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Melinda Gates investe US$ 215 milhões em políticas para mulheres na menopausa

Problema afeta produtividade feminina no Brasil e no mundo

Vanessa Kopersz* Publicado em 10/06/2026, às 06h00

A filantropa busca integrar pesquisa e políticas de saúde para mulheres maduras. - pexels
A filantropa busca integrar pesquisa e políticas de saúde para mulheres maduras. - pexels

Melinda Gates anunciou um investimento de US$ 215 milhões na saúde de mulheres de meia-idade, visando combater a negligência médica em torno do climatério, que afeta a produtividade e a ascensão feminina no mercado de trabalho.

Estudos revelam que 80% das mulheres nessa faixa etária relatam esgotamento físico e mental, com sintomas que impactam diretamente seu desempenho profissional, evidenciando a falta de políticas corporativas adequadas.

A iniciativa de Gates inclui parcerias com startups e organizações de saúde, além de exigir que soluções sejam cientificamente validadas, enquanto busca elevar o debate sobre a saúde feminina a um nível de políticas públicas e cobertura de planos de saúde.

Resumo gerado por IA

A cena é familiar em salas de reuniões e escritórios ao redor do mundo: uma executiva ao redor dos 40, 50 anos, no auge de sua produtividade, lidando com sintomas debilitantes que a medicina convencional frequentemente ignora ou minimiza - o famoso ‘’gaslighting de jaleco.’’ A bilionária Melinda Gates, ao observar esse padrão, decidiu que o silêncio conivente da sociedade médica em torno do climatério não é apenas uma questão de saúde individual, mas um obstáculo sistêmico para a ascensão feminina.

Com o anúncio de um aporte de US$ 215 milhões na saúde das mulheres de meia-idade através da Pivotal, sua firma de investimentos e filantropia, ela sinaliza que a saúde da mulher madura deixou de ser um tópico secundário para se tornar um pilar central de sua agenda de impacto social.

A filantropa não está apenas despejando capital em um mercado que, segundo estimativas, pode alcançar US$ 600 bilhões. Ela busca catalisar uma mudança na forma como o ecossistema de saúde enxerga os anos de perimenopausa e menopausa. Historicamente, o foco da filantropia global em saúde feminina concentrou-se na saúde materna e no acesso à contracepção, deixando um vácuo de pesquisa, invisibilidade e atendimento para as mulheres que atravessam a transição da meia-idade. Ao negligenciar essa fase, a sociedade está desperdiçando o potencial de liderança de mulheres em seu momento de maior experiência profissional.

O aporte dos milhões funciona como uma semente para um ecossistema que exige mais do que apenas produtos de consumo. Melinda Gates utiliza uma abordagem em várias frentes: investimentos diretos em startups médicas, como a Tia, e parcerias estratégicas com entidades como a Menopause Society. A estratégia é assertiva: forçar a integração entre pesquisa científica, treinamento de profissionais de linha de frente e mudanças nas políticas de seguro saúde. Ao exigir que as empresas de seu portfólio sejam cientificamente validadas, ela tenta separar o ruído comercial e o marketing das soluções que realmente impactam a vida das mulheres.

A saída precoce de mulheres do mercado de trabalho devido aos sintomas da menopausa é um custo invisível que as corporações ainda não precificaram adequadamente. Ao elevar o debate para o nível de políticas públicas e exigências de cobertura por planos de saúde, Melinda desafia o status quo das empresas. O paralelo é direto: se a liderança feminina é um objetivo corporativo declarado, a infraestrutura de saúde que sustenta essas mulheres não pode ser tratada como um luxo ou um problema privado.

No Brasil, o problema está saindo das sombras:  cansaço que não passa, noites mal dormidas, irritabilidade sem motivo aparente. Para milhões de trabalhadoras brasileiras no climatério, esses sintomas fazem parte da rotina dentro e fora do escritório.  A femtech Oest, focada em Menopausa, desenvolveu um estudo-piloto inédito em São Paulo, ponto de partida para o mapeamento nacional sobre o tema.

O estudo embrionário, realizado com 44 colaboradoras de uma empresa parceira, mapeou como a transição hormonal afeta o ambiente de trabalho. Os dados revelam uma combinação preocupante: sintomas prevalentes, baixa adesão a tratamentos e quase nenhuma política corporativa voltada ao tema.

O esgotamento físico e mental é o sintoma mais prevalente: 80% das respondentes relataram algum grau, e 34% classificaram como severo ou muito severo. Ansiedade e irritabilidade foram citadas por 75% das participantes, com impacto direto na concentração, no desempenho e nas relações no trabalho.

Problemas de sono afetam 70% das colaboradoras, e o estado de ânimo depressivo foi relatado por 61%.  Entre as mulheres que confirmaram estar no climatério, 53% disseram que os sintomas impactam o dia a dia no trabalho e 60% relataram consequências fora dele.

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A lacuna das políticas corporativas

A demanda é clara: 71% das colaboradoras gostariam de contar com uma política específica, 98% querem receber informações sobre o tema no trabalho e 93% gostariam de ter acesso a um canal com especialistas de saúde.

O ambiente cultural ainda pesa: 18% relatam que o climatério é tratado como piada no trabalho e 34% não sabem se o tema é visto negativamente pelos colegas. Ainda assim, 80% das respondentes afirmaram que se sentiriam confortáveis para conversar sobre o assunto no ambiente profissional, o que aponta para uma abertura que as empresas ainda não souberam aproveitar.

O papel das lideranças

43% das respondentes afirmam que o perfil do líder imediato influencia diretamente na disposição de falar sobre o climatério no trabalho. O dado reforça que políticas corporativas precisam vir acompanhadas de capacitação de líderes. Sem isso, a cultura de acolhimento dificilmente sai do papel.

Perfil das respondentes

Das 44 colaboradoras participantes, 75% têm entre 40 e 54 anos, faixa de maior incidência do climatério, e 73% têm mais de 10 anos na empresa. 34% confirmaram estar no climatério; 36% disseram não saber. Entre as que confirmaram, apenas 33% fazem reposição hormonal.

Em números

  • 98% querem receber informações sobre climatério no trabalho
  • 80% relatam esgotamento físico e mental
  • 71% querem uma política corporativa específica
  • 53% das mulheres em climatério dizem que os sintomas afetam o dia a dia no trabalho
  • 18% trabalham em empresas com alguma política voltada ao tema

Sobre a pesquisa

Pesquisa quantitativa conduzida pela Oest como projeto-piloto, com 44 colaboradoras de uma empresa parceira que autorizaram o uso de seus dados de forma sigilosa. O instrumento abordou sintomas do climatério, impacto no trabalho, percepções sobre o ambiente organizacional e demandas por políticas e suporte. Os dados são do piloto, mas a pesquisa já está em expansão: a Oest, focada em produtos para a Menopausa,  firmou parcerias com empresas de todo o Brasil para aprofundar o mapeamento do climatério no ambiente de trabalho. Organizações interessadas em diagnosticar sua realidade interna e integrar o estudo nacional podem solicitar a adesão à nova fase do mapeamento.

*Vanessa Kopersz é jornalista.

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres.