Entenda como a Terapia de Reposição Hormonal evoluiu e quais são os novos desafios enfrentados pelas mulheres na menopausa
Vanessa Kopersz* Publicado em 05/05/2026, às 06h00

A Terapia de Reposição Hormonal (TRH) tem ganhado aceitação crescente no tratamento dos sintomas da menopausa, após a remoção do alerta de 'tarja preta' pelo FDA, o que representa um avanço significativo na abordagem médica sobre o tema.
Estudos recentes indicam que os riscos associados à TRH, como câncer de mama e doenças cardiovasculares, foram exagerados, levando a uma maior prescrição de hormônios como estrogênio e progesterona para aliviar os sintomas do climatério.
Entretanto, ainda há controvérsias sobre a dosagem e a eficácia dos tratamentos, especialmente no uso de testosterona, que deve ser administrada com cautela e apenas em casos específicos, conforme orientações de entidades médicas brasileiras.
Há poucos anos , se uma mulher perguntasse ao seu médico sobre a Terapia de Reposição Hormonal (TRH) para o tratamento dos sintomas do climatério poderia receber uma resposta evasiva, ter sua dúvida ignorada ou sair do consultório levando receitas de remédios psicotrópicos. Tudo isso, sem que seus questionamentos sobre as possibilidades de um tratamento à base de estrogênio, progesterona ou testosterona fossem realmente sanados.
Felizmente e para alívio de muitas mulheres, a TRH, tratamento que usa hormônios sintéticos ou bioidênticos e busca aliviar ondas de calor, alterações de humor, suores noturnos, brain fog e mais de dezenas de sintomas relatados pelas mulheres que sofrem com os efeitos da menopausa, vem, cada vez mais, sido amplamente receitada,
E parece que, finalmente, o grande estudo de 2002 (O Women’s Health Initiative) que associou a Terapia de Reposição Hormonal ao câncer de mama e ataques cardíacos, entre outros males, ficou para trás. Em novembro do ano passado, o FDA (a Anvisa dos EUA) removeu o alerta de "tarja preta" da maioria dos medicamentos de Terapia de Reposição Hormonal (TRH) para menopausa - no Brasil, a compra de hormônios é permitida sem receita médica, em qualquer farmácia ou via internet.
A retirada da tarja preta, considerada histórica, ocorreu após evidências científicas demonstrarem que os riscos de câncer de mama, derrames e doenças cardiovasculares, associados a tratamentos com estrogênio mesmo em mulheres sem histórico da doença, eram exagerados.
Temos muito a comemorar? Sim! Mas isso não me impede de sentir que como disseram recentemente,a jornalista Mariliz Pereira Jorge e a atriz Claudia Raia,no programa ‘’Roda Viva,’’ que ainda somos cobaias de uma geração de médicos e profissionais da saúde que ainda aprendem a lidar com a questão da dosagem hormonal da mulher no climatério.
Eu mesma sou exemplo. Desde os 48 anos, venho peregrinando por profissionais que considero, em sua maioria, excelentes e com anos de expertise na clínica médica. Mas entre minhas queixas e a prescrição, foi difícil haver consenso entre eles.
Na verdade, o único ponto em comum foi o uso de estrogênio, já que este hormônio é como se fosse o ‘’CEO’’ de nosso corpo. Temos receptores dele ao longo do organismo todo, permitindo que exerça ações onipresentes. Os receptores de estrogênio estão no sistema reprodutivo, no útero, ovários, vagina e mamas. No Sistema Nervoso Central, por todo o cérebro, influenciando humor, cognição, produção de neurotransmissores e termorregulação. No sistema esquelético, essenciais para a manutenção da densidade óssea. No Sistema Cardiovascular, os receptores de estrogênio afetam vasos sanguíneos e coração. Estes receptores também em outros tecidos: fígado, pele, músculos e tecidos adiposos.
Já quando o assunto é progesterona, as opiniões se dividem: sem dúvida, esse é um dos hormônios mais importantes no corpo da mulher e participa de processos que vão desde o ciclo menstrual até a gestação, além de ter impacto no sono, no metabolismo ósseo e até no sistema cardiovascular. Com a menopausa, os ovários, naturalmente, diminuem a produção dela - a primeira a cair na perimenopausa.
Mas a progesterona tem um papel indispensável na reposição hormonal: proteger o endométrio,camada que reveste o útero. Assim, mulheres que ainda têm o órgão precisam também desse hormônio, seja por via oral, vaginal ou pelo uso de sistemas intrauterinos (DIU), que contém o levonorgestrel, um progestágeno sintético.
Mas e se como eu, muitas mulheres têm efeito paradoxal com a progesterona? Ou seja,ao invés de ficarem calmas e relaxadas, têm sensação depressiva, irritabilidade, enxaqueca, tontura ou desconforto físico após o uso — "sintomas relacionados, em parte, à ação dos metabólitos neuroativos da progesterona, como a alopregnanolona, sobre receptores cerebrais," como explica a ginecologista e fundadora do movimento My Pausa, Dra. Fabiane Berta.
A situação é complicada, pois mesmo sentindo-se mal com o hormônio, as mulheres com útero precisam da progesterona para proteger seu endométrio contra possíveis tumores. Eu sou uma delas e acabei ouvindo de dois médicos extremamente competentes, que a opção seria usar um DIU para que a progesterona agisse mais localmente no útero e não tivesse seus efeitos propagados no cérebro, gerando os desconfortos psicológicos que citei acima. Hoje, uso um DIU Kyleena.
Temos ainda a testosterona, a mais relevante polêmica na ala médica.
