Capital comunicacional e a capacidade de transformar saber em influência

Aprenda a importância de unir técnica e conteúdo para uma comunicação que realmente impacte e gere reconhecimento de capacidade

Fabiana Bertotti* Publicado em 09/09/2026, às 06h00

Fabiana Bertotti, especialista em oratória e capacitação de líderes. - Foto: Divulgação

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Há uma distância, muitas vezes pouco percebida, entre possuir conhecimento e conseguir fazer com que ele seja reconhecido. Em diferentes trajetórias profissionais, essa lacuna se manifesta quando boas ideias circulam sem deixar marcas, contribuições relevantes não encontram repercussão e competências permanecem aquém do reconhecimento que poderiam alcançar. Em um cenário cada vez mais marcado pela disputa por atenção, proponho chamar esse fenômeno de capital comunicacional, conceito que nomeio para definir a capacidade de transformar aquilo que se sabe em algo não apenas expresso, mas percebido, compreendido e valorizado.

O conceito surge de uma aproximação com a obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Ao revisitar suas reflexões sobre as diferentes formas de capital, identifiquei um espaço que, embora presente nas relações profissionais e sociais, permanecia sem uma delimitação conceitual mais clara. É a partir dessa leitura que proponho nomear o capital comunicacional.

Essa competência começa a ser construída desde cedo, mas frequentemente é interrompida por uma crença persistente, a de que comunicar bem é um dom restrito a poucos. A afirmação, recorrente no senso comum, ignora que a comunicação, como qualquer habilidade complexa, depende de treino, repertório e consciência. O efeito dessa interrupção aparece em situações cotidianas, quando ideias relevantes passam despercebidas, enquanto outras, mais bem articuladas, ganham adesão imediata. Não se trata de injustiça, mas de leitura de valor.

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O capital comunicacional se manifesta na forma como um argumento se organiza, na escolha de palavras sob pressão, no uso do silêncio e na postura que antecede a fala. Quem o acumula não precisa disputar atenção, pois sua presença já comunica autoridade. O impacto dessa dinâmica alcança trajetórias inteiras, influenciando promoções, contratos e oportunidades.

Há, ainda, uma distorção recorrente, a ênfase excessiva na técnica. Cursos privilegiam gestos e respiração, que são necessários, mas que pouco sustentam a comunicação quando dissociados de conteúdo. A performance vazia, facilmente percebida, evidencia a ausência do que realmente sustenta a fala, o repertório. É ele que permite pensar com precisão e ajustar o discurso em tempo real.

Nesse processo, forma-se um ciclo: quem lê mais amplia o repertório, quem amplia o repertório pensa com mais clareza, quem pensa com mais clareza comunica com mais precisão e quem comunica com mais precisão ocupa mais espaço nas interações sociais. Um exemplo ilustra essa diferença. Dizer que é preciso melhorar a comunicação interna de uma empresa é legítimo, mas genérico. Nomear o problema como uma falha na transferência de decisões reorganiza a percepção e gera ação.

Ao cunhar o termo capital comunicacional, explicita-se uma engrenagem central das relações contemporâneas. Não se trata de substituir os capitais descritos por Bourdieu, mas de evidenciar uma ponte entre eles, a capacidade de fazer com que o conhecimento seja percebido, compreendido e reconhecido. É nessa circulação que, silenciosamente, define-se quem será ouvido.

* Fabiana Bertotti é especialista em oratória, referência na capacitação de líderes. Direcionou sua carreira para a formação de comunicadores, com especialização em Cinema e Audiovisual pela PUC-PR e cursos de escrita no Brasil e na Inglaterra. Possui mais de 20 anos de experiência em palco, mais de 12 livros publicados e atuação em palestras e conferências no Brasil e no exterior.

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