Pré-natal começa com escuta

Entenda por que iniciar o pré-natal cedo pode mudar o destino de uma gestação. Tudo começa com uma boa escuta

Rodrigo Ruano* Publicado em 09/03/2026, às 06h00

A escuta qualificada é crucial para garantir um acompanhamento pré-natal adequado para cada situação individual -

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Em diferentes países, observamos um dado que merece atenção: menos mulheres estão iniciando o pré-natal no primeiro trimestre da gestação. Dados recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que a proporção de gestantes que começaram o acompanhamento no primeiro trimestre caiu de 78,3% em 2021 para 75,5% em 2024. Essa redução amplia o número de acompanhamentos tardios — condição associada a piores desfechos maternos e neonatais.

No Brasil, o cenário é aparentemente positivo quando analisamos cobertura. Dados de 2025 avaliados no estado do Rio de Janeiro indicam que mais de 98,5% das gestantes receberam algum tipo de acompanhamento pré-natal. No entanto, cobertura não significa qualidade. Estudos recentes mostram que, embora quase todas as mulheres tenham sido acompanhadas, menos de um terço teve registro completo dos exames essenciais, como aferição de pressão arterial e controle de glicemia — medidas fundamentais para o diagnóstico de hipertensão e diabetes gestacional.

Além disso, recomendações importantes, como imunizações e suplementação, frequentemente não estão plenamente documentadas ou executadas na prática clínica. Essas lacunas podem impactar diretamente a saúde materna e fetal.

É fundamental compreender que o pré-natal não é apenas uma sequência protocolar de consultas. Ele representa a oportunidade de identificar doenças ainda no ventre, acompanhar o desenvolvimento fetal com precisão e intervir quando necessário. Quanto mais cedo iniciamos esse cuidado, maiores são as chances de modificar positivamente a trajetória daquela gestação.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos oito contatos de cuidado pré-natal ao longo da gestação como parâmetro ideal para melhorar desfechos maternos e neonatais — número superior ao tradicionalmente realizado em muitos contextos.

No entanto, existe um elemento que não aparece em estatísticas, mas é decisivo na prática clínica: a escuta ativa da gestante.

É comum que mulheres relatem sintomas subjetivos no início da gravidez que, por vezes, são subestimados. Pequenas alterações podem sinalizar questões relevantes quando analisadas em conjunto com exames clínicos e de imagem. A gestante conhece o próprio corpo. Quando ela diz que algo não está bem, isso precisa ser valorizado. A escuta atenta pode antecipar diagnósticos e evitar complicações.

Essa atenção torna-se ainda mais importante quando falamos de mães solo ou de primeira viagem. Muitas enfrentam a gestação sem rede de apoio estruturada, vivenciam maior carga emocional e inseguranças naturais do processo. Nessas situações, o cuidado precisa ser integral — clínico e humano.

A ultrassonografia obstétrica, especialmente entre 18 e 22 semanas, é uma ferramenta indispensável para avaliar a formação e o desenvolvimento dos órgãos fetais. Nesse período, conseguimos identificar malformações cardíacas, alterações do sistema nervoso e outras condições que podem exigir planejamento especializado. Diagnosticar precocemente significa poder organizar condutas, planejar intervenções e oferecer melhores perspectivas de sobrevida e qualidade de vida.

Ao longo da minha trajetória como pesquisador, professor e cirurgião materno-fetal na University of Miami, tenho atuado em procedimentos de alta complexidade, incluindo cirurgias fetais realizadas ainda no útero. Esses avanços representam conquistas extraordinárias da medicina contemporânea. Contudo, é importante lembrar que, antes da intervenção sofisticada, existe a prevenção. E a prevenção começa com pré-natal bem conduzido e iniciado no tempo adequado.

Muitas vezes, identificar cedo é o que permite mudar completamente o curso de uma gestação.

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Por fim, defendo que o cuidado materno-fetal deve ser multidisciplinar. Psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e outros profissionais são essenciais, especialmente diante de diagnósticos de risco ou impactos emocionais significativos. A medicina moderna exige técnica apurada, mas também exige presença.

Enquanto os sistemas de saúde buscam ampliar o acesso ao pré-natal de qualidade, precisamos reforçar algo essencial: escutar é parte do tratamento. A escuta qualificada pode ser tão transformadora quanto qualquer tecnologia disponível — sobretudo para mulheres em situação de vulnerabilidade.

O futuro de uma gestação começa muito antes do parto. Ele começa no primeiro contato. E, muitas vezes, começa quando alguém decide ouvir.

 

*Prof. Dr. Rodrigo Ruano é cirurgião-fetal com mais de 20 anos de experiência e reconhecimento internacional. É considerado uma das maiores referências mundiais em procedimentos complexos de medicina materno-fetal, tendo atuado em diferentes países da América Latina, Europa e Estados Unidos. Foi pioneiro no Brasil em técnicas como a oclusão traqueal fetal para hérnia diafragmática congênita, além de procedimentos minimamente invasivos para o tratamento de tumores e malformações fetais. Também contribuiu para o avanço da cirurgia endoscópica aplicada a condições graves, como a espinha bífida, e desenvolveu abordagens inovadoras em terapias fetais regenerativas. Sua trajetória o coloca em posição de destaque na medicina fetal global, unindo expertise técnica, pioneirismo e compromisso em ampliar as fronteiras da cirurgia fetal em benefício de mães e bebês.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres

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