Em fase inicial de pesquisas, uma única dose reduziu mecanismo de comportamentos ansiosos e depressivos por semanas em testes com animais
Vanessa Kopersz* Publicado em 31/03/2026, às 06h00

Pesquisadores japoneses desenvolveram a molécula PA-915, que atua no controle do estresse cerebral ao bloquear o receptor PAC1, reduzindo comportamentos ansiosos e depressivos em roedores. Embora os resultados sejam promissores, a pesquisa ainda está em fase inicial e não há testes em humanos realizados até o momento.
A PA-915 funciona como um 'escudo' biológico, desativando o eixo HPA e diminuindo os níveis de cortisol e adrenalina, o que pode estimular a formação de novas conexões neuronais. Essa descoberta pode contribuir para o desenvolvimento de uma 'vacina contra a ansiedade', que visa regular a resposta do corpo ao estresse.
Os especialistas alertam que, apesar do potencial da PA-915, a molécula não estará disponível em breve e os testes em humanos seguirão rigorosos padrões científicos. A expectativa é que a substância complemente tratamentos existentes, mas não substitua a necessidade de esforço e mudança de hábitos por parte dos pacientes.
Uma molécula experimental denominada como PA-915 vem chamando a atenção de pesquisadores japoneses (da Universidade de Osaka, da Faculdade de Medicina da Universidade de Kobe, da Faculdade de Medicina da Universidade de Hamamatsu e outros institutos) por atuar diretamente nos mecanismos que regem o estresse no cérebro. A substância bloqueia o receptor polipeptídeo PAC1, ligado ao controle do cortisol - um dos principais hormônios associados à ansiedade. Em testes com roedores, uma única dose da PA-915 reduziu comportamentos ansiosos e depressivos por semanas. Apesar dos resultados promissores, a pesquisa ainda está em fase inicial e testes em humanos não foram iniciados.
O que a molécula PA-915 faz é agir como um "escudo" biológico. Ela desativa o chamado eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), bloqueando o excesso de cortisol e adrenalina — que são os combustíveis da ansiedade crônica. Ao baixar essa "fervura", a molécula estimula a formação de dendritos, que são novas conexões entre os neurônios.
A descoberta reforça uma linha de estudos que busca desenvolver uma espécie de “vacina contra a ansiedade”. Diferente das vacinas tradicionais, essa proposta não combateria vírus ou bactérias, mas tentaria regular a forma como o corpo reage ao estresse.
Para o Dr. Marco Abud, psiquiatra, a vacina ‘’pode ser um divisor de águas na história da saúde mental. Isso pois nosso estresse crônico e ansiedade ativam o eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal). A molécula presente na vacina encostaria nos receptores do hipotálamo e não deixaria essa ativação acontecer. Assim, os centros do medo iriam desligar imediatamente de uma forma eficaz’’, explica.
O Dr. Abud também elucida que ‘’além disso, a vacina promoveria a formação de dendritos, ou prolongamentos de neurônios e isso criaria o que chamamos de aprendizagem inibitória: uma espécie de memória anti-ansiedade. Na prática, a molécula prepararia o terreno biológico para que o cérebro consiga aprender que aquela situação de medo não é mais perigosa’’. Isto não apagaria os medos antigos mas construiria um novo caminho de coragem que suprimiria o pânico e a ansiedade. Para o médico, a revolução acontece justamente nesse treino de exposição baseado em aprendizagem inibitória.
Mas é fundamental alinhar as expectativas: a molécula PA-915 não estará disponível para o público de forma pronta em um futuro próximo. Embora os resultados em animais sejam empolgantes, o caminho na medicina é longo e rigoroso. ‘’Primeiro, é necessário esclarecer que o termo ‘vacina’ surge aqui para explorar a boa fé e o sofrimento humano. Isto pois vacinas são aplicadas para processos imunológicos e a ansiedade não é um deles‘’, afirma o Dr. Wagner Gattaz, Professor Titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. “Anunciar essa vacina para pessoas que sofrem com um transtorno cruel como a ansiedade parece uma estratégia para atingir quem está mais suscetível ao charlatanismo”, completa.
O teste em humanos seguiria o padrão ouro: seriam conduzidos estudos controlados nos quais os cientistas comparariam o efeito do composto com o de um placebo em pacientes com quadros de ansiedade/ pânico e depressão. Mas nem sempre esses estudos podem gerar benefícios para homens e mulheres. ‘’Quantas promessas vimos de medicamentos bons para roedores que resultaram em remédios tóxicos para humanos? Muitas.’’, alerta o Prof. Gattaz.
Já para o Dr. Abud, quem chama a vacina de charlatanismo está bastante equivocado: ‘’Eu entendo o ceticismo e ele é até saudável na ciência, mas o termo ‘charlatanismo’ aqui é um equívoco biológico. O mecanismo da PA-915 é baseado em neurobiologia sólida e documentada’’.
Além disso, o Dr. Marco Abud explica que ‘’não existe ‘pílula mágica’ que faça alguém melhorar sem nenhum tipo de esforço ou mudança de hábito, isto não existe na saúde mental. A PA-915 não vem para substituir o trabalho do paciente. Ela chega justamente para ser um facilitador do treino em psicoterapia, especialmente na terapia de exposição, que é o padrão ouro hoje. A ideia não é que o remédio faça tudo sozinho, mas que turbine a capacidade do cérebro de aprender o treino comportamental. O futuro da saúde mental é exatamente esse: a química potencializando o comportamento, e não tentando substituí-lo’’.
Para o Prof. Gattaz, a promessa da molécula PA-915 é boa, mas existem muitas outras substâncias sendo testadas para depressão e ansiedade. Todo cuidado é pouco. “A indústria farmacêutica não é filantrópica, ela deseja o bem da humanidade desde que as pessoas comprem os remédios por ela produzidos.”
*Vanessa Kopersz é jornalista.
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