam que é importante procurar avaliação médica.
Secreção com odor forte ou desagradável, coloração amarelada ou esverdeada, presença de sangue, coceira intensa, vermelhidão, inchaço, dor, ardência ao urinar ou febre são sinais que não devem ser ignorados.
Também é importante observar a persistência. Uma secreção que permanece por vários dias, volta repetidamente ou não melhora mesmo após medidas simples de higiene merece investigação.
Nessas situações, não é recomendado iniciar medicamentos por conta própria. O tratamento depende da causa e usar uma medicação inadequada pode não resolver o problema e ainda dificultar a identificação do que está acontecendo.
Nem todo corrimento branco é candidíase
Um erro bastante comum é associar imediatamente qualquer secreção branca à candidíase.
Em meninas saudáveis que ainda não passaram pela puberdade, a candidíase vaginal é relativamente incomum. Ela pode acontecer em determinadas situações, como após o uso de antibióticos ou em crianças com condições específicas de saúde, mas não deve ser considerada automaticamente como a principal causa de um corrimento.
Por isso, principalmente na infância, é importante investigar antes de utilizar medicamentos antifúngicos.
Corrimento com mau cheiro ou sangue precisa de investigação
Quando existe uma secreção persistente, principalmente se apresentar odor desagradável ou sangue, uma das possibilidades que precisam ser consideradas é a presença de um corpo estranho na vagina.
Pequenos fragmentos de papel higiênico, por exemplo, podem permanecer na região e provocar inflamação e secreção com odor forte. Existem ainda outras possibilidades, como infecções bacterianas, parasitoses, doenças dermatológicas e outras condições ginecológicas.
Isso não significa que a presença de sangue ou odor forte represente necessariamente algo grave. Significa que esses sinais não devem ser tratados repetidamente sem que a causa seja identificada.
E na adolescência?
Depois da puberdade, o cenário muda. Com o aumento da produção dos hormônios ovarianos e o início dos ciclos menstruais, a secreção vaginal fisiológica se torna mais comum.
Ela pode variar de quantidade, aspecto e consistência ao longo do ciclo menstrual. Em geral, quando não há coceira, dor, ardência ou odor desagradável, essa secreção faz parte do funcionamento normal do organismo.
Por outro lado, quando existem sintomas associados, é necessário investigar condições como candidíase, vaginose e outras causas de vulvovaginites. Para adolescentes que já iniciaram a vida sexual, as infecções sexualmente transmissíveis também precisam ser consideradas de acordo com cada situação.
Nesse contexto, o acolhimento é fundamental. A adolescente precisa encontrar um ambiente seguro para falar sobre seus sintomas, sua menstruação e, quando for o caso, sua vida sexual, sem medo de julgamentos.
Como orientar a higiene íntima desde a infância?
Alguns cuidados simples fazem diferença no dia a dia:
Mais importante do que uma higiene excessiva é uma higiene adequada e delicada.
Também é importante que os adultos acompanhem gradualmente o desenvolvimento da autonomia da criança. Nem sempre ela consegue realizar a higiene de maneira correta sozinha, principalmente nos primeiros anos.
Quando procurar avaliação médica?
A avaliação com ginecologista pediátrica ou profissional habilitado para atender crianças e adolescentes é indicada quando o corrimento é persistente, apresenta odor forte, muda de cor, contém sangue ou está associado a coceira, dor, ardência, vermelhidão, inchaço ou febre.
Episódios recorrentes ou que não melhoram com medidas simples também merecem investigação.
O mais importante é que pais e responsáveis não tenham vergonha de conversar sobre alterações na região íntima. Para a criança ou adolescente, esse diálogo deve ser conduzido com naturalidade e acolhimento.
Secreções vaginais podem fazer parte do desenvolvimento normal, mas também podem ser um sinal de que algo precisa ser investigado. Observar as características do corrimento em crianças, perceber sintomas associados e buscar orientação quando necessário são atitudes que ajudam a cuidar da saúde ginecológica desde cedo.
* Dra. Ana Paula Fonseca é médica ginecologista e obstetra com sólida atuação em saúde de adolescentes e mulheres.
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