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Como o hormônio estetrol pode revolucionar a reposição hormonal via oral no climatério

Descubra como o Estetrol pode aliviar sintomas da menopausa com menos riscos à saúde das mulheres.

Vanessa Kopersz* Publicado em 09/06/2026, às 06h00

Entenda as vantagens do Estetrol em comparação aos estrogênios tradicionais na terapia de reposição hormonal. - pexels
Entenda as vantagens do Estetrol em comparação aos estrogênios tradicionais na terapia de reposição hormonal. - pexels

A Terapia de Reposição Hormonal (TRH) é uma opção para aliviar sintomas da menopausa, mas sua adoção é cautelosa devido a preocupações com efeitos colaterais. O Estetrol, um novo estrogênio, surge como uma alternativa promissora, com menor impacto em tecidos sensíveis e efeitos colaterais reduzidos.

Produzido naturalmente durante a gravidez, o Estetrol apresenta vantagens como maior biodisponibilidade e menor impacto no fígado e na coagulação sanguínea, despertando o interesse da comunidade médica. Estudos indicam que ele pode atuar de forma seletiva em diferentes tecidos, oferecendo proteção em áreas críticas como cérebro e ossos.

Embora o Estetrol ainda não tenha aprovação da Anvisa para TRH no Brasil, já está disponível em outros países como contraceptivo. Pesquisas em andamento buscam confirmar sua segurança e eficácia, com a expectativa de que se torne uma opção viável para mulheres que enfrentam a menopausa, mas a cautela permanece até que mais dados sejam coletados.

Resumo gerado por IA

Para milhões de mulheres que cruzam a fronteira do climatério e da menopausa, a Terapia de Reposição Hormonal (TRH) surge como uma promessa de alívio para os fogachos, a insônia, as oscilações de humor e tantas outras dezenas de sintomas extremamente incômodos. No entanto, o tratamento com hormônios ainda divide opiniões. Embora a ciência tenha evoluído drasticamente, a hesitação médica e o receio de efeitos colaterais, como o risco de trombose e o estímulo ao tecido mamário, fazem com que a TRH ainda seja adotada com cautela por certas pacientes e profissionais.

É nesse cenário de busca por máxima segurança que a comunidade científica se volta para uma nova e promissora descoberta: o Estetrol (E4). "O Estetrol é um tipo de estrogênio produzido exclusivamente durante a gravidez. Depois que nascemos ele rapidamente desaparece do sangue tanto da gestante quanto do feto," explica a Dra. Karen Abrão, ginecologista.

Originalmente conhecido como o "estrogênio fetal" por ser produzido naturalmente pelo fígado do feto durante a gravidez, o Estetrol foi recentemente isolado, sintetizado a partir de fontes vegetais e já introduzido com sucesso no mercado de contraceptivos, como o Nextela. Agora, os refletores da medicina estão focados no seu imenso potencial para a reposição hormonal. "O Estetrol é menos agressivo ao tecido mamário . Além disso, tem menor impacto no fígado da mulher, menor influência na coagulação sanguínea e sua ação é mais prolongada produzindo um efeito mais estável," corrobora o Dr. José Bento, ginecologista.

A novidade realmente aguça a comunidade médica: "há várias décadas não se introduzia uma molécula nova de estrogênio no cenário dos anticoncepcionais. O estetrol foi identificado na década de 60, porém os processos de produção padronizados em larga escala foram desenvolvidos apenas mais recentemente, permitindo novos estudos com perspectiva de transformar em medicamentos, que foram iniciados a partir dos anos 2000. Nesses estudos, começou-se a perceber que a molécula, embora bem menos potente do que o estradiol e o estriol, tinha um metabolismo muito interessante, com menor impacto no fígado, coagulação e na mama," elucida a Dra. Karen. E tem mais "quando uma mulher ingere um comprimido de estradiol, só 10% da dose chega no sangue após passar pelo fígado. Com o estetrol, esse número passa a quase 90%. Ele também dura mais tempo na circulação, enquanto estradiol e estriol tem um tempo mais curto de ação," complementa a Dra.

O que torna o Estetrol diferente de tudo o que já existe?

Para entender o entusiasmo dos especialistas, é preciso compreender que o Estetrol não atua como os estrogênios comuns (como o estradiol ). Ele é classificado como um NEST (Nuclear Estrogenic Selective Action in Tissues, ou Ação Estrogênica Seletiva Nuclear nos Tecidos).

Na prática, isso significa que ele é o primeiro estrogênio conhecido com ação tecidual seletiva. Ele se comporta de maneiras diferentes dependendo de onde atua no corpo feminino:

  • Agonista no cérebro, ossos e sistema vascular: ativa os receptores estrogênicos onde a mulher precisa de proteção, controlando com eficácia as ondas de calor e prevenindo a perda da massa óssea (osteoporose).
  • Antagonista ou neutro nas mamas e no endométrio: bloqueia ou não estimula a proliferação celular nesses tecidos sensíveis, o que teoricamente reduz as preocupações históricas relacionadas ao risco de malignidade mamária.