Em maio de 2025, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), em conjunto com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e o Departamento de Cardiologia da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DCM – SBC), divulgou uma nota de alerta sobre os riscos e limitações do uso de testosterona em mulheres. Segundo as entidades, a prescrição de testosterona só é sustentada por evidências médicas em situações muito específicas, como no tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa e, mesmo nesses casos, apenas após uma avaliação criteriosa para descartar outras causas para a condição.
“Não existe benefício comprovado isento de riscos do uso de testosterona para fins estéticos, aumento de massa muscular, emagrecimento ou rejuvenescimento. Toda mulher deve procurar um médico qualificado antes de iniciar qualquer terapia hormonal,” disse à época, a presidente da FEBRASGO, Dra. Maria Celeste Osorio Wender.
As entidades acima citadas ainda esclarecem que não há recomendaçãopara a chamada "regulação hormonal" na menopausa.
A verdade é que a testosterona é um hormônio vital que todos os seres humanos possuem em níveis variados. Como mulheres, muitas vezes não pensamos na testosterona ou não consideramos que ela seja necessária e tão importante quanto o estrogênio para a saúde e a vitalidade. A testosterona é produzida em nossos corpos junto com o estrogênio e a progesterona. Ela é o mais conhecido dos andrógenos — um grupo de hormônios que inclui o sulfato de deidroepiandrosterona (DHEA-S), a deidroepiandrosterona (DHEA), a androstenediona e a di-hidrotestosterona — que servem como precursores para o desenvolvimento do estrogênio. Os andrógenos também são responsáveis pelo funcionamento de muitos outros sistemas vitais, incluindo os sistemas cardiovascular, muscular, esquelético e reprodutivo.
À medida que envelhecemos, a testosterona (assim como nossos outros hormônios) diminui. Nossos ovários passam a produzir níveis menores e muitas mulheres de meia-idade apresentam números "baixos" de testosterona, o que pode afetar a libido.
Segundo a norte-americana Dra.Mary Clare Haver, autora do livro "A Nova Menopausa," cerca de 40% das mulheres nos EUA afirmam ter algum problema sexual, sendo que 12% dessas mulheres relatam um problema que também lhes causa angústia pessoal. Embora a disfunção sexual geralmente piore com a idade, a sua forma grave atinge o pico em mulheres de meia-idade (45 a 64 anos) e está em seu nível mais baixo em mulheres de 65 anos ou mais. O problema sexual mais prevalente para as mulheres é o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), caracterizado pelo baixo desejo acompanhado de sofrimento/angústia.
Embora nenhum produto de testosterona seja atualmente aprovado para o tratamento do TDSH em mulheres nos Estados Unidos ou no Brasil, eles são comumente prescritos de forma off-label (uso não indicado em bula), muitas vezes como um creme tópico manipulado.
Atualmente, apenas o tratamento do TDSH em mulheres pós-menopausadas adequadamente selecionadas — e sem outras causas possíveis para a disfunção sexual — é apoiado por evidências de ensaios clínicos para a terapia com testosterona. Para maximizar o tratamento, é necessária uma avaliação completa dos fatores fisiológicos, psicológicos, de estilo de vida e relacionais.
A urologista e educadora americana Dra. Kelly Casperson assumiu como missão educar e capacitar as mulheres sobre a testosterona e desejo sexual feminino com seu livro best-seller "You Are Not Broken" (Você Não Está Quebrada) e seu podcast internacional. Ela está revolucionando a saúde sexual feminina e se compromete em capacitar as mulheres a viverem suas melhores vidas amorosas.
De acordo com as diretrizes da Sociedade Internacional para o Estudo da Saúde Sexual da Mulher (ISSWSH), aqui estão alguns pontos fundamentais sobre a testosterona:
É um hormônio essencial para o desenvolvimento e manutenção da anatomia e fisiologia sexual feminina e modulação do comportamento sexual.
Não existe um "nível de testosterona" específico para o diagnóstico de TDSH ou para ser usado como meta de tratamento.
A concentração de testosterona total é o melhor ensaio prático.
A testosterona total e a SHBG devem ser medidas antes de iniciar a TRH.
A dosagem adequada deve atingir e manter os níveis de testosterona total na faixa fisiológica pré-menopausal.
Se uma formulação feminina aprovada não estiver disponível, um décimo da dose masculina padrão de testosterona transdérmica a 1% pode atingir a faixa normal.
Eu usei e uso um implante de testosterona em minha TRH e senti melhorias na libido e na disposição -apesar do aumento de pelos e queda de cabelos. Algumas amigas minhas também fazem uso do hormônio (seja em pellet ou creme) e relatam mais disposição, energia e vontade para o sexo. Quem está certo e quem está errado? Difícil dizer.
As vias de administração hormonais também são muitas e dividem opiniões. Alguns médicos ainda acreditam na via oral, mesmo que esta, embora eficaz e bem estudada, passe pelo fígado, o que pode aumentar riscos de trombose e alterar fatores de coagulação. A vantagem, segundo os doutores que a prescrevem, seria a garantia de absorção, o que nem sempre acontece com a via transdérmica, uma das preferidas pelos ginecologistas e endocrinologistas.
Como citei acima, um consenso em torno dos tipos e vias de terapia de reposição está longe de ser alcançado. E enquanto isso, nos tratamos ao sabor de opiniões diversas e certezas nem sempre garantidas - mesmo porque, a medicina, infelizmente, não é uma ciência exata.
Uma coisa, porém, é certíssima: há contraindicações absolutas para o tratamento de reposição hormonal: mulheres com histórico de trombose, câncer hormônio-dependentes, como os de mama e de endométrio, e doenças cardiovasculares prévias, como infarto e AVC. Essas podem buscar alternativas com alopatia ou fitoterápicos.
*Vanessa Kopersz é jornalista.
*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres.