A leitura é mais que uma atividade pedagógica; é um gesto de vínculo que ajuda crianças a interpretar o mundo sendo leitores
Adelir Marinho* Publicado em 18/04/2026, às 06h00

A modernidade líquida, conceito de Zygmunt Bauman, traz uma sensação de instabilidade nas relações sociais e afetivas, gerando insegurança e ansiedade, apesar da promessa de liberdade e autonomia.
A leitura na infância é destacada como um meio essencial para o desenvolvimento humano, promovendo vínculos, empatia e a construção da autonomia intelectual, além de impactar positivamente habilidades como linguagem e memória ao longo da vida.
A valorização da literatura infantil deve ser um compromisso coletivo que envolve famílias, escolas e políticas públicas, garantindo acesso e práticas de leitura significativas, além de reconhecer a criança como sujeito de cultura.
Vivemos em um tempo marcado por constantes mudanças tecnológicas pela aceleração nas/das atividades cotidianas que trazem sentimentos de instabilidade, fragilidade nos vínculos afetivos e sociais. Esse fenômeno denominado como “modernidade líquida” por Zygmunt Bauman, se materializa pela transitoriedade, que afeta identidades e valores, que na contemporaneidade tornam-se flexíveis e muitas vezes descartáveis.
É um fenômeno que também destaca um paradoxo importante: embora a modernidade líquida prometa liberdade e autonomia, ela gera insegurança, ansiedade e sensação de desamparo.
E isso é um momento que levanta alerta sobre a importância da atenção e do acolhimento e provoca um olhar para o desenvolvimento humano, despertando um movimento em relação a um processo mais amplo, que mobiliza dimensões cognitivas, emocionais, sociais e simbólicas, em especial para a primeira infância.
E, do ponto de vista do desenvolvimento, a leitura é um dos instrumentos que atua como mediadora das relações.
No dia 18 de abril comemoramos o dia Nacional do Livro Infantil, ler com uma criança é mais do que uma atividade pedagógica: é um gesto de vínculo, de presença e de escuta. Ao ouvir uma história, folhear imagens ou acompanhar narrativas, a criança não apenas compreende palavras — ela interpreta o mundo.
É no encontro com o outro, seja o adulto que lê, seja o texto que interpela, que a criança amplia suas possibilidades de pensamento. A literatura infantil amplia repertórios, fortalece a imaginação e contribui para a construção da autonomia intelectual. Ao entrar em contato com diferentes personagens, contextos e conflitos, a criança exercita a empatia, elabora emoções e ensaia formas de compreender a si mesma e ao outro.
Garantir o acesso ao livro, promover práticas de leitura significativas e reconhecer a criança como sujeito de cultura são ações que ultrapassam o campo da educação - são escolhas sociais. Mais do que formar leitores, trata-se de formar sujeitos capazes de pensar, sentir e se posicionar no mundo. Diante disso, valorizar a literatura infantil não deve ser um movimento restrito a datas comemorativas. Trata-se de um compromisso coletivo que envolve famílias, escolas e políticas públicas.
Não por acaso, pesquisas na área da educação e da neurociência têm reiterado que experiências leitoras desde a primeira infância impactam diretamente a linguagem, a atenção, a memória e a capacidade de argumentação ao longo da vida escolar.
Porque, quando uma criança lê - ou escuta uma história -, ela não está apenas acompanhando uma narrativa. Ela está, silenciosamente, construindo a sua própria.
Adelir Marinho é Pós-doutora pela UNICAMP; Doutora em Educação, Pesquisadora da Infância, especialista em Neurociência, Educação e Desenvolvimento Infantil, especialista em Psicopedagogia Construtivista, com experiência da Educação Básica ao Ensino Superior. Escritora de diversos livros na área de Educação.
* Edição por Lina Santiago
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