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"A pergunta mais importante a ser respondida nessa momento é se o Estetrol é mais seguro que os demais estrogênio usados até então na terapêutica hormonal em mulheres nessa etapa da vida.  Ainda que os dados disponíveis demonstrem menores efeitos negativos sobre a coagulação sanguínea, menor estimulação de proteínas de síntese hepática, um perfil metabólico mais favorável comparado aos demais estrogênio naturais, particularmente o Estradiol, o tempo de acompanhamento das pacientes tratadas nesses protocolos clínicos de investigação ainda é pequeno, o que não nos permite com absoluta certeza, afirmar definitivamente que haja uma efetiva segurança quanto aos eventos adversos conhecidos com a terapêutica estrogênica até então empregada, com relação à trombose venosa profunda, embolia pulmonar, acidente vascular cerebral (AVC) e câncer de mama, ainda que os resultados se mostrem favoráveis e promissores em face dos dados disponíveis. Claro que essas respostas só poderão ser dadas com maior tempo de acompanhamento," explica o Dr. Cesar Eduardo Fernandes, Presidente na Associação Médica Brasileira e Professor Titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC.

No Brasil, o produto ainda não está aprovado pela Anvisa para a Terapia de Reposição Hormonal. Já foi aprovado em outros países para administração em comprimidos por via oral, uma vez ao dia. Ao que tudo indica, o Estetrol pode vir a ser ao longo do tempo, pelos dados promissores disponíveis,  mais uma opção no acervo de possibilidades hormonais do tratamento dos sintomas das mulheres no período da menopausa, agregando novos diferenciais de segurança para as usuárias.

Apesar do entusiasmo com a chegada do Estetrol às farmácias na área da contracepção, ginecologistas e sociedades médicas ressaltam a importância da cautela e do tempo. Como a aplicação do Estetrol voltada especificamente para esquemas de TRH em longo prazo ainda passa por consolidação, os doutores reforçam que ainda precisamos de mais dados robustos de acompanhamento para cravar sua total soberania sobre o estradiol tradicional em todas as faixas etárias.

O consenso atual é de que a medicina caminha a passos largos para uma reposição sob medida. Para as mulheres que antes eram privadas dos benefícios da TRH devido a fatores de risco moderados, o Estetrol abre uma janela de oportunidade inovadora, aliando o alívio dos sintomas a um padrão de segurança que a ciência persegue há décadas.

Para entender melhor as discussões científicas e metabólicas sobre como os diferentes tipos de hormônios interagem com o corpo feminino no período de transição, assista a esta explicação sobre a posição do estetrol na régua de estrogenicidade, detalhando os impactos do hormônio nos riscos tromboembólicos e nas funções hepáticas.

"Os estudos iniciais têm proposto o uso oral, como substituto ao estradiol, combinado com progestágenos para proteger o endométrio, uma vez que os dados mostram que o estetrol prolifera endométrio com o uso contínuo, da mesma maneira que o estradiol," explica a Dra. Karen. "Já existem estudos de fase III em andamento, que vão definir com mais segurança as doses para futuro desenvolvimento de medicamentos padronizados de TRH para a menopausa," ela completa.

Esses mesmos estudos iniciais avaliaram a eficácia do estetrol mais especificamente para sintomas vasomotores (ondas de calor, suor noturno) e sintomas vaginais (ressecamento vaginal, dor na relação).

Existem boas perspectivas de que o Estetrol ajude a melhorar os outros sintomas dependentes de hipoestrogenismo (baixo estrogênio), porém ainda não há estudos que façam essa avaliação mais ampla.

Outro ponto muito positivo em relação ao estretrol é sua afinidade com os receptores de estrogênio.

"O estetrol atua de maneira seletiva em alguns tecidos do corpo, diferente do estradiol. Essa seletividade é justamente o motivo do interesse por essa molécula. Existem receptores para estrogênio no núcleo das células e na sua superfície. Os efeitos no núcleo são mais de longo prazo, regulando ativação de genes. Os efeitos dos receptores da superfície são mais rápidos, disparando ações em cadeia, como as alterações da coagulação do sangue e o estímulo das células mamárias," complementa a Dra. Abrão.

Quando avaliamos os estudos iniciais, o Estetrol parece uma molécula promissora para a terapia hormonal da menopausa, pela facilidade do uso oral sem os efeitos colaterais comuns do estradiol pela mesma via. Porém, não há ainda evidências para sustentar sua prescrição no contexto do climatério e menopausa.

"O Estetrol tem se mostrado mais estável nos receptores levando sua ação mais prolongada e sem agredir fígado, mama e fatores de coagulação. Comparando com outros estrogênios do mercado , as pesquisas estão bem otimistas quanto a seu uso como terapia de reposição hormonal, mas nada ainda concreto pra ser usado atualmente," completa o Dr. José Bento.

*Vanessa Kopersz é jornalista

*Com edição de Marina Yazbek Dias Peres