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Quando a infância é levada a sério, o museu muda

Experiências educativas mostram que se levada a sério, a relação das crianças com a arte pode ser profunda e significativa.

Andrea Aly* Publicado em 03/01/2026, às 06h00

Andrea Aly
Andrea Aly, professora de Linguagens Visuais e especialista em História da Arte e em Arteterapia. - Foto: ekoa/ Divulgação

Museus estão se tornando mais inclusivos para crianças, refletindo uma mudança na percepção sobre a presença infantil em espaços culturais, embora ainda existam desafios relacionados à mediação e à resistência em contextos conservadores.

Experiências educativas, como as promovidas pelo espaço ekoa, demonstram que a apreciação artística desde a infância enriquece a relação das crianças com a arte, resultando em visitas mais profundas e reflexivas.

Os museus estão adotando práticas educativas que vão além da regulação de comportamento, promovendo acessibilidade e transformando seus espaços em ambientes de diálogo e pertencimento, beneficiando não apenas crianças, mas todos os públicos.

Resumo gerado por IA

Durante muito tempo, a sociedade se questionava se museus são lugares para crianças. Hoje, essa dúvida já não ocupa o centro do debate. Exposições contemporâneas têm avançado na inclusão de públicos diversos, e isso envolve, cada vez mais, a presença das crianças. Ainda assim, a infância em espaços expositivos segue revelando questões importantes sobre como entendemos arte, educação e participação cultural.

Experiências educativas mostram que o problema raramente está nas crianças. Ele costuma surgir quando falta mediação, preparo ou abertura para reconhecer que a infância ocupa o mundo de um jeito próprio. Em contextos mais conservadores, a resistência ainda existe e, muitas vezes, está ligada ao desconforto com a energia vital das crianças. No entanto, houve avanços significativos tanto na postura das escolas, que passaram a circular com mais naturalidade por museus, quanto na abertura dessas instituições para compreender melhor a relação das crianças com as obras e os espaços culturais.

Quando há um trabalho pedagógico contínuo, o encontro entre os pequenos e a arte ganha outra dimensão. Crianças que exercitam desde cedo a observação, a escuta e a reflexão não chegam a uma exposição como visitantes ocasionais. Elas se demoram diante das obras, fazem perguntas, constroem interpretações e se interessam pelo percurso. A visita deixa de ser um passeio rápido e se transforma em experiência de investigação.

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Nesse sentido, experiências escolares como a do espaço ekoa ajudam a iluminar o debate. Ao trabalhar a apreciação artística desde a primeira infância de forma sistemática e cotidiana, a escola constrói um repertório que acompanha as crianças para além do ambiente escolar. Em visitas a grandes exposições, como a Bienal, isso se traduz em mais tempo de permanência diante das obras, maior profundidade nos questionamentos e uma relação mais tranquila com o espaço expositivo, que passa a ser reconhecido como um território possível de escuta e diálogo.

Fazer um trabalho antes e depois de qualquer visita, certamente transforma a experiência dos estudantes. Antecipar o que irão ver, apresentar as regras de convivência em espaços expositivos e apresentar algumas obras, ajudam muito no que diz respeito a postura das crianças no espaço. Após a visita também é importante a retomada do que foi experenciado para que se apropriem ainda mais a respeito do conteúdo.

Esse tipo de relação não nasce no improviso. O olhar se constrói. A prática constante de apreciação artística ensina a criança a esperar, a ouvir o outro e a organizar o próprio pensamento antes de comentar. Não se trata de entender tudo, mas de se permitir observar, refletir e elaborar sentidos (individual e coletivamente). Quem não teve essa experiência tende a acessar a arte de forma mais superficial, não por falta de sensibilidade, mas por falta de repertório reflexivo.

Os educativos dos museus cumprem um papel central nesse processo. Nas últimas décadas, essas áreas deixaram de atuar apenas como reguladoras de comportamento para se tornarem mediadoras de experiências, com visitas temáticas, propostas adaptadas às diferentes idades e ações que ampliam a compreensão das exposições.

Outro ponto essencial desse debate é a acessibilidade. Muitos museus ainda mantêm etiquetas, mesas e obras pensadas exclusivamente na altura dos olhos adultos. Espaços excessivamente restritivos limitam a experiência não apenas das crianças, mas também de pessoas com deficiência. Ampliar o olhar para a infância ajuda a evidenciar essas limitações e a promover transformações que beneficiam todos os públicos.

Reconhecer museus como espaços também da infância não empobrece a experiência artística. Pelo contrário. Afirma que o vínculo com a cultura se constrói desde cedo e que a sensibilidade não surge pronta na vida adulta. Ela é cultivada. Quando crianças são levadas a sério nesses espaços, o museu deixa de ser um lugar distante de contemplação e passa a ser um território vivo de encontro e pertencimento.

*Andrea Aly é professora de Linguagens Visuais no espaço ekoa, especialista em História da Arte (FAAP) e em Arteterapia (Instituto NAPE).

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