A busca pelo próprio equilíbrio entre vida pessoal e profissional é um desafio constante para muitas mulheres que são mães
Mariane Novais* Publicado em 09/05/2026, às 06h00
Recentemente, li um artigo da Shakira que me fez pensar. Ela falava sobre maternidade, trabalho, escolhas, julgamentos e sobre essa conta que, para as mulheres, quase nunca fecha.
Não fecha porque a mulher precisa provar mais, explicar mais, equilibrar mais. Precisa ser firme, mas não dura. Sensível, mas não frágil. Ambiciosa, mas não difícil. Forte, mas sem parecer ameaçadora. Presente como mãe, disponível como profissional, cuidadosa como filha, parceira como mulher e, de preferência, fazendo tudo isso com leveza.
Mas, de verdade: conciliar tudo isso não é fácil. Trabalhar como se não tivesse casa. Cuidar da casa como se não tivesse trabalho. Cuidar dos filhos como se não tivesse carreira. Construir carreira como se não existissem filhos, culpa, cansaço, cobrança e uma lista invisível de responsabilidades que quase nunca entra na agenda, mas consome energia todos os dias.
Eu sou mãe e executiva na área da saúde. E sou completamente apaixonada pelo que faço. Gosto de trabalhar, de construir, de criar, de resolver, de participar das decisões e de provocar movimento. Estou disponível no WhatsApp em muitos momentos do dia porque, no mundo em que vivemos, a separação rígida entre vida pessoal e profissional já não existe como antes.
Para mim, a questão nunca foi simplesmente trabalhar mais ou trabalhar menos. É aprender a fazer escolhas com mais consciência, dentro de uma vida que é complexa por natureza. É estar presente no que eu escolhi viver naquele momento. Quando estou com meus filhos, quero estar de verdade. Quando descanso, quero conseguir desligar. Quando cuido de mim, quero que esse tempo também tenha valor. E quando trabalho, quero trabalhar com intensidade, porque isso também me move e também faz parte de quem eu sou.
Talvez esse seja o ponto: equilíbrio não tem uma fórmula única. Cada mulher constrói o seu a partir da própria história, dos seus desejos, das suas responsabilidades e dos seus limites. O que para mim é escolha pode ser peso para outra. O que me dá energia pode esgotar alguém. Por isso, desconfio de qualquer discurso que tente transformar um jeito de viver em regra, modelo ideal ou verdade absoluta.
Durante muito tempo, o cuidado foi tratado como algo natural da mulher. Como se fosse instinto, vocação, destino. Mas cuidado também é trabalho. Exige tempo, energia, presença, responsabilidade e uma carga mental que quase nunca aparece, mas pesa. Não por acaso, mulheres realizam cerca de 76% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)1. Uma base invisível que sustenta não só a vida cotidiana, mas também a própria economia, muitas vezes limitando sua participação e crescimento profissional.
E isso importa também dentro das organizações. No setor da saúde, onde atuo, essa discussão ganha ainda mais força. Estamos em uma área historicamente sustentada pelo cuidado e majoritariamente feminina. Quando as mulheres mudam sua forma de enxergar carreira, maternidade, descanso e vida, elas também provocam uma mudança cultural nas empresas.
Liderança, hoje, também precisa considerar equilíbrio, escuta, maturidade emocional e a capacidade de sustentar resultados sem adoecer pessoas pelo caminho. Não por acaso, a sobrecarga tem cobrado um preço alto: segundo a Deloitte, 48% das mulheres colocam a saúde mental entre suas maiores preocupações, frequentemente associada à pressão constante de equilibrar trabalho e vida pessoal2.
Talvez o que muitas mulheres estejam dizendo agora não seja “quero voltar para casa”. Talvez seja: “quero ter autonomia para decidir como viver, sem a obrigação de performar excelência em todas as frentes o tempo todo”.
Essa mudança é poderosa. Mas exige cuidado. Romantizar qualquer modelo pode esconder desigualdades importantes. Abrir mão da autonomia financeira, por exemplo, nunca foi uma decisão neutra para as mulheres. O oposto da sobrecarga não é o retorno ao passado. O oposto da sobrecarga é a possibilidade real de escolha.
Neste Mês das Mães, talvez valha atualizar a referência. Não precisamos mais romantizar a mulher que aguenta tudo. Precisamos valorizar a mulher que consegue se respeitar. Que entende seus limites. Que assume seus desejos. Que trabalha muito, se isso fizer sentido. Que desacelera, se isso fizer sentido. Que cuida dos filhos, da carreira, da saúde, da casa e da própria vida, sem transformar tudo isso em uma competição silenciosa de exaustão.
No fim, não se trata de dar conta de tudo. Trata-se de aprender a escolher, a respirar e a viver cada parte da vida com presença. Porque equilíbrio talvez não seja fazer tudo caber. Talvez seja entender o que merece ocupar espaço em cada momento.
Referências:
* Mariane Novais é diretora de Comunicação e Marca da Rede Américas.
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