O esporte que transforma um país começa fora do pódio

A UNESCO reconhece o esporte como ferramenta de inclusão social que promove hábitos saudáveis e transforma um país

Flávia Drummond* Publicado em 04/06/2026, às 06h00

A Copa do Mundo FIFA 2026 pode despertar a vontade de praticar esportes, influenciando hábitos, comportamento e qualidade de vida. - Foto: Canva Pro

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O impacto do esporte raramente termina no placar. Grandes competições, como a Copa do Mundo FIFA 2026 e as Olimpíadas de 2028 mobilizam audiência, criam conversas e despertam admiração, mas seu efeito mais profundo talvez esteja em outro lugar: na capacidade de influenciar hábitos, comportamento e qualidade de vida.

Quando uma criança começa a praticar esporte inspirada por um atleta ou uma família passa a valorizar mais atividade física, existe ali um efeito social que vai muito além do entretenimento. E é justamente por isso que apoiar o esporte se tornou uma agenda relevante também para empresas comprometidas com saúde e bem-estar.

Durante muito tempo, prevenção foi tratada de forma restrita, quase sempre associada apenas a exames e consultas. Existe uma contradição curiosa no comportamento do torcedor brasileiro. A mesma pessoa que acompanha cada detalhe da preparação física de um atacante — os exames pré-temporada, a monitoração cardíaca, o protocolo de recuperação — é muitas vezes a mesma que adia há dois anos uma consulta de rotina. Que nunca fez um check-up completo. Que só vai ao médico quando a dor já não pode esperar.

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Mas hoje está cada vez mais evidente que saúde começa antes: na rotina, alimentação, movimento, sono, equilíbrio emocional e acesso à informação. Eu mesma, comecei a correr recentemente e percebi os benefícios amplos na minha saúde - física, mental e social.

Os dados ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada três pessoas adultas no mundo não pratica atividade física suficiente¹. Entre adolescentes, o cenário é ainda mais preocupante: 80% estão abaixo dos níveis recomendados de exercício físico². A própria OMS estima que até 5 milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas com uma população mais ativa³.

O esporte ocupa um papel poderoso nesse processo porque inspira pelo exemplo. Atletas de alto rendimento mostram, na prática, que performance depende de disciplina, acompanhamento, constância e cuidado com o corpo. Existe uma mensagem importante aí: saúde não é um evento isolado. É um processo permanente.

Essa discussão é especialmente urgente no Brasil. Vivemos um paradoxo: nunca se falou tanto em wellness, mas o sedentarismo segue crescendo. Segundo a OMS, a inatividade física aumentou 5 pontos percentuais entre 2010 e 2022 no mundo — e pode atingir 35% da população até 2030. No Brasil, o cenário é ainda mais grave: 47% dos adultos são considerados inativos fisicamente e o país lidera o ranking na América Latina⁴. Ao mesmo tempo, os números revelam um aumento expressivo da obesidade: o excesso de peso saltou de 42,6% para 62,6% da população em apenas 18 anos, segundo o Vigitel 2025⁵. Vivemos também uma piora de indicadores de saúde mental, inclusive entre jovens. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta informação disponível sobre prevenção e qualidade de vida. O desafio deixou de ser apenas acesso ao conhecimento e passou a ser engajamento.

A UNESCO reconhece o esporte como uma ferramenta de inclusão social, desenvolvimento humano e promoção de uma cultura de paz⁶. Porque mobiliza comunidades, cria pertencimento, fortalece vínculos e estimula hábitos mais saudáveis desde cedo.

Por isso, para mim, apoiar o esporte não deve ser visto apenas como uma ação de patrocínio ou posicionamento de marca. Trata-se de investir em algo que produz impacto social concreto. Especialmente para empresas da área da saúde, existe uma oportunidade importante de ampliar a conversa sobre prevenção para além dos laboratórios, hospitais e consultórios.

As medalhas têm seu valor simbólico. Mas o legado mais importante do esporte talvez seja outro: lembrar que saúde se constrói todos os dias, e que promover uma sociedade mais ativa é uma responsabilidade coletiva.

Referências

  1. Organização Mundial da Saúde (OMS) — Physical Activity https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/physical-activity
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS) — 80% dos adolescentes não praticam atividade física suficiente https://www.who.int/news/item/22-11-2019-new-who-led-study-says-majority-of-adolescents-worldwide-are-not-sufficiently-physically-active-putting-their-current-and-future-health-at-risk
  3. Organização Mundial da Saúde (OMS) — estimativa de mortes evitáveis por inatividade física https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/physical-activity
  4. STRAIN, T. et al. National, regional, and global trends in insufficient physical activity among adults from 2000 to 2022: a pooled analysis of 507 population-based surveys with 5·7 million participants. The Lancet Global Health, v. 12, p. e1232–e1243, jun. 2024. DOI: 10.1016/S2214-109X(24)00150-5. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(24)00150-5/fulltext. Acesso em: 19 maio 2026. E MINISTÉRIO DA SAÚDE. 10/3 – Dia Nacional de Combate ao Sedentarismo. Biblioteca Virtual em Saúde, Brasília, 2023. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/10-3-dia-nacional-de-combate-ao-sedentarismo/. Acesso em: 19 maio 2026.Ministério da Saúde — Vigitel 2025 https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/marco/vigitel
  5. UNESCO — Sport for Development and Peace https://www.unesco.org/en/sport-development-peace

* Flávia Drummond é diretora de marketing da Dasa, empresa líder de medicina diagnóstica no Brasil

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