Ondas de calor da menopausa conhecidas como fogachos podem causar isquemias cerebrais, declínio cognitivo e danos cardíacos
Vanessa Kopersz* Publicado em 27/03/2026, às 06h00

Os fogachos, ondas de calor intensas que ocorrem durante o climatério, são causados pela deficiência do hormônio estradiol, afetando a regulação da temperatura corporal e trazendo consequências significativas para a saúde das mulheres.
Esses episódios não apenas provocam desconforto físico, como também estão associados a alterações no metabolismo cerebral e cardiovascular, resultando em fadiga mental, lapsos de memória e aumento do risco de doenças cardíacas.
Para mitigar os efeitos negativos dos fogachos, recomenda-se a terapia de reposição hormonal, preferencialmente via transdérmica, além de considerar o uso de fitoterápicos, sempre com orientação médica.
A chegada do climatério, período no qual a mulher começa a perder a capacidade reprodutiva, é marcado por uma série de sintomas desagradáveis. Mas, entre insônia, irritabilidade, alterações de humor e ganho de peso, uma das consequências mais clássicas da menopausa/ climatério que costuma perturbar muitas mulheres são os famosos fogachos. Infelizmente, muito mais do que incômodas, essas intensas ondas de calor podem ser perigosas para a saúde como um todo.
Afinal, o que são os famosos fogachos? De acordo com a Dra. Beatriz Tupinambá, ginecologista, ‘’são as ondas de calor ocasionadas pela deficiência do estradiol, pois quando ele começa a oscilar, o centro regulador da temperatura no nosso corpo, que está localizado no hipotálamo, fica desorientado, já que possui receptores para o hormônio. Assim, recebemos comandos de que o nosso organismo está com uma temperatura acima da normal. Aí vem essas ondas de calor e por conta delas, acontece uma vasodilatação periférica, quando os vasos abrem para poder ter uma troca de calor mais satisfatória’’. Durante os fogachos, as mulheres suam na face e pescoço, ficam ruborizadas e também podem experimentar sensações fortes de ansiedade.
Por trás desse ‘’fogo’’ todo, há verdadeiras revoluções silenciosas ocorrendo nos cérebros femininos. ‘’O estradiol mantém o fluxo sanguíneo estável mesmo com variações da pressão arterial. Durante as ondas de calor, ocorre uma pior resposta vasodilatadora, maior rigidez arterial e menor perfusão microvascular. Isso tudo pode levar à chamada hipoperfusão cerebral relativa, a famosa isquemia, que é a redução ou interrupção do fluxo sanguíneo, resultando em falta de oxigênio e nutrientes’’, diz o ginecologista Dr.José Bento.
As consequências vão além: ‘Os fogachos provocam mudanças relevantes no cérebro, como alterações do metabolismo energético’’, crava Bento. Para entender melhor: o cérebro depende quase exclusivamente da glicose para produzir a famosa ATP, nossa moeda de troca de energia. O problema é que o estradiol regula vários pontos desse metabolismo: aumenta o transporte de glicose para o órgão e dá um boost na engrenagem mitocondrial, que regula a produção de ATP neuronal. ‘’Portanto, sem estradiol, ocorre menor produção de ATP e menor utilização de glicose pelos neurônios, maior geração de radicais livres e maior vulnerabilidade neuronal’’, alerta o Dr. Bento.
Esse estado causado pela baixa de estrógeno é chamado por alguns doutores de ‘’resistência à insulina cerebral menopausal’’. Quando há esse quadro, fadiga mental, lapsos de memória e dificuldade de concentração aparecem como consequências.
Os fogachos também prejudicam bastante o coração: ‘’Durante esses episódios há a ativação do sistema nervoso simpático, aumento da frequência cardíaca e consequente vasodilatação periférica. E aí, para compensar essa condição e a pressão não cair com a vasodilatação, há a vasoconstrição. Algumas mulheres chegam até a ter um pré desmaio com os fogachos. Esse processo todo sobrecarrega a longo prazo o sistema cardiovascular e piora a função do endotélio, a camada que reveste os vasos sanguíneos, aumentando a rigidez arterial, elevando assim o risco de arteriosclerose e de hipertensão’’, explica a Dra. Tupinambá.
Ela também elucida que ‘’muitos estudos inclusive mostram a associação entre fogachos e doença coronária. Isso pois quem tem fogachos intensos terá aumento da pressão arterial e maior chance de eventos cardiovasculares no futuro, principalmente se essas ondas de calor forem persistentes’’. Então, a verdade é que os fogachos estão longe de ser simples calores - eles causam alterações diretas e indiretas tanto no sistema cardiovascular como no sistema nervoso.
Portanto, a melhor forma de proteger cérebro e coração durante a perimenopausa, época na qual os níveis do estrogênio ficam erráticos, é fazer a terapia de reposição hormonal, preferencialmente pela via transdérmica. Fitoterápicos também são opção. Consulte seu médico.
* Vanessa Kopersz é jornalista
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