Descubra a importância da reflexão e do autocuidado em tempos de transição e como o silêncio interior pode ajudar na saúde mental
Maria Klien* Publicado em 15/12/2025, às 06h00
O final do ano costuma reorganizar o campo psíquico. A proximidade do encerramento de um ciclo cria um intervalo no qual cada pessoa se vê diante do próprio trajeto. Entre movimentos externos e demandas sociais, há um território interno que se abre e chama à escuta. Esse território funciona como superfície de projeção, reunindo escolhas, omissões e momentos que permaneceram sem nome.
A mente reconhece a demarcação temporal e tenta concluir processos que permaneceram inacabados. Essa operação simbólica busca síntese, mas encontra obstáculos quando há pressa, autocobrança ou necessidade de demonstrar estabilidade. A tensão entre o que se sente e o que se espera produz inquietação, que não se origina apenas do calendário, mas da maneira como cada história lida com limites.
As metas não alcançadas e os vínculos desfeitos passam a operar como sinais de insuficiência quando a reflexão se confunde com julgamento. O exame interno perde função quando se transforma em punição. A revisão do percurso só gera transformação quando há disposição para reconhecer ritmos e diferenças. O psiquismo aprende pela nomeação e pela observação, não pela rigidez.
Nesse período também emergem memórias que permaneceram recalcadas ou adormecidas. As festas reacendem imagens familiares e colocam em movimento experiências que ainda buscam sentido. O luto, mesmo antigo, pode retornar para completar ciclos de integração. A saudade, compreendida em sua dimensão clínica, revela conteúdos que pedem representação simbólica. Permitir a expressão dessas forças internas liberta o corpo e amplia a consciência.
Há ainda o impacto das narrativas sociais que cercam o final do ano. Ideias de plenitude, união ou abundância formam um roteiro coletivo que nem sempre corresponde ao estado emocional de quem o recebe. A discrepância entre ideal e realidade gera afastamento de si. O pertencimento só se estabelece quando a experiência subjetiva é reconhecida sem comparação. Não é a adequação ao cenário externo que produz estabilidade, mas a consistência da própria verdade interna.
O autocuidado ganha potência quando entendido como prática contínua de regulação. Cuidar de si implica estabelecer limites, escolher pausas e sustentar hábitos que preservam energia psíquica. Redução de estímulos, caminhadas, respiração consciente e regularidade do sono funcionam como instrumentos de reorganização interna. O cuidado, quando orientado pela consciência, fortalece o sistema nervoso para lidar com períodos de maior pressão simbólica.
A sustentação do afeto compartilhado também atua como fator de equilíbrio. Falar sobre o que se sente não busca solução imediata, mas cria campo de espelhamento. A linguagem transforma o não nomeado em forma e, assim, abre possibilidade de elaboração. Amizades e vínculos familiares podem funcionar como redes de regulação quando baseados na escuta e no respeito aos limites. O diálogo genuíno tem efeito terapêutico, ainda que não substitua processos clínicos estruturados.
Quando o sofrimento se mantém e os movimentos internos se tornam excessivos, o acompanhamento profissional se mostra fundamental. A psicoterapia oferece espaço protegido para diferenciar camadas do psiquismo, distinguindo o que pertence ao presente do que resulta de repetições inconscientes. Essa distinção sustenta a construção de sentido, especialmente em períodos marcados por transições simbólicas.
O final do ano não representa ameaça, mas passagem. É momento em que o vivido retorna e solicita tradução. Ao mesmo tempo, convida à entrega do que não pode mais ser carregado. Em termos clínicos, opera como travessia entre zonas internas que se despedem e outras que começam a se formar. A transição só se completa quando há coragem para olhar para o que permaneceu suspenso e disponibilidade para aceitar o que ainda está em formação.
Talvez o sentido mais profundo desse período esteja menos no fechamento de tarefas e mais na capacidade de permanecer em contato com a própria história. Celebrar pode significar agradecer, mas também reconhecer limites, aceitar incompletudes e permitir transformações internas. Quando deixamos de travar guerra com o tempo e aprendemos a habitar o próprio percurso, o ciclo não se encerra; se converte em consciência. E é essa consciência que sustenta, a cada início, novas possibilidades de vida.
* Maria Klien exerce a psicologia, se orientando pela investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, visando atender às necessidades emocionais dos indivíduos em seus universos particulares. Como empreendedora, empenha-se em ampliar a oferta de recursos terapêuticos que favorecem a saúde psíquica, promovendo instrumentos destinados ao equilíbrio mental e ao enfrentamento de questões que afetam o bem-estar psicológico de cada paciente.
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