Apesar de poder causar alterações importantes na vulva, muitas mulheres só ouvem falar sobre a doença quando recebem o próprio diagnóstico
Redação* Publicado em 16/10/2026, às 06h00

O líquen escleroso é uma condição inflamatória crônica que afeta a região genital e perianal, podendo causar sintomas severos e alterações anatômicas que impactam a qualidade de vida das mulheres. A falta de conhecimento sobre a doença leva a diagnósticos tardios e tratamentos inadequados.
Os sintomas, como coceira intensa e dor, muitas vezes são confundidos com outras condições, resultando em anos de tratamento sem a identificação correta da causa. Mudanças na aparência da vulva também são sinais que devem ser investigados para evitar complicações futuras.
Embora não haja cura definitiva, o tratamento visa controlar a inflamação e preservar a anatomia, com acompanhamento regular devido ao risco aumentado de câncer de vulva. A abordagem deve ser individualizada, considerando fatores como saúde hormonal e estilo de vida, especialmente durante a menopausa.
Quando se fala em saúde da mulher, temas como menopausa, endometriose e câncer ginecológico costumam ocupar grande espaço nas campanhas de conscientização. Mas existe uma condição ainda pouco conhecida, frequentemente confundida com outros problemas dermatológicos ou ginecológicos e que, quando não identificada e tratada adequadamente, pode provocar alterações importantes na anatomia genital feminina: o líquen escleroso.
A doença inflamatória crônica atinge principalmente a região genital e perianal e pode provocar sintomas como coceira intensa, ardência, dor, fissuras e alterações na pele. Com a progressão, podem ocorrer cicatrizes, estreitamento da entrada vaginal e modificações na anatomia da vulva, com impacto na qualidade de vida e na vida sexual.
Para a médica ginecologista Dra. Laura Gusman, um dos principais desafios ainda é a falta de conhecimento sobre a doença.
“É uma doença que ainda é muito pouco conhecida. Muitas mulheres passam anos convivendo com sintomas, acreditando que se trata de uma infecção recorrente ou de um problema sem solução. No consultório, é muito comum ouvir de pacientes que nunca tinham ouvido falar em líquen escleroso até receberem o diagnóstico. Por isso, é tão importante ampliar a informação sobre a doença: o diagnóstico e o tratamento adequados são fundamentais para evitar sua progressão, preservar a anatomia e a qualidade de vida”, explica a médica.
Coceira, desconforto, ressecamento e ardência na região íntima são sintomas comuns a diferentes condições e, por isso, podem ser atribuídos inicialmente a candidíase, alterações hormonais ou outros problemas vulvares.
Isso pode fazer com que algumas mulheres passem por sucessivos tratamentos sem que a causa dos sintomas seja identificada.
Além dos sintomas, mudanças na aparência da vulva também merecem atenção. Alterações na coloração e textura da pele, fissuras recorrentes, mudanças nos pequenos lábios e dor durante as relações sexuais devem ser investigadas.
“O problema não é apenas o desconforto. A inflamação persistente pode provocar cicatrização e alterações progressivas da anatomia. Quanto mais cedo fazemos o diagnóstico e controlamos a doença, maior é a possibilidade de preservar a estrutura e a função da região”, explica Laura.
O líquen escleroso é uma doença crônica, que não tem cura definitiva, mas pode ser controlada. O tratamento tem como objetivo controlar a inflamação, aliviar os sintomas, preservar a anatomia e prevenir a progressão e possíveis complicações. O acompanhamento regular também é fundamental, inclusive porque a doença está associada a um pequeno aumento do risco de câncer de vulva, o que reforça a importância da vigilância ao longo do tempo.
Além das terapias estabelecidas para o controle da doença, outras estratégias podem ser consideradas de acordo com as necessidades e as consequências apresentadas por cada paciente.
“O tratamento específico do líquen é fundamental, mas o cuidado com a paciente não se resume à doença. É importante avaliar também saúde hormonal, estado nutricional, estilo de vida e outros fatores que podem influenciar seu estado geral e inflamatório. Em situações específicas, podem ser associados recursos complementares voltados à regeneração e à qualidade dos tecidos, à recuperação funcional e, quando necessário, à reconstrução de alterações anatômicas provocadas pela doença, sempre de forma individualizada”, explica Laura.
A atenção à saúde vulvar também se torna especialmente importante no climatério e na menopausa, quando a queda hormonal pode provocar ressecamento, ardência, dor nas relações e alterações urinárias. A presença desses sintomas não deve ser automaticamente atribuída ao envelhecimento ou à menopausa, principalmente quando existem alterações persistentes na pele ou na anatomia.
“Nem toda coceira é candidíase, nem todo ressecamento é apenas consequência da menopausa. Quando um sintoma persiste ou a mulher percebe que a aparência da região íntima está mudando, isso merece ser examinado”, reforça a ginecologista.
* Edição por Lina Santiago
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