Das Unheimliche e o carro da funerária

A instalação de caixas de som em protesto revela o desconforto dos moradores com a presença de idosos e carros de funerária na região

Maria Paula Teperino* Publicado em 04/06/2026, às 06h00

Vivemos sustentando a fantasia de que não adoeceremos, não envelheceremos e, sobretudo, não morreremos. - Foto: Canva Pro

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Outro dia me deparei com uma matéria da Folha de S.Paulo, além de conteúdos em redes sociais, que relatavam a mobilização de moradores de um bairro de classe média alta na zona oeste de São Paulo, a Lapa, contra duas instituições de longa permanência para idosos. Segundo a reportagem, tais estabelecimentos possuem alvará regular de funcionamento, e seus residentes têm idades que variam entre 90 e 100 anos.

Trata-se, em sua maioria, de pessoas acamadas ou com severas limitações de mobilidade — ou seja, indivíduos que praticamente não circulam pelas ruas do bairro, permanecendo restritos ao ambiente interno dessas casas.

Diante desse cenário, surge a pergunta: o que, afinal, estaria incomodando tanto os moradores da região? A resposta aparece de maneira inquietante. Em protesto, alguns vizinhos passaram a instalar caixas de som em suas janelas, tocando música em volume altíssimo, com o objetivo explícito de perturbar o cotidiano dos idosos e forçar a remoção das instituições.

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Quando questionados pela reportagem sobre o motivo do incômodo, muitos alegaram que a presença desses lares provocaria a desvalorização de seus imóveis. Tal argumento, no entanto, causa certo estranhamento. À primeira vista, trata-se de casas comuns, muitas vezes com muros altos, que pouco interferem na estética do bairro. Além disso, uma das queixas mais frequentes em zonas estritamente residenciais costuma ser o barulho gerado por atividades comerciais — o que, nesse caso, ocorre de forma inversa: são os próprios moradores que produzem o ruído.

A razão mais profunda desse desconforto se revela quando um dos manifestantes, celular em mãos, filma a saída de um carro funerário de uma das instituições e afirma, em tom enfático: “somos obrigados a ver carros de funerária diariamente”. É nesse ponto que algo se evidencia: o incômodo não é propriamente com os idosos, mas com aquilo que eles representam.

A cena aponta para nossa velha e persistente dificuldade de lidar com a castração, no sentido psicanalítico. Vivemos sustentando a fantasia de que não adoeceremos, não envelheceremos e, sobretudo, não morreremos. Buscamos nos proteger de tudo aquilo que nos lembra nossa incompletude — embora sejamos, como nos recorda Lacan, sujeitos marcados pela falta, “seres para a morte”.

Freud dedicou-se a esse fenômeno em seu texto de 1919, Das Unheimliche. Traduzido como “estranho”, “inquietante” ou “infamiliar”, o conceito designa um sentimento peculiar: algo que, embora familiar, retorna sob a forma de estranheza, geralmente por ter sido recalcado. Trata-se da emergência daquilo que deveria permanecer oculto, mas insiste em reaparecer.

Assim, ao se depararem com o carro funerário, esses moradores não enfrentam apenas uma situação externa, mas o retorno de uma ideia profundamente recalcada: a morte. E essa experiência não se restringe ao envelhecimento extremo. A angústia diante da castração também se manifesta quando somos confrontados com corpos que desafiam ideais de completude — como ocorre, por exemplo, na relação social com pessoas com deficiência.

Falo sobre esse tema, e muitos outros, em meu livro que será lançado em agosto pela Editora Appris, “Não Desvie o Olhar – A invisibilização das pessoas com deficiência sob o ponto de vista da psicanálise”.

*Maria Paula Teperino é graduada em Psicologia e em Direito. Aprofundou sua formação no campo da psicanálise: é pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e em Teoria Psicanalítica pela Universidade Veiga de Almeida (UVA/RJ), instituição onde também concluiu o Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Atualmente, integra o Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro. Em agosto, Maria Paula lançará seu primeiro livro, Não Desvie o Olhar — A Invisibilização das Pessoas com Deficiência sob o Olhar da Psicanálise (resultado de sua dissertação de mestrado), no qual revisita histórias pessoais à luz da teoria psicanalítica. Mulher com deficiência física, Maria Paula traz à sua prática e às suas reflexões uma perspectiva singular sobre corpo, sujeito e sociedade.

